terça-feira, 22 de junho de 2021 - 11:20 h

TEMPO REAL

 

Capa / Ciência – Por Jorge Calife / Coisas estranhas no céu

Coisas estranhas no céu

Matéria publicada em 11 de maio de 2021, 13:56 horas

 


Observatórios de ondas gravitacionais vão caçar estrelas invisíveis

Ladrão: O pulsar rouba matéria de sua companheira

No meu tempo de garoto, os espécimes do zoológico cósmico podiam ser contados nos dedos da mão. Os astros que podíamos ver no telescópio eram estrelas, planetas, cometas, luas,  asteroides e nebulosas. As estrelas se reuniam para formar galáxias, que eram grandes nuvens de gás e estrelas. Mas o universo é muito mais estranho do que podíamos imaginar. Na década de 1960, ainda no século vinte, foram descobertos os estranhos quasares e os pulsares. Estrelas de nêutrons que emitiam pulsações de rádio com intervalos de segundos. Aí vieram os anos de 1970 e os astrônomos descobriram que os buracos negros, previstos por alguns físicos teóricos existiam realmente. Astros com uma gravidade tão intensa que nem a luz conseguia escapar deles.

E com o aperfeiçoamento de telescópios capazes de ver o céu com ondas de rádio, ultravioleta e até ondas de gravidade o número de astros estranhos continuou a aumentar. Na semana passada uma equipe internacional, trabalhando com o radiotelescópio MeerKat, na África do Sul, detectou 8 pulsares de milissegundos dentro de aglomerados globulares de estrelas. O Meerkat é um conjunto de 64 antenas parabólicas que observam o céu na faixa das ondas de rádio. Que é a ideal para se encontrar pulsares.

O pulsar é uma estrela de nêutrons, o que restou de uma estrela gigante que implodiu. O resultado é uma bola de neutrônio do tamanho de uma cidade e com um peso de trilhões de toneladas. Fortemente magnetizados os pulsares giram em alta velocidade, emitindo um feixe de ondas de rádio pelos polos norte e sul. A maioria deles gira com intervalos de centenas de milissegundos, mas alguns são extremamente rápidos e giram com uma rotação de centenas de vezes por segundo.

Para obter essa rotação ultrarrápida o pulsar de milissegundos precisa estar associado a uma outra estrela, geralmente uma estrela comum, semelhante ao nosso sol. Eles são um tipo de estrela binária, com um componente formado por uma estrela normal, girando ao lado de um pulsar numa valsa espacial. O pulsar rouba matéria da estrela companheira durante bilhões de anos e vai girando cada vez mais rápido. Entrevistado pelo site LiveScience, o chefe da pesquisa, o astrônomo Alessandro Ridolfi, do observatório de Cagliari na Itália, explicou sua técnica para encontrar esses astros muito raros.

Sua equipe apontou as 64 antenas do MeerKat para uma série de aglomerados globulares de estrelas. Esses aglomerados são enxames de milhares de estrelas que orbitam fora do disco principal das galáxias, como a nossa Via Láctea. Como eles contem milhares de estrelas compactadas num espaço relativamente pequeno, as chances de conterem pulsares e outros objetos exóticos e muito maior.

Mas a caçada continua. No mesmo site do LiveScience, o astrônomo brasileiro Luis Longo, que faz doutorado na Universidade Federal do ABC, disse que: “Não podemos ser ingênuos de presumir que conhecemos tudo o que existe lá fora”. E comentou as pesquisas que serão realizadas, ainda este ano, nos grandes observatórios de ondas de gravidade. São os interferômetros a laser, como o LIGO americano e o Virgo europeu. Com eles será possível detectar ondas de gravidade produzidas por astros invisíveis, os Objetos Compactos Exóticos. Como as gravstars e as fuzzball. As gravstars seriam buracos negros cheios de energia escura. As fuzzballs seriam verdadeiros novelos de cordas cósmicas enroladas numa bola. E ao contrário dos buracos negros comuns, essas estrelas exóticas não possuiriam horizonte de eventos. Permitindo que os astrônomos sondem o interior delas.

O estudo desses objetos exóticos pode levar a astrofísica para além da Teoria da Relatividade de Einstein. Para dentro do universo ainda mais exótico da física quântica. O que produziria a próxima grande revolução do pensamento científico. E está tudo lá em cima. Escrito nas estrelas.

 

Jorge Luiz Calife

 

 


Comente com Facebook
(O Diário do Vale não se responsabiliza pelos comentários postados via Facebook)
Untitled Document