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‘Bom Sucesso’ na Literatura

Matéria publicada em 31 de janeiro de 2020, 14:29 horas

 


Terminou na última sexta-feira, dia 24, a novela “Bom Sucesso”, de autoria de Rosane Svartman e Paulo Halm. O folhetim ocupou, ao longo de seis meses, o horário das 19 horas da Rede Globo; foram 155 capítulos de uma trama que somou encontros, amores, alegrias, emoções, ação e muita Literatura. A novela buscou falar da importância de se viver com a consciência de que os nossos dias são finitos e únicos. E que devemos valorizar, de forma intensa, as pequenas coisas do cotidiano, principalmente os relacionamentos.
Algo raríssimo na teledramaturgia brasileira. Falar de Literatura foi algo quase inusitado, somente visto nas novelas escritas pelo veterano Manoel Carlos, que está afastado da TV desde 2014, quando foi ao ar a sua última novela, “Em Família”. Mas, indiscutivelmente, “Bom Sucesso” foi muito além das criações de Manoel Carlos; ela foi quase 100% calcada em Literatura, um atrevimento para um país que pouco lê, mas que deu certo, uma vez que fechou sua exibição com 29 pontos – cerca de 74.987 domicílios a cada ponto -, a maior audiência para a faixa das 19 horas desde 2012.
A novela falou de morte e Literatura de forma equilibrada, uma dando leveza a outra. Outro ponto que merece destaque e aplausos foi a participação de mais de 15 personagens negros, sem jamais estereotipá-los, não os fragilizando como pobres e moradores de comunidades, mas, sim, como seres humanos, com seus erros e acertos, com suas vidas divididas entre dramas e alegrias, como qualquer ser humano.
O encontro que costurou a trama, já a partir do seu primeiro capítulo, ficou a cargo de Paloma e Alberto, personagens de Grazi Massafera e Antonio Fagundes, unidos a partir de um exame de saúde trocado. A partir daí, a trama une famílias e tem a Literatura o tempo inteiro como pano de fundo.
Surpreendentemente, em um país onde um secretário de Cultura é demitido por fazer apologia ao Nazismo, uma novela das 19 horas marca a sua audiência a partir da citação de livros e poemas, com destaque para 52 obras literárias. Em sua maioria foram obras clássicas, como: “Alice no país das maravilhas”, de Lewis Carroll; “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare; “Dom Quixote de La Mancha”, de Miguel de Cervantes; e o romance brasileiro “Dom Casmurro”, de Machado de Assis. Mas, nem só de clássicos viveu “Bom Sucesso”. A trama abriu espaço para escritores mais jovens, como Geovani Martins e, Raphael Montes, além dos consagrados Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, entre outros grandes nomes da Literatura, tudo girando em torno da Prado Monteiro, editora fictícia fundada por Alberto Prado Monteiro, personagem de Antonio Fagundes, que acaba morrendo nos minutos finais da trama.
Para tornar a história ainda mais verossímil, em um dos seus últimos capítulos, Alice, personagem interpretada por Bruna Inocencio, lança seu livro com todas as pompas de uma autora estreante, e ainda tem a honra de receber, em sua noite de autógrafos, a escritora Conceição Evaristo, autora do tocante livro de contos “Olhos d’água” e recentemente indicada para ocupar uma das cadeiras da Academia Brasileira de Letras (ABL).
“Bom Sucesso” provocou leitores, e isso foi ponto positivo para a trama, a qual provou que falar de Literatura ainda pode ser uma excelente saída para a ignorância dos nossos governos. A prova disso está em que o Google fez um levantamento e mostrou aumento nas buscas por obras citadas na novela. Narrativas bem menos conhecidas do público como “A letra escarlate”, de Nathaniel Hawthorne, e ainda “A morte da porta- estandarte”, de Aníbal Machado, chegaram a ter crescimento de 5.000% na plataforma. Outros títulos, sobretudo clássicos, tiveram crescimentos nas suas buscas cerca de 125%.
A autora Rosane Svartman afirma que esse estímulo à leitura foi observado também nos grupos de discussão realizados com telespectadores ao longo da novela, pois, diferentemente de outras novelas e séries, que são inspiradas ou adaptadas de livros, “Bom Sucesso” inovou ao inserir a Literatura como uma espécie de personagem. O personagem de Antonio Fagundes, Alberto, sempre sabia o livro certo que deveria sacar da sua biblioteca, que ele amava ardentemente, tanto que os autores resolveram finalizar a trajetória do personagem nesse cenário repleto de referências e emoções.
O filósofo grego Aristóteles já dizia, em “Poética”, que a mimese, ou seja, a representação da realidade por meio da arte, era uma das melhores formas de estimular o pensamento crítico do ser humano. Com o passar dos séculos, a leitura finalmente se democratizou, e a Literatura não continuou apenas nas páginas dos livros, acabando por se tornar a base sólida para produções culturais na mais variadas mídias. A sua importância na produção de telenovelas e minisséries é imensa, haja vista que, hoje, mais de um terço das 600 novelas brasileiras foram escritas baseadas em obras literárias. Habemus Literatura!

‘Bom Sucesso’: Novela falou de morte e Literatura de forma equilibrada

 


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