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As águas inesperadas de fevereiro

Matéria publicada em 14 de fevereiro de 2020, 14:43 horas

 


São Paulo, a cidade que não parava, foi imobilizada por uma chuva de verão

Na segunda-feira passada a cidade de São Paulo teve um dia de caos com uma chuva excepcionalmente forte. Em 37 anos que não chovia tanto, no espaço de 24 horas, na capital paulista. Há quem atribua o fenômeno à mudança climática global, mas São Paulo e o Rio de Janeiro enfrentam problemas com chuvas há muito tempo. E a principal causa é a impermeabilização dos solos, que não dá espaço para as águas rolarem e a construção de moradias e avenidas em torno de rios. Que transbordam durante os aguaceiros.
Mas, é preciso reconhecer que este fevereiro não é como aqueles que passaram. Tradicionalmente as chuvas de verão se concentram nos meses de janeiro e março. Tem até a música do Jobim que fala “das águas de março fechando o verão”. Geralmente fevereiro é um mês seco e são raras as chuvas na época do Carnaval. Mas, este ano a coisa mudou e tivemos este aguaceiro catastrófico. Os meteorologistas falam em um “cavado”, uma corrente de ventos a cinco quilômetros de altura que estaria concentrando a umidade sobre a região sudeste. Uma novidade já que em outros anos não teve esse tal cavado.
Só este ano já tivemos chuvas causando estragos em Belo Horizonte, São Paulo e em menor escala no Rio de Janeiro. Em São Paulo os problemas costumam se concentrar em torno do Rio Tietê, que corta a cidade. Todo rio tem uma faixa de cem metros em torno das margens que é a área de alagamento no caso de chuvas fortes. Infelizmente os seres humanos não têm consciência disso e constroem casas e prédios nas margens de rios. E avenidas que ficam alagadas quando o rio transborda. E em uma cidade como São Paulo, onde o solo foi impermeabilizado com asfalto e cimento, a água não é absorvida e se acumula nos lugares mais baixos.
As prefeituras falam em construir piscinões para acumular a água da chuva. Mas esta é só uma medida paliativa. À medida que o clima fica mais quente, as chuvas ficam mais intensas e mais frequentes, e as inundações se tornam comuns. Outro problema notório nas nossas cidades é a construção de moradias em encostas. O que destrói a cobertura de vegetação e provoca deslizamentos durante os temporais de verão.
No Rio de Janeiro os problemas são antigos na área do Jardim Botânico, na Zona Sul da cidade, e na Praça da Bandeira. Que são dois bairros que recebem as águas que rolam morro abaixo, vindas do maciço da Tijuca. Na década de 1980 eu trabalhei em um jornal do Rio de Janeiro cuja sede ficava no início da Avenida Brasil, ali perto da rodoviária. E sempre que tinha um temporal de verão ficávamos ilhados. Porque o rio Maracanã transbordava inundando a Praça da Bandeira. E a Avenida Brasil também ficava alagada. E de lá para cá a situação só piorou. No verão de 2018 passei uma tarde de sábado no Rio de Janeiro que terminou com uma chuva torrencial. E a Avenida Brasil voltou a ficar bloqueada pela água e isso em uma região a beira mar, ali perto do cais do porto e da ponte Rio-Niterói.
Além do aumento da população e da ocupação das áreas urbanas enfrentamos sim, o problema da mudança climática. Desde a primeira conferência sobre o clima, no Rio de Janeiro, em 1992, que os especialistas no assunto vêm advertindo que o tempo ia ficar mais violento, com temporais mais intensos e mais frequentes. Em janeiro de 2011 tivemos a tragédia das chuvas em Teresópolis com cerca de mil mortos. E em 2013, a virada do ano foi marcada por um temporal em Angra dos Reis que matou 53 pessoas. Todas chuvas de janeiro. Mas, parece que fevereiro também entrou na zona de risco.

São Paulo: Estragos por toda a parte (Foto: Paulo Pinto/FotosPublicas)


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