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A verdade de cada um

Matéria publicada em 21 de julho de 2017, 07:10 horas

 


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“Não há fonte de erro tão grande como a busca da verdade absoluta”

Samuel Butler

 

Platão, filósofo e matemático do período clássico da Grécia Antiga, dizia que não existe verdade absoluta. Portanto, o que é a verdade?

Verdade está ligada a tudo que é sincero, é a ausência total da mentira. A verdade absoluta é algo indiscutivelmente concreto todo o tempo e em todos os lugares, é a verdade sem contestações. O que é verdade para uma pessoa deverá ser verdade para todas. Não é factível de dúvida, como o dia e a noite, a lua e o sol, a vida e a morte.

Uma das características que nós, seres humanos, temos é a busca incessante pela verdade, o desejo de comprovar a veracidade dos fatos, ver e tocar a ferida. E distinguir o que é verdadeiro do que é falso, é algo que frequentemente nos coloca em dúvida. A busca pela verdade surge logo enquanto somos crianças e vai num crescente pela vida afora, assim vamos sempre questionando as verdades estabelecidas. A filosofia tem na investigação da verdade o seu maior valor.

Estamos sempre em busca da veracidade das coisas, querendo a comprovação daquilo que é verdadeiro. O significado de veracidade está intimamente ligado a tudo que diz respeito à verdade ou à capacidade de alguém dizer sempre aquilo que é confiável. Veracidade especifica um fato real, verídico. Trata-se de um acontecimento que não suscita dúvidas ou contradições que comprometam sua autenticidade. Já o seu contrário é o ceticismo, um estado de quem duvida de tudo, de quem é descrente. Um indivíduo cético caracteriza-se por ter predisposição constante para a dúvida, para a incredulidade.

Diz-se que não existe verdade absoluta, assim como não existe certo ou errado. O que existe é o ser humano, sua consciência e seu enorme leque de escolhas. Há, todavia, uma verdade absoluta: cada um tem a sua própria visão da verdade, o seu olhar que classifica o que realmente é certo e errado, mesmo que não seja perfeito e totalmente assertivo. Há pessoas, no entanto, que vivem à procura da verdade nos outros e acreditam que poderão, depois de achá-la (se acharem), viver em função dela. E há outras que procuram impor suas verdades aos outros. Umas querem ser escravizadas, outras querem escravizar. Um velho pensador disse algo que é por demais marcante: “Acredite no que quiser, mas, se for preciso, mude de opinião”.

Quando pronunciamos a frase “juro falar a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade”, podemos estar mentindo ou, na pior das hipóteses, falseando uma verdade? Verdades secretas não são verdades porque estas, se são transparentes, podem vir a público, mas enquanto secretas são capazes de guardar algo que irá nos deixar em dúvida acerca da sua veracidade? Perguntas surgem aos borbotões quando questionamos a verdade, algo incrivelmente diferente de quando buscamos capturar a mentira.

Não há verdade quando não existe transparência nem clareza nas atitudes. A procura pela verdade em qualquer aspecto ou profundidade é indiscutivelmente a busca de todo ser humano, um processo que perdura por toda a existência, não finda jamais.

“Penso, logo existo!” é uma frase icônica do filósofo francês René Descartes, marcando para sempre a visão do movimento iluminista, e colocou a razão humana como única forma de existência. Descartes entendeu que, ao duvidar, estava pensando e, por estar pensando, ele existia. Desta forma, a sua existência foi a primeira verdade irrefutável que ele encontrou. Portanto, é fato que toda busca pela verdade reflete uma pressuposição e pode ser vista da seguinte forma: para os racionais, é fruto do processo cognitivo, algo que, depois de apurado, leva à conclusão de que se torna o verdadeiro norte nos processos investigativos posteriores; para os lógicos, é fruto do processo cognitivo, entretanto não necessariamente investigativo, mas epistemológico; já para os naturais, é fruto da convicção pessoal ainda não confrontada pela pesquisa ou pelo desenvolvimento epistemológico.

Muito mais crucial do que aquilo que sabemos ou deixamos de saber é aquilo que não queremos saber, disse sabiamente Eric Hoffer. Acredito que a verdade seja primordial na vida de cada um, porém, sempre a ela deve estar aliada a sabedoria, pois, de posse desse bem valioso, é possível fazer uso da verdade de forma a neutralizar quem não a quer. Porque a sabedoria está relacionada à experiência, à maturidade, ao equilíbrio. Sabedoria vem do latim sapere – o mesmo que sabor ou gosto. Temos que aprender a degustar esse saber para que possamos ter a sensatez, a prudência e a moderação em doses perfeitas.

Cada situação vivenciada por nós tem as suas características e os atores que fazem parte desse processo, e cada um deles, independentemente do fato, tem a sua história com passado e presente, instantes que carregam seus valores e suas expectativas. E justamente pela abordagem do contexto particular que é possível conseguir resultados satisfatórios para todos, uma vez que essas informações integradas permitem um constante reajustamento da comunicação para que se produzam os efeitos desejados, sendo assim ancorada pela verdade, porque, através dela, é possível nos mantermos firmes e leais a todos.

Portanto, a busca pela verdade deveria ser uma busca de autoidentificação com a própria verdade e autoconfrontação pelas evidências que levam à verdade. Caso isso seja observado, é possível ao indivíduo nortear-se em direção à verdade e chegar a conhecê-la.

Mesmo que, por algum motivo, a sua verdade se diferencie da minha, ela continuará a ser “verdade”. Para isso, é fundamental que seja pesada na balança do equilíbrio e do respeito, algo que nos permite patentear a verdade como algo irrefutável.

 

 

ARTUR RODRIGUES | artur.rodrigues@diariodovale.com.br


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