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Aquela estrela

Matéria publicada em 6 de dezembro de 2016, 07:00 horas

 


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É possível que ela nem existisse mais quando ele pensou que existisse, algum dia algum anjo ou astrônomo dirá. Nunca se sabe se as estrelas são estrelas ou apenas um rastro de luz moribundo perdido nas profundezas do éter.

Mas ele implorou aos céus e pediu o pedido maior de sua vida.

Era uma estrela longínqua, daquelas que só o negrume das noites mais densas permite divisar. Evitou as constelações mais óbvias, sobrecarregadas que deviam estar de pedidos de toda sorte. Escolheu aquela, pequena, discreta, meio que perdida no mar de constelações pop stars. Fitou os olhos obsessivamente e em oração concentrada clamou. Pediu que a estrela movesse céus, necessário fosse, para que aquela alma partilhasse com ele o mesmo luar.

É assim foi feito, não se sabe se por obra estelar, se por mero capricho do destino ou por sua crença cega no astro distante.

Foi justamente numa noite estrelada que ele tocou pela primeira vez aqueles lábios. Lábios rijos, firmes, que procuravam abrigo como quem procura água no deserto. Um pouco distantes de sua idealização romântica, mas ainda assim uma noite perturbadoramente inesquecível.

É assim se sucederam centenas de outras noites. Noites estreladas, noites de lua cheia, noites quentes, noites úmidas, noites de tempestade. Mas sempre noites partilhadas a dois, como quem fatia a lua para jantar com molho de estrelas.

Mas um dia os céus tingiram uma noite estranha, uma noite de amor minguante. E o encanto virou magoa, o erro virou desencanto e tudo acabou feito estrela cadente.

Teria aquela luz estelar cumprido sua jornada cósmica e dado seu último suspiro de claridade?

Vieram outras centenas de noites, escuras como o breu mais profundo, amorfas como o buraco mais negro.

Até que num dia chuvoso, noutra cidade muito distante, eles se trombaram numa esquina, como asteroide errático que derruba tudo o que encontra pelo caminho.

Estava lá, no fundo dos olhos, aquela centelha viva de luz e estrela que acendia o fogo daquela paixão esquecida.

E voltaram a partilhar os mesmos luares, as mesmas noites, o mesmo teto estrelado, a mesma luz misteriosa que um dia acendeu aquela chama interior.

Uma luz distante, de uma estrela inominada, mas que nunca nem ninguém jamais ousou apagar.

 

 

ALEXANDRE CORREA LIMA| [email protected]


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