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Ao mestre quase com carinho

Matéria publicada em 19 de outubro de 2018, 08:30 horas

 


“Ao mestre com carinho” é um filme que marcou o Cinema quando do seu lançamento em 1967. Escrito por James Clavell, teve no papel principal o extraordinário ator negro Sidney Poitier, interpretando um engenheiro que perde o emprego e se vê, no momento seguinte, em uma sala de aula lecionando para alunos brancos – figuras problemáticas e desajustadas que têm como objetivo principal hostilizar suas aulas. O filme britânico não ganhou todos os prêmios que merecia, mas fez história muito mais do que muitos ganhadores do Oscar.
Lembrei-me deste filme nesta semana quando, no dia 15, foi comemorado o Dia do Professor, personagem fundamental na história de qualquer nação, mas que no Brasil não recebe a atenção, o respeito e muito menos o salário que deveria. Em nosso país particularmente, enfrenta todos os reveses possíveis e outros inimagináveis para dar suas aulas, muitas vezes atuando por puro diletantismo, entregando-se a este sacerdócio de maneira visceral e apaixonada. E até mesmo com o salário em atraso, sendo este algo acintoso de tão ínfimo, e a falta de condições básicas de uma sala de aula, onde, muitas vezes, ele se depara com a falta de tudo – do giz ao papel, do quadro ao respeito dos alunos -, não perde a sua pose de professor ou de mestre e se lança sem paraquedas em prol de um sonho que tenta, muitas vezes sem sucesso, dividir com os alunos.
Haja vista o caso do professor que foi recentemente humilhado por alunos em uma escola na cidade de Rio das Ostras, no Estado do Rio de Janeiro, onde alguns alunos-selvagens entregaram as provas amassadas, rasgadas e até comidas. Não era fome de saber, mas sim uma doença chamada “Falta de Educação”, um mal que tem contagiado muitos estudantes país afora. Ou ainda a professora de Língua Portuguesa da cidade de Indaial, em Santa Catarina, agredida com um soco no olho por um aluno de 15 anos que se recusou a colocar o livro sobre a mesa. Por fim, temos o caso da professora da cidade de Piraí, no Sul fluminense, que na semana passada foi agredida com socos e pontapés pelos pais de uma aluna de nove anos porque esta havia sido chamada à atenção em sala de aula.
Esses são apenas alguns casos, pinçados de milhares de outros, nos quais não se percebe o carinho para com o mestre, muito menos a conversa e o respeito. Nossa Educação está transformada, sucateada, igual a muitas escolas, espaços que não agregam mais valores, que são meros depósitos onde muitas vezes se maquia o ensino no “eu finjo que ensino e você finge que aprende”, já que todas as alternativas se esgotaram frente aos olhos fechados do poder público. Escolas onde o aluno manda, onde imperam cotidianamente a droga, a arma e, sobretudo, o medo.
As escolas bem diferentes das que estudei na década de 1960, hoje tem que ter, em pontos estratégicos, portões pesados, seguranças armados, câmeras poderosas, entre outros aparatos, para que consigam evitar a entrada de intrusos e a evasão daqueles que não querem aprender e preferem as ruas às salas de aula. Faculdades espalhadas pelo país têm seus pátios frequentados por vendedores de drogas, ladrões e estupradores.
A Educação fugiu do controle e se mostra frágil e ineficiente nas mãos de inúmeros ministros que não ministram e secretários que apenas esquentam lugares.
O que diriam pensadores como Jean Piaget, Paulo Freire, Maria Montessori, Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira, Bertha Lutz, Cecilia Meireles, entre tantos outros grandes nomes, diante do que encontramos hoje na Educação? Talvez se não fossem agredidos por alunos ou seus pais, os professores continuariam suas lutas em prol das mudanças que avançam a passos de jabuti, animal símbolo de resistência e de persistência.
Obviamente, ainda temos muitas cidades espalhadas pelo Brasil e aqui no Sul do Estado mostrando que é possível reverter este quadro aterrador. São pessoas que se entregam de corpo e alma ao santo ofício de ensinar, e o fazem de maneira a não deixar dúvidas de que a Educação ainda é, e sempre será, a porta de entrada para as grandes mudanças daquele que quer aprender e que coloca em prática os ensinamentos que recebe. Ainda é possível conhecer escolas repletas de alunos, com salas de aulas felizes e esperançosas de um futuro menos nefasto e evasivo.
Este mês, além do Dia do Professor, comemoramos, no dia 4, o Dia Mundial da Poesia; no dia 12, o Dia Nacional da Leitura; no dia 13, o Dia Mundial do Escritor; no dia 20, o Dia Mundial da Poesia e do Poeta; e, por fim, no dia 29, o Dia Mundial do Livro. Datas mais que especiais que servem para chamar a atenção para o valor da Educação e de tudo o que ela é capaz de trazer consigo, moldando sonhos e mudando vidas.


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2 comentários

  1. No meu tempo de escola, pais e professores eram parceiros na educação das crianças. Um comunicado da escola aos pais sobre comportamento indevido dos alunos, o couro comia. Em cima dos filhos. Hoje o que se vê, são os pais apoiando filhos marginais, colocando culpa dos erros dos filhos, nos professores. Uma lástima. Em tempo: Assisti ” Ao mestre com carinho ” no lançamento, no Cine 09 de Abril. Que saudade.

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