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Crematório cultural

Matéria publicada em 7 de setembro de 2018, 08:56 horas

 


200 anos de história destruído em poucas horas

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Dia 2 de setembro de 2018, noite de domingo, era 19h30 quando quatro funcionários do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, zona Norte do Rio de Janeiro, começaram a perceber o princípio de incêndio, o qual em poucas horas destruiu 200 anos de história, a nossa história. A provável causa deste terrível acidente foi: uma enorme concentração de negligência espalhada por toda extensão do grande prédio.
Próximo de 20 milhões de itens viraram cinzas em poucas horas, sumiram por completo e nunca mais poderão ser vistos e estudados. Anos de pesquisas e descobertas que mudaram – não apenas o Brasil, mas o mundo -, desapareceram para sempre, foram defenestrados da história.
Perdeu-se Mayakalisaurus Topai, o maior dinossauro brasileiro já montado com peças originais. Luzia, o fóssil humano mais antigo encontrado na América, com cerca de 12.500 anos, peça que reacendeu inúmeros questionamentos acerca das teorias da origem do homem americano, pode ter desaparecido. Virou cinzas o acervo de botânica de Bertha Lutz (1896-1976), foi queimado o sarcófago da cantora de Ámon, Sha-Amun-em-su, um dos únicos no mundo que nunca foram abertos, característica que lhe conferia notória raridade. Perdeu-se a coleção de arte e artefatos greco-romanos da Imperatriz Teresa Cristina. Queimou-se por completo 1.800 artefatos produzidos pelas civilizações ameríndias durante a era pré-colombiana, além de múmias andinas. O fogo destruiu ainda a maior biblioteca de antropologia da América Latina e a maior coleção de meteoritos do país, sendo o principal deles o Bendegó, o maior já encontrado no Brasil e um dos maiores do mundo, descoberto na Bahia em 1784. Estavam ainda dentro do prédio itens em comodato enviados pela Casa da Marquesa de Santos, que se encontrava em obras. Peças de mobiliário do século 19, agora apenas cinzas.
Perdeu-se nesse terrível incêndio quase que cem por cento do que abrigava o quinto maior museu de história natural do mundo, local que continha o maior acervo da América Latina.
O amor pela história e o respeito pela pesquisa feita ao longo de décadas fez com que cerca de 40 servidores – inclusive, muitos já aposentados -, fossem até o local logo que souberam do incêndio e, como verdadeiros heróis, entrassem onde era possível e resgatassem tudo o que estivesse pela frente, como por exemplo, milhares de exemplares de moluscos dos séculos 19, 20 e 21.
“Logo após a casa arrombada e, tendo os bandidos levado tudo o que podiam, é hora de passar as chaves nas portas, além de grossos cadeados e grandes ferrolhos atravessando os portais.’’ Eis um velho dito popular que cabe perfeitamente neste momento, no qual presidente, governador e prefeito já se manifestaram com suas dores… muito particulares, além é claro, dos candidatos à presidência e ao governo do Estado do Rio de Janeiro. Viu-se que todos cumpriram brilhantemente o protocolo para o momento.
O Ministério da Educação já se pronunciou, destinando 10 milhões para as reformas emergenciais, além de outros cinco milhões para a realização do projeto de reconstrução do prédio, algo que deve levar pelo menos quatro anos para acontecer. Quatro anos para trazer de volta, talvez, a ideia do que ele foi um dia: a residência da família real portuguesa, de 1808 a 1821; moradia da família imperial brasileira, de 1822 a 1889; a sede da primeira Assembleia Constituinte Republicana, de 1889 a 1891; antes de o espaço ser destinado ao uso do museu, em 1892.
O Rio de Janeiro, o Brasil e o mundo noticiaram a perda irreparável da qual fomos vítimas. Todos já sabem que os hidrantes em frente ao museu eram peças arqueológicas e que, para tentar apagar o incêndio, foi necessário retirar água do lago da Quinta da Boa Vista.
Mas apesar da imensa importância histórica, o Museu Nacional foi totalmente afetado pela crise financeira da UFRJ, reflexo de descaso e roubo por parte de inúmeros políticos. E por conta disso, há pelo menos três anos, a universidade amarga uma sobrevivência com orçamento medíocre, a ponto de anunciar uma “vaquinha virtual”, buscando arrecadar 100 mil junto ao público para reabrir uma das salas mais importantes do acervo, local onde estava instalado o dinossauro Dino Prata.
As negligências não começaram agora em 2018. A falta de recursos afeta o museu há, pelo menos, 15 anos. Pois desde 2003, os visitantes não conseguem ver o esqueleto gigante de uma baleia Jubarte, mas, certamente, devem ter conseguido ver a infestação de cupins que destruiu a base onde estava instalado um fóssil de dinossauro de 13 metros que foi descoberto em Minas Gerais e que viveu há 80 milhões de anos na Terra.
É magnífico ter um Museu do Amanhã, mas é igualmente bom e necessário preservar os museus do passado, para que ambos possam nos fazer entender como chegamos até aqui e para onde vamos. O triste é constatar que o que mais se preserva no Brasil são o descaso, a negligência e a estupidez. Independência ou morte?!


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