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Carnadown

Matéria publicada em 18 de fevereiro de 2020, 09:24 horas

 


Machado de Assis, com sua sagacidade que atravessou os séculos, escreveu que “olhando de perto, ninguém é normal”, para citar apenas uma de suas antológicas frases, esta extraída do clássico O Alienista.
Não há como negar. Todo mundo tem alguma esquisitice, só muda tipo e grau.
Há quem goste de bife de fígado, quem torça para o América do Rio e quem curta um sofrimento. O esquisito talvez seja apenas uma forma preconceituosa de rotular o diferente.
Eu por exemplo, sempre me senti um esquisito no Carnaval. Porque não gostar de Carnaval no Brasil é um atestado de esquisitice. Até já disseram que quem não gosta de samba bom sujeito não é, é ruim da cabeça ou doente do pé.
Lembro de algumas raras incursões por clubes de carnaval na minha infância. E tudo que recordo são refrões melancólicos e tristes das antigas marchinhas:
Bandeira branca amor, não posso mais, pela saudade que me invade eu quero paz.
Saudade mal de amor, de amor. Saudade dor que dói demais…
Quer coisa mais sofrida e dramática do que isso? Dor que dói demais, saudade que invade, socorro, quero paz!
Não sei que tipo de criança esquisita eu fui, mas o fato é que fui capturando apenas os sinais oblíquos de angústia desses inocentes bailes de carnaval.
Mesmo quanto a letra tentava fingir alegria eu não me convencia:
Tanto riso, ó tanta alegria… mais de mil palhaços no salão…
“Tanto riso” como, com essa melodia quase fúnebre de tão triste? Tenho certeza que a estrofe “Tou deprimido, ó quanta agonia” estaria muito mais alinhada com a melodia triste que abre a música. O próprio letrista se contradiz ao dizer logo a seguir que “o arlequim está chorando pelo amor da colombina”.
Tanto riso é o cacete. O palhaço tá no baile chorando com dor de corno. E se tem tanto riso deve ser da cara de trouxa triste dele.
Não sei por que, mas fui crescendo e meu incômodo com o Carnaval foi aumentando.
Roqueiro convicto, talvez não aprovasse a trilha sonora. Mas o que assustava mesmo era aquela obrigação de ser feliz, como se a alegria pudesse ser programada com antecedência. Quatro dias de folia no meio de 361 de opressão. E então a velha rabugenta sorria, o agiota perdoava, a santinha endiabrava, o machão homofóbico enviadava e tudo se transformava para voltar a ser o que nunca deixou de ser nas cinzas da quarta, quando todas as máscaras caem e só nos resta recolher os trapos de nossas fantasias irrealizadas.
Tá bom, estou sendo esquisito demais, há de haver uma beleza nesse elogio à alegoria transformadora do Carnaval, mas sempre me pareceu uma coisa meio forçada. Óleo de fígado de carnalhau, não descia.
Na adolescência e juventude tudo ficou um pouco pior, porque como seres mal resolvidos que somos acabamos sentindo uma necessidade idiota de conformação ao grupo que internamente conflita com um afã pueril de se rebelar.
Ano passado um amigo do ensino médio lembrou entusiasmado de quando eu ia ao baile com fones de ouvido gigantes (muito antes de isso ousar ser moda), com a justificativa de curtir o carnaval ouvindo rock. Juro que já tinha sublimado isso da memória, mas é muito provável que eu realmente tenha feito essa pataquada.
Acabei frequentando alguns bailes, a contragosto, porque era deprê demais ficar em casa assistindo desfiles na TV aberta, e se você tivesse a mínima intenção de se dar bem com o sexo oposto deveria enfrentar a manada de pierrôs, piratas, bailarinas e colombinas do salão. E se tivesse namorada pior ainda, porque é quase certo que não seria uma ideia inteligente deixá-la sozinha por aquelas paragens. Tinha particular pavor com o final de uma marchinha que incentivava o abate: “vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval”. Sabia que era um convite ao chifre. E precisava estar lá, como um cão de guarda que protege a integridade da própria testa.
Aguentava firme, pois sabia que a quarta feira iria chegar para me purificar com suas cinzas redentoras.
Eu era um pouco esquisito, mas não de todo estúpido. Aos poucos fui emulando alguns trejeitos que me fariam passar despercebido naquele planeta estranho. Entendi que se ficasse no mesmo lugar, simulando uma marcha estática, com as duas mãos fazendo o número 1 e alternando braços e pernas poderia ser confundido com um ser normal. Apesar do patetismo da dança, cheguei a sentir um certo orgulho de poder enganar algumas pessoas de que eu era um deles, como um gato obeso que veste uma peruca da Tina Turner na esperança de poder frequentar uma comunidade de leões.
Continuo não sendo fã de Carnaval, mas a gente amadurece e as coisas ficam mais fáceis de entender. Hoje eu levo meus filhos na matinée como convém a uma família normal, e me pergunto por que não fui uma criança assim, que ao invés de capturar a diabólica melancolia oculta das marchinhas, não me concentrei, como faz meu filho mais novo, na relaxante e inofensiva tarefa de catar serpentina do salão, como um alegre lixeirinho mirim.
Teria sido muito mais fácil catar o confete do chão do que foi varrer os traumas da alma.

 

Alexandre Correa é professor da FGV, escritor e palestrante corporativo. Ele está no YouTube, no Facebook, no Linkedin, no Instagram, no SPC e no Serasa. E não está no Tinder porque sua mulher não deixa.

 


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Um comentário

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    Texto maneiro. Suas palavras são as minhas. Todo carnaval, me refugio nos meus rocks eternos. Principalmente os carnavais de hoje(maioria só bebida, droga, sexo, violência, muita violência) Sempre tive fora. Parabéns.

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