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Anomia à brasileira

Matéria publicada em 26 de maio de 2017, 07:10 horas

 


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O Brasil não conhece o Brasil, cantou a doce pimentinha Elis Regina em Querelas do Brasil, música do mestre Aldir Blanc, composta em 1978. O título é uma brincadeira com Aquarela do Brasil, música de Ary Barroso.

De 1978 para cá muita coisa mudou e não foram poucas as mudanças que o nosso país sofreu, sobretudo, no imenso aumento da população, o que fez também aumentar o número de parlamentares de Norte a Sul.

Hoje, a Câmara tem 513 deputados oriundos de 27 unidades federativas. Cada uma delas tem direito de eleger uma quantidade de parlamentares baseado no tamanho da sua população, sendo que o número máximo de deputados por estado é 70. Uma festa para ninguém reclamar, mas tem quem reclame querendo aumentar a quantidade de cadeiras.

Mas tanta gente, tantos partidos, 35 em atividade, fora os outros 28 que estão em processo de formação, que inclui a coleta de assinaturas a fim de adquirir o registro no Tribunal Superior Eleitoral, não poupou o nosso país de entrar de cabeça, tronco e membros em uma terrível anomia, ou seja, a total ausência de regras, o patente desvio das leis naturais, a desorganização nua e crua.

Presidente virou artigo de luxo. Todos fazem fila para incriminar seus pares, seus velhos amigos e comparsas de dias atrás. O país virou um caos governado de forma e regra no “salve-se quem puder” e na luta do “daqui não saio, daqui ninguém me tira”. Paulo Maluf, o pai do bordão “Roubo, mas faço”, só agora, anos depois de ter praticado a sua arte milenar de ganhos fáceis, é que foi condenado há quase oito anos de prisão, mas próximo de completar 86 anos, vai acabar voltando para casa no máximo com uma tornozeleira para chamar de sua.

Dias difíceis

Infelizmente um país com apenas 517 anos tem vivido dias de horrores. Não foram poucas as mudanças de moedas, anos sob o julgo dos militares, isso que ainda tem muito fã desejando arduamente ver uma farda bem engomada no comando dessa terra. Por fim, governos corruptos que passaram as últimas décadas se locupletando do nosso dinheiro de todas as maneiras, comprando anéis, brincos e colares, carros blindados, apartamento de luxo dentro e fora do país, lanchas, além de viagens internacionais e muito mais. Quem não rouba não participa do grupo.

A anomia que estamos vivendo, é um estado de falta de objetivos e regras, a total perda de identidade. O que vivemos nesse exato momento é o total sentimento de se “estar à deriva”, somando um mega desemprego com mais de 14 milhões de desempregados espalhados pelos quatro cantos dessa terra. Muitos vivendo da caridade de outros, a pirâmide do caos alimentada pela miséria.

Certamente que ainda resta uma classe, com certeza bem diminuta de verdadeiros políticos, aqueles que ainda levam a sério essa palavra, que acreditam que política é uma ciência, é o meio de se fazer o bem comum, de cuidar, de promover a felicidade humana. Mas uma soma considerável, aquela que temos visto diariamente nas páginas dos jornais, TVs e rádios, mostrando o seu talento para as falcatruas, não apenas desconhece o que é política como de verdade nunca quis fazê-la.

Futuro?

O país do futuro caminha em direção ao retrocesso, o que pensamos em deixar para os nossos filhos parece estar comprometido, corroído pelo crime. Temos que acreditar que toda essa revolução não irá terminar em pizza ou outro tipo de comida, mas sim em correção. Talvez seja impossível livrar-se totalmente da corrupção. Mas muito pode ser feito para preveni-la e detectá-la quando aconteça. Esta é uma parte importante: ser capaz de detectá-la bem cedo, ter capacidade de investigar os possíveis erros, claro, se houver evidências, que a Justiça siga o seu curso.

É preciso ter legislação de acesso à informação e disponibilizar tudo sobre o orçamento e os gastos do governo. Em licitações e toda forma de compra pública, é preciso ter sistemas de prevenção, especialmente em contratos nas áreas de construção e infraestrutura, em que há muito dinheiro envolvido. Também assegurar que as leis sejam cumpridas. Muitos países têm leis e normas corretas, mas não as aplicam apropriadamente. É aí que as pessoas passam a pensar que podem fazer qualquer coisa, porque não importa, nunca serão levadas à Justiça. No Brasil, a Lei de Acesso à Informação e a divulgação regular de dados, por parte do governo, sobre receita e gastos públicos, também previnem parte da corrupção. Porque as pessoas podem ver para onde o dinheiro está indo.

Em vários países da Ásia e, sobretudo, na China, assassinos, traficantes de drogas e políticos corruptos são condenados à morte. No Brasil, a impunidade favorece o surgimento de novos assassinos, mais traficantes e muitos corruptos. O que pode acontecer de diferente naquele país asiático, é se o valor roubado for devolvido, o criminoso terá sua vida poupada, mas vai amargar merecidamente a prisão perpétua. Aqui, volta-se para casa, na maioria das vezes para uma bela mansão em um bairro nobre, com uma tornozeleira e nada mais.

O Brasil deveria fazer um plebiscito, pelo qual o próprio povo deveria decidir pela adoção de penas mais duras. Não são poucas as pesquisas que já mostram que a maioria da população brasileira é a favor de penas severas. Só falta fazer uma consulta oficial, se isso faria ou não inibir a prática de vários crimes, quem sabe?

Certamente o que todos desejam, é ver o Brasil vivo e feliz!

 

ARTUR RODRIGUES | [email protected]


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