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Chegadas e partidas

Matéria publicada em 28 de setembro de 2018, 08:23 horas

 


Aqui estamos a observar o trem a partir da estação, logo será um pequeno ponto distante que irá desaparecer do nosso olhar. Este é um exemplo entre centenas de outros que podemos usar para ilustrar as idas e vindas no nosso dia a dia. O olhar que contempla quem chega e quem parte, as incertezas do caminho a ser percorrido e as surpresas encontradas naquele que já foi vencido.
O trem que segue pelo seu trilho e perde-se na linha do horizonte não evaporou, apenas o perdemos de vista, nada além disso. Ele, certamente, continuará a ser o mesmo no seu destino, apenas não o vemos mais. Assim, são os sentimentos por aqueles que amamos e que, por algum motivo, não estão mais aqui e agora ao nosso lado. Eles estão vivos de alguma forma além da linha do horizonte.
Então, quando sentimos algo por aquele que se foi e que não sabemos quando voltará, outro alguém poderá sentir a alegria de o estar recebendo. Inevitavelmente são as chegadas e as partidas que enfrentamos ao longo de nossa existência. Portanto, o que para uns pode parecer partida, para outros será sinônimo de chegada. Todo amanhã tem origem no ontem, para que o hoje possa existir, num eterno transmutar de tempo. Eis aí o ciclo natural da existência humana. Acredito que o que determina o tempo de chegada e sua permanência está ligado a tudo aquilo que em um dado momento nos impulsiona para a partida. Nossa evolução nos faz viajar, leva-nos para novas estações, descobertas necessárias e inevitáveis a nossa evolução.
O medo jamais poderá ser o caminho que nos levará a partir, e muito menos, a coragem deverá ser a âncora que nos fará ficar. Quando compreendermos de verdade que a vida é um ir e vir, certamente, nossos encontros se tornarão mais calorosos, verdadeiros e carregarão a profundidade que a vida exige de nós em cada um dos seus inúmeros momentos.
E é a certeza do reencontro ou de um novo encontro que no move em direção a algo. Lamentavelmente muitos de nós desanimamos logo no início da caminhada, simplesmente porque nos deparamos com algumas contrariedades. Isto pode acontecer a qualquer um, não a nada de anormal nisso. Parar antes de que se esgotem todas as possibilidades não é justo, sobretudo com você. Se existe a certeza que ao longo da estrada os reencontros e os novos encontros irão acontecer, porque não levantar a cabeça, focar o objetivo e recomeçar a caminhada?
Estamos, ao longo de nossa trajetória, chegando e partindo de várias estações, viajando para perto ou para longe, marcando o grande mapa com alfinetes coloridos, deixando em cada paragem um pouco de nós, do conhecimento ao aprendizado. O bom das viagens é que entre a partida e a chegada existe a concretude do fato, do encontro, seja ele bom ou não, a sensação anterior ao acontecimento, a curiosa expectativa do que está por vir.
Tudo isso parece saído de um sonho, indagações pinçadas do surrealismo, mas acredite que não é. Quem de nós nunca viajou, nunca alimentou a sensação da chegada? Seja para conhecer algo, resolver um assunto inadiável, dar adeus a alguém, festejar um momento singular, amar e ser amado? Somos movidos por uma adrenalina incrivelmente forte, que nos abraça e carrega assim como o trem que desliza por entre os trilhos.
Não ligue se isto lhe parecer uma visão marcada pelo sonho com um ar pueril, bobagem. Tudo é real e apaixonante, acredite que viajar, todas as viagens, são experiências singulares, e o melhor, necessárias.
“O tempo e o vento”, parafraseando a grande e imortal obra de Érico Veríssimo, bafeja-nos a certeza de que para viajar, nem sempre é necessário levarmos grandes bagagens, basta tão somente o olhar, tendo sempre o cuidado de se desvencilhar das coisas inúteis, deixando que o tempo marque a pele como as pegadas pelo caminho.
O importante é sabermos sempre que o ponto de partida bem como o de chegada está em nós. É caminhando que se faz o caminho, e quem o escolhe somos nós.


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