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As dunas elétricas de Titã

Matéria publicada em 27 de abril de 2017, 12:21 horas

 


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Titã, a maior lua de Saturno, é um dos mundos mais estranhos já encontrados pelo homem. Maior do que o planeta Mercúrio, este mundo cor de laranja tem uma atmosfera rica em nitrogênio como a Terra, chuvas, lagos e mares, mas as semelhanças terminam aí. Com uma temperatura de 160 graus negativos Titã é uma gigantesca geladeira. Seus mares e lagos são feitos de gases liquefeitos como metano, etano e nitrogênio. Os continentes de Titã são cobertos por dunas de uma areia fofa, eletrificada, que pode formar “castelos de areia” muito mais duradouros do que qualquer um que você possa erguer em uma praia do planeta Terra.

Imagens dos mares de Titã, feitas pela sonda espacial Cassini, deixaram os cientistas intrigados. As fotos mostram “ilhas mágicas” que aparecem e desaparecem. O fenômeno lembra o romance de ficção científica “Solaris” do escritor polonês Stanislaw Lem. Onde o planeta Solaris tinha um oceano inteligente que criava ilhas efêmeras, feitas de uma espécie de espuma solidificada.

Estudos feitos com modelos de computador sugerem que as “ilhas mágicas” de Titã podem ser feitas de espuma, como as formações de Solaris. Simulando o ambiente de Titã o pesquisador Daniel Cordier, da universidade de Reims, na França, descobriu que o metano e o etano líquidos, nas temperaturas de Titã, podem formar enormes bolhas, com cinco centímetros de diâmetro que subiriam até a superfície do mar de Ligéia.

O fenômeno pode provocar turbulência e causar problemas aos planos da Nasa, que quer lançar um submarino robô para explorar os mares de Titã. Ventos, marés e mudanças de temperatura podem provocar o aparecimento e o desaparecimento das enormes ilhas de espuma.

Outra característica da paisagem titaniana são as dunas de areia, que foram estudadas pelo pesquisador americano Joshua Mendez, do Instituto de Tecnologia da Georgia. Mendez descobriu que a areia de Titã é cheia de moléculas orgânicas. E pode adquirir uma carga elétrica devido ao efeito triboelétrico. É o mesmo efeito que produz centelhas elétricas quando uma pessoa caminha sobre um tapete em um dia muito seco. Em Titã a carga elétrica pode se acumular nas dunas, que formariam montes e castelos de areia mantidos pela atração das cargas elétricas.

Todas essas descobertas foram feitas a partir das imagens obtidas pela sonda espacial Cassini. Que entrou na órbita de Saturno no ano de 2004. Este ano a Cassini encerra a sua missão mergulhando para se desintegrar em Saturno. A rota de autodestruição foi programada para evitar que a nave robô possa cair em uma das luas de Saturno, contaminando o ambiente com bactérias terrestres.

Com atmosfera e moléculas orgânicas, Titã poderia ter algum tipo de vida, se fosse mais quente. Infelizmente, na temperatura de 160 graus negativos a lua laranja é fria demais para permitir a vida como a conhecemos. Alguns cientistas já especularam sobre a existência de outros tipos de vida. Como vida baseada em silício, que poderia existir em planetas muito quentes ou vida baseada em metano, que poderia existir em mundos gelados. Mas por enquanto isso é pura ficção científica.

A ideia de enviar um submarino robô, para explorar os mares de Titã, é um projeto para um futuro mais distante. O orçamento atual da agência espacial americana, Nasa, não prevê novas explorações do sistema de Saturno e de suas luas. E outros países, como Rússia, China e a União Europeia ainda não dispõem de tecnologia para enviar sondas para além da órbita de Marte.

Fenômeno: Mudanças no mar de Ligeia registradas pela sonda Cassini

Fenômeno: Mudanças no mar de Ligeia registradas pela sonda Cassini

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br


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Um comentário

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    Boa a lembrança do livro “Solaris”, de Stanislaw Lem, que está sendo relançado este mês em uma edição espetacular. Titã e Europa (Júpiter) são os corpos mais fascinantes do Sistema solar. Pena que após a Cassini mergulhar em Saturno não teremos novidades de Titã por um bom tempo. Parabéns Calife por mais um artigo fantástico!

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