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Bolinhos de Google

Matéria publicada em 4 de agosto de 2015, 07:00 horas

 


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O domingo frio e cinzento parecia o cenário perfeito para um café com bolinhos de chuva. Quase perfeito. Porque eu não fazia a menor ideia de como fazer os tais bolinhos.
Nada que o Google do smartphone não resolvesse. Pesquisei e logo apareceu um zilhão de receitas de bolinhos de chuva. Deu razoavelmente certo, mais por inépcia do cozinheiro do que por incorreção da receita. Não fosse o Google, teria ficado na vontade.
É engraçado. De uns tempos para cá, o Google virou o oráculo da Humanidade. Toda e qualquer dúvida as pessoas recorrem a ele. Da grafia correta de uma palavra às maiores bizarrices que você possa imaginar tudo se pesquisa no Google.
Um dia li a lista de alguns dos termos mais pesquisados, e encontrei os seguintes itens na lista dos mais procurados: “como fazer arroz”, “como beijar na boca”, “como ficar rico sem sair de casa” e “como ser feliz”. Fiquei espantado com a minha modéstia em querer apenas uma receita de bolinhos de chuva.
O Google de fato pode ser muito útil. Para achar um endereço numa cidade em que não conhecemos, por exemplo. Mas ele pode trazer resultados aterrorizantes também.
Fiz uma ressonância há alguns anos, e ansioso, antes mesmo de retornar ao médico resolvi pesquisar no Google alguns termos ininteligíveis para quem não cursou sete anos de medicina. Quinze minutos foram o suficiente para chegar a conclusão de que eu não teria nem quinze minutos de vida. Uma profusão de casos trágicos, doenças incuráveis, cânceres e amputações. Não era nada disso, claro, e estou aqui Vivinho da Silva escrevendo pra vocês.
O Google anda tão esperto que quando você digita uma palavra errada ele mesmo te corrige, com toda sua diplomacia digital: “será que você não quis dizer…”.
– Sim, tá certo, berinjela é com jota.
O Google está condensando uma gama tão grande de informações que dá até medo. Deve ser por isso que muitas pessoas já nem se importam em conhecer ou memorizar tudo, pois sabem que todo esse conhecimento está catalogado e acessível num simples clique.
Fico pensando se no futuro não implantaremos um chip do Google atrás da orelha, e desfilaremos petulante todo o conteúdo digital que disfarça a futilidade de nossas carcaças vazias.
Enquanto esse dia não chega, eu vou fazendo bolinhos de chuva.

Alexandre Correa Lima | alexandre.lima@diariodovale.com.br

 


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