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A vida cruel durante a pior idade

Matéria publicada em 10 de maio de 2016, 07:10 horas

 


Idosos são condenados a prisão perpétua pelo crime de ficarem velhos; velhice no Brasil é um pesadelo que só acaba com a morte

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Como já comentei aqui nesta coluna, viajar de ônibus fornece material farto para essas crônicas. Há quinze dias comentei sobre um debate feminista que terminou com uma moção de repúdio a presidente Dilma. No ônibus o jornalista ouve histórias interessantes, casos curiosos e histórias tristes. É só ficar com o ouvido atento e a partir daí desenvolver o tema da crônica.

Outro dia sentou na minha frente uma senhora que cuida de idosos em um asilo. Conversando com uma colega ela se queixava da aproximação do inverno. “No verão já é difícil tirar os velhinhos da cama, para tomar banho, às quatro horas da madrugada. No inverno então eles resistem, alguns ficam agressivos”, disse a cuidadora. A amiga ficou admirada com o horário do banho. Quatro horas da madrugada! E a mulher explicou: “Nós colocamos eles para dormir as sete horas da noite, as cinco da manhã eles já acordam pedindo café. Por isso o banho tem que ser as quatro”.

Cheguei em casa impressionado com a história e falei com várias pessoas, que conhecem a rotina dos asilos de idosos. Todos confirmaram a história. Imagine leitor, você tem setenta, oitenta anos de idade, a família o abandonou em um asilo onde você vai passar o resto de seus dias em regime de prisão. Condenado a viver atrás das grades pelo crime de ter envelhecido.

E nas madrugadas de inverno, quando a temperatura chega a quatorze, quinze graus, você é arrancado do calor das cobertas para tomar banho forçado as quatro da matina. Antes do raiar do dia.

A mesma senhora que contou no ônibus, para todos ouvirem, a história do banho na madrugada falou sobre as visitas. Algumas famílias levam os idosos para passar o fim de semana na casa dos parentes. E eles choram quando voltam para o asilo. Não é para menos, quem é que quer passar o fim da vida enclausurado em um regime de campo de concentração? Eu sei que nem todos os asilos são iguais. Em algumas cidades da região os idosos têm direito a excursões turísticas, passeios. Em Pinheiral eu sei que não tem. No máximo eles fazem uma caminhada até o colégio agrícola. O resto do dia é na prisão. Com toque de recolher as sete horas e banho as quatro, segundo informaram as fontes deste cronista.

Realmente, ficar velho no Brasil não é fácil. E ainda tem gente que tenta maquiar o problema dizendo que a velhice é “a melhor idade”. Não é não. Como bem disse o ator Lima Duarte, ficar velho no Brasil é uma coisa terrível. Mesmo para aqueles que têm saúde, e conseguem viver em suas próprias casas, a vida não é fácil. O governo vive cortando o valor das aposentadorias. Com a crise há idosos, ex-funcionários públicos, que estão sem receber suas pensões há meses. Não tem dinheiro para os remédios, as contas se acumulam. E o governo diz que não pode fazer nada.

Depois dos 60 anos as pessoas ficam sujeitas a doenças crônicas e degenerativas. É quando elas precisam tomar vários medicamentos caros regularmente. Minha mãe, por exemplo, sofria de hipertensão e precisava tomar um remédio que custava mais de cem reais a caixa. E eram duas caixas por mês. Imagine uma pessoa que ganha salário mínimo tendo 50% de sua renda comprometida com tratamentos médicos. Vai ter que escolher, ou morre de fome ou morre da doença.

Lima Duarte criticou os filmes que fazem graça com os velhos. Fazendo comédia com os problemas dos idosos. Realmente não tem graça nenhuma. O Brasil está se tornando um país de velhos sem ter pensado em uma estrutura para lidar com o problema. E a solução é jogar o idoso no campo de concentração dos asilos. Ou deixá-lo sem remédios, sem aposentadoria, sem esperança.

Melhor idade coisa nenhuma. Velhice no Brasil é um pesadelo que só acaba com a morte.

Esquecidos: Vida na terceira idade pode virar pesadelo (Foto: Paulo Dimas)

Esquecidos: Vida na terceira idade pode virar pesadelo (Foto: Paulo Dimas)

 

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br


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8 comentários

  1. Avatar

    se me tirasse as quatro da manhã pra me dar banho ficaria muito p#to tambem , no mais a denuncia ta feita agora cade as “otoridades” pra fiscalizar e punir se for o caso.

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    Porque virou idoso virou santo.
    Tem gente que maltrata os filhos na infância e juventude e acha que por serem filhos tem que fazer tudo.Nunca ajudaram com os netos e nem sequer deram atenção a esses .
    Acham que filho tem dever e obrigação de tudo.Ai depois de velhos esperam o quê?

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    Antonio Carlos Peludo

    pelo que li essa vida é cruel e não existe maior castigo do que viver em asilo ; ja o ato da morte seria a libertação.

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    Ser idoso é mais que o eufemismo da “melhor idade”. Ser idoso é a glória de chegar onde muitos não alcançam… Para uns, é o fardo resultante de uma vida de descuido para consigo próprio e com os outros. Para outros, é o ocaso terno e contemplativo. Para todos, é a vitória da vida…

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      Quantas besteiras! Com todo o respeito, Sr. Al Fatah, ser idoso é encontrar-se no corredor da morte, pois já nascemos condenados pelo “homem da foice” desde o nascimento. Não há vitória alguma em ser velho. Acorde! V. está no mundo da fantasia. A realidade deste mundo, parece, está longe de sua compreensão.

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    O pesadelo do salário de aposentado na maioria das vezes começa antes dos 60 anos de idade, já que com 50 já tem mulher aposentada e homem aos 53. E será que todos os internados em asilo têm família? Têm algum parente com endereço conhecido da instituição? Dizem que, para os que tem dinheiro, existem casas de repouso que podem ser melhor do que o lar de alguns familiares que vivem discutindo com ou ignorando a presença do idoso debaixo do mesmo teto.

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    Mas isso é crônica? deveria ser no mínimo uma denúncia de maus tratos a pessoas idosas. Seu Jorge leva a mau não mas o senhor está parecendo o DEP Waldir Maranhão.

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