sexta-feira, 30 de julho de 2021 - 03:16 h

TEMPO REAL

 

Capa / Colunas / Bodas de namoro

Bodas de namoro

Matéria publicada em 9 de junho de 2017, 09:00 horas

 


wp-coluna-cultura-geral-artur-rodrigues

Sempre ouvi falar das tão esperadas bodas de casamento, sendo mais comemoradas as de 25, 30, 40 e 50 anos. Agora, jamais imaginei que pudessem existir bodas de namoro.
Um amigo, que há bem pouco tempo foi tema aqui da crônica “Gaveta do amor” e que me contou suas histórias de inequívoca paixão, pois havia começado recentemente um namoro e, apaixonado, transformara uma gaveta do quarto da namorada numa espécie de caixa de Pandora, local onde ambos guardavam secretamente de bilhetes a carinho, de sorrisos a fotos, de pertences íntimos a beijos açucarados, confidenciou-me que, no mês passado, haviam completado cinco meses de namoro, dia amplamente esperado para comemorarem as Bodas de Chocolate. Data que foi celebrada, regada a muito cacau, das mais variadas marcas e sabores.
Como não bastasse, fez questão de dizer que respeitavam minimamente cada data com suas respectivas bodas. Imagine que haviam até celebrado as Bodas de Brisa, um dia de namoro, depois a de Papel Alumínio, papel que eu imaginara servir apenas para acondicionar legumes, frutas e sanduíches para viagem, e que jamais estaria metido em uma boda. Disse ainda que já haviam passado pelas Bodas de Estrelas e Beijinhos, esta comemorada com enorme alegria por ser o primeiro mês de namoro. A seguir, vieram as de Sorvete e Algodão-Doce. Quatro meses e a celebração foi de Pipoca, claro que no cinema, comendo a dita-cuja durante uma sessão romântica num final de semana em que a festa aconteceu.
Passadas as Bodas de Chocolate, agora a expectativa voltava-se para as comemorações dos seis meses, as Bodas de Pluminha, título um tanto quanto estranho que, a meu ver, era por demais feminino, mas reza a lenda que estas bodas também são chamadas de Sonhos, o que acho bem mais condizente para o casal em uma fase certamente onde o que mais se tem são… sonhos.

Curiosidades

Meio incrédulo em relação a este vasto número de bodas, fui pesquisar e descobri coisas engraçadas e estranhas, como aos nove meses serem celebradas as Bodas de Pirulito e aos dez, de Pintinhos. Um ano tem tudo a ver, são as Bodas de Milagre, desnecessário explicar a razão. Bodas de dois anos são chamadas de Dedo-de-Moça, incrível! Treze anos de namoro, de Sereia, sei lá por quê, e 15 anos, Bodas de Amor Eterno. Bom, com 15 anos, acho que o nome deveria ser outro, talvez Bodas de Paciência, Comodismo ou Resignação…
Como se não bastasse esse caminhão de bodas, alguém fez a gentileza de criar as chamadas Bodas Quebradas, como a de um ano e um mês, chamada de Cartas, e a seguir de Marshmallow. Dois anos e 11 meses, Bodas de Paçoca, e três anos e oito meses, de Melancia. Sem contar que ainda existem as Bodas de Lasanha, Cachaça e uma até com patrocínio, as Bodas de McDonalds, esta para quatro anos e 11 meses, a ser comemorada imagine em que local?

Origem

Na verdade, o termo “bodas” é oriundo do latim e quer dizer promessa. Então, para cada ano em que se comemoram as bodas, há um material que representa a nova etapa do casal. Celebrar bodas é algo tradicional na cultura ocidental. A tradição das bodas surgiu na Alemanha, onde era comum os pequenos povoados oferecerem uma coroa de prata aos casais que completassem 25 anos de casados e, depois, uma de ouro aos que chegassem aos 50 anos. Com o tempo, novas simbologias foram sendo criadas para os outros anos.
Em vários países, assim como as bodas que levamos tão a sério, existem as tradições. Na China, por exemplo, o vermelho é muito importante. Símbolo da alegria e do amor, a cor está presente na decoração, nos convites e até no vestido da noiva. Sobre os vestidos, aliás, a noiva chinesa chega a ter pelo menos três modelos para serem usados durante a festa. Na Índia, uma das tradições mais marcantes nos casamentos hindus é a cerimônia do Mehndi Rat, que consiste em tatuar com hena as mãos e os pés da noiva. Os desenhos são incrivelmente detalhados e demoram horas para ficar prontos. Para o casamento, a noiva indiana também deve estar adornada com muitas joias. Na cerimônia japonesa, os noivos bebem nove goles de saquê, tornando-se verdadeiramente marido e mulher a partir do primeiro gole. No judaísmo, uma das tradições mais conhecidas é a quebra do copo de vidro. O noivo deve quebrar com o pé direito um copo para lembrar a destruição do Templo em Jerusalém. Ao finalizar a cerimônia, todos os convidados gritam “Mazel Tov”, que significa “boa sorte” em hebraico.

‘Ame e dê vexame’

Brincadeiras à parte, não sei se o meu amigo vai levar isso tão a sério, comemorando mês a mês sua paixão, regando cada data com o que ela batiza e, por fim, chegando ao altar, para depois levar, juntamente com sua noiva, à saída da igreja, um belo banho de arroz.
Na verdade, essa soma de meses que preenche os dias de cumplicidade é o que torna a vida alegre e gostosa de se viver. Mas há quem prefira viver só, pois descobriu em si mesmo a melhor das companhias. O amor pode se transmutar em inúmeras formas e desejos, criando infindas variantes para se viver da melhor forma, sem obrigações ou culpas, isso porque não se pode atrelar a este sentimento o menor elo de prisão.
Amar é verbo intransitivo, segundo definiu o escritor Mário de Andrade em uma de suas mais importantes obras. Mas é sabido que o verbo amar, segundo a norma culta, é transitivo, pois não possui sentido completo, portanto exige um complemento. Intransitivo ou não, ele é algo que perseguimos a vida inteira e, quando o achamos, nos permitimos vivê-lo de forma intensa, celebrando dia após dia a dádiva de poder dividir um espaço no coração, no corpo e na alma do outro, aquela pessoa que nos completa e faz feliz.
Como disse tão bem o psiquiatra Roberto Freire em seu livro, o clássico Ame e dê vexame, por que não?


Comente com Facebook
(O Diário do Vale não se responsabiliza pelos comentários postados via Facebook)
Untitled Document