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As eleições e o trem dos americanos

Matéria publicada em 11 de outubro de 2016, 14:13 horas

 


Nos EUA ainda é possível cruzar o país em um trem; na Europa e no Japão o transporte de passageiros pelas ferrovias nunca foi esquecido

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Época de eleição é um período bem esquisito. Gente que não conhecemos vem apertar nossa mão e nos cumprimenta com sorrisos. Depois tudo passa e eles nem se lembram mais do povo. Ou das promessas que fizeram durante a campanha. Em Pinheiral teve candidato a prefeito prometendo até o retorno dos trens de passageiros na região. Que não é uma coisa que um único prefeito possa realizar. Seria preciso um consenso geral de todas as prefeituras para solicitar a volta dos saudosos trens elétricos.

Os Estados Unidos também estão em período eleitoral. Mês que vem eles decidem se quem vai governar o país será a Hillary ou o Trump. Por causa das eleições americanas o Jornal Hoje, da Globo, colocou um repórter viajando de costa a costa em um belo trem de passageiros da Amtrak. O curioso é que na primeira matéria o repórter mostrou para os telespectadores como é o vagão dormitório com os beliches. Coisas que não tem mais no Brasil, só lá em cima, no primeiro mundo.

A minha geração sabia muito bem como é viajar de trem. Não dava para cruzar o Brasil de um lado a outro, como os americanos fazem. Mas podíamos viajar do Rio para São Paulo no trem de prata, da Central do Brasil. Ou ir até Belo Horizonte. O trem de prata tinha vagões leito como os da Amtrak, onde a gente dormia saindo do Rio de Janeiro e acordava descansado e cheio de disposição com o trem chegando a São Paulo. Tente fazer isso em um ônibus.

É claro que o nosso trem de prata nunca foi tão sofisticado quanto as composições americanas e canadenses que a gente vê na televisão. Não tinha aqueles vagões de dois andares, com janelas panorâmicas no alto, para apreciar a paisagem.

Uma pena, a vista da Serra do Mar é linda, quando se viaja durante o dia. O embarque era ali na Estação da Central do Brasil, perto do Campo de Santana, que hoje em dia é o paraíso dos assaltantes. A estação da central ainda está lá, com seu enorme relógio de quatro faces. Dentro tem um grande salão que lembra a Grand Central de Nova York, ainda que não seja tão imponente. Hoje serve para as pessoas que usam os trens urbanos do Rio, e o trem de prata é só uma lembrança.

Ele fazia uma parada em Pinheiral, depois de uma viagem de duas horas subindo a Serra do Mar. A locomotiva era uma General Eletric azul e amarela, que contrastava com o prateado dos vagões. Em Barra do Piraí ela era trocada por uma máquina diesel, que fazia o resto da viagem até São Paulo. Barra do Piraí tinha uma enorme oficina de manutenção de locomotivas e era um entroncamento para as composições que seguiam para São Paulo ou Minas Gerais.

Hoje a oficina fechou e pelas linhas só circulam os trens de carga. O transporte ferroviário é um dos mais eficientes no que se refere ao transporte de cargas pesadas. Uma única composição substitui dezenas de carretas e é muito mais econômica.

Na Europa e no Japão o transporte de passageiros pelas ferrovias nunca foi esquecido. De trem dá para ir da Inglaterra até a Itália. O trem nunca vai ser tão rápido quanto o avião, mas é o ideal para quem está fazendo turismo e não tem pressa nenhuma de chegar ao destino. Da janela do avião só dá para ver nuvens. Na janela do trem vemos a paisagem desfilar.

Talvez por isso americanos e canadenses nunca abandonaram seus trens que ficam cada vez mais modernos. A locomotiva que puxa o Amtrack aí na foto é uma moderna General Electric, descendente das que puxavam o trem de prata por aqui, no século passado.

Outra vantagem do trem é que ele quase não é afetado pelo mau tempo. Neblina, chuvas e tempestades podem fechar os aeroportos, mas os trens continuam circulando. Infelizmente os brasileiros ainda vão levar muito tempo para recuperar o que foi perdido. Apesar das promessas dos nossos políticos.

 

 Moderno: Um trem de passageiros da Amtrack americana


Moderno: Um trem de passageiros da Amtrack americana

 

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br


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8 comentários

  1. Avatar

    Dias desses estava frente a prefeitura de Barra Mansa olhando as composições que passam por ali muitas vezes por dia. Duas máquinas puxando dezenas de vagões carregados de minério por vez. Fiquei imaginando que se duas máquinas podem puxar DEZENAS de vagões carregados com toneladas de minério, então não há prejuízos para a empresa.

    proporcionalmente e sem prejuízos, uma máquina pode puxar CENTENAS de vagões com passageiros (por ser mais leve).

    Mas a situação do transporte ferroviário no Brasil é outro: os impostos arrecadados da compra de carros que chegam a mais de 50% do custo. Nenhum governo abrirá mão disso. Getúlio Vargas já havia identificado essa fonte de recursos e Juscelino ampliou com a pressão dos EUA e da Europa para beneficiar suas montadoras.

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    Enganei-me. Foi no final dos anos 50.

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    No final dos anos 60 viajei muitas vezes de Volta Redonda para São Paulo e de Barra Mansa para Rio Claro. Tenho muita saudade dessa época.

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    Não há interesse em investir na malha ferroviária.Para abrir estradas e consumir os bilhões da industria petrolífera não existe barreira,constroem tuneis imensos e maravilhas da engenharia.Investir pesado na malha ferroviária e nas hidrovias iria desafogar nossas estradas,que andam intransitáveis.Basta haver interesse político.

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    O Brasil tem um grande entrave para o desenvolvimento de sua malha ferroviária, que é o relevo. Nos EUA, Europa, Japão e mesmo Argentina, a maior parte das ligações se dá através de planícies. Aqui não, sempre há escarpas a vencer, e isso custa muito dinheiro… Não é à toa que temos quase a mesma quilometragem de ferrovias hoje que no fim do Império, há mais de 125 anos…

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    Calife vi um filme era uma dessas comedias de terro com invasão zumbi (Todo Mundo Quase Morto) Em certa cena o ator (Nick Frost) para fugir dos zumbis pergunta para o amigo (Peter Serafinowicz) . Onde esta seu carro ? E o outro responde: eu não tenho carro , por que teria um carro morando em Londres? Embora fosse uma comedia eu fiquei com essa frase na cabeça

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    Me lembro do trem de prata quando passava por Barra do Piraí durante minha infância (PRIMEIRA METADE ANOS 90), porem ja estava acabando a passagem era muito cara se não me engano.O Pais nunca deu valor a malha ferroviaria uma aposta errada de nosso Juscelino kubitschek , porém, quem iniciou o desmonte foi Getúlio Vargas . O automóvel já não é sinónimo de futuro como eles apostaram , muito pelo contrário .

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