terça-feira, 13 de novembro de 2018

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Dança das cadeiras

Matéria publicada em 11 de outubro de 2018, 13:16 horas

 


Para muitos brasileiros a semana começou com ares de renovação. Depois de uma eleição bastante diferente das últimas desta mesma década, a sensação que se teve foi de uma festa infantil, acontecida em uma casa lotada e barulhenta, onde, entre inúmeras atrações oferecidas pelos monitores, havia a sempre atual dança das cadeiras.
Assim foram as eleições neste último domingo, entre filas intermináveis, por causa, na maioria das vezes, de algumas urnas que liam as digitais dos eleitores somente quando estavam dispostas, mostrando que a biometria ainda está capenga ou maneta, devendo merecer urgente atenção por parte do TSE. Da mesma forma, os agrupamentos de seções, haja vista o número acentuado de candidatos no pleito, e as velhas bocas de urna. O resultado foi a espera, em algumas cidades, de até 3 horas para votar. Um verdadeiro teste de paciência conviver com a desorganização que tomou conta de muitas zonas eleitorais, algo que, se não fosse a boa vontade de muitos eleitores que não arredaram os pés dos seus locais de votação, a coisa aí, sim, viraria uma zona.
As surpresas não foram poucas. Candidatos que estavam nas cabeças das pesquisas durante toda a campanha despencaram sem dó nem piedade. A candidata Marina Silva foi hors concours, tomando uma lavada até do iluminado cabo Darciolo; isso sem falar de Henrique Meirelles, que disse ter gastado 53 milhões na campanha, contra os R$ 808,00 de cabo evangélico, personagem singular que durante os debates defendia suas ideias muitas vezes baseadas em salmos bíblicos.
A ex-presidente Dilma Rousseff, dada como certa para levar e sentar em uma cadeira no Senado com sua prometida grande votação em Minas Gerais, amargou um quarto lugar e saiu calada. O mesmo aconteceu com Lindberg Farias, que no passado era chamado de Lindoberg: este perdeu o seu lugar no Senado para Flavio Bolsonaro, o filho de Jair Bolsonaro, ou, se preferirem, #EleNão/#EleSim. No mesmo octógono estavam o deputado evangélico Arolde de Oliveira, que no último instante tirou a vitória das mãos do ex-prefeito do Rio, o famoso criador de factóides Cesar Maia, fechando o placar em 17,06% para Arolde contra 16,67% de Cesar Maia, em uma vitória apertada.
A governador pelo Rio de Janeiro, disputava o senhor das obras Eduardo Paes, que recentemente foi prefeito da Cidade e que se manteve praticamente durante toda a campanha na primeira colocação, sempre com uma boa margem para o segundo colocado, que normalmente era o ex-jogador e atual senador Romário, o qual, mesmo vacilante nos debates, estava conseguindo se manter na sua posição. Mas domingo os eleitores mostraram que pesquisa é sempre algo feito para se duvidar, e já nas primeiras urnas o que se via era Paes em segundo e bem longe de um certo Wilson Witzel, ex-juiz federal, que cravou um primeiro lugar com 41,28% contra modestos 19,56% de Eduardo Paes, mostrando que a dança das cadeiras era para valer. Com isso, o baixinho Romário terminou em quarto lugar, com apenas 8,70% dos votos válidos.
Esperta foi a senadora Grace Hoffman que, pelo sim, pelo não, preferiu dar um passo atrás e deixar sua vaga no Senado em troca de uma cadeira na Câmara, candidatando-se a deputada federal. Estratégia que deu certo. Já o bom e sempre simpático Eduardo Suplicy, candidato ao Senado por São Paulo, não teve a mesma sorte e acabou ficando pelo caminho.
Outra que perdeu feio, já no primeiro turno, foi a ex-governadora Roseana Sarney, filha do ex-presidente e cacique “aposentado” José Sarney. A maranhense perdeu para Flávio Dino por 59,29% a 30,07%.
E as surpresas não param. O ex-ator pornô Alexandre Frota foi eleito deputado federal por São Paulo. Algo que lhe rendeu de cara uma crítica ácida do filho Mayã Frota: “Agora ele não vai poder usar como desculpa ‘não tenho dinheiro pra pagar a pensão’.”
O palhaço Tiririca, que de palhaço não tem nada, havia dito recentemente que estava deixando o cargo, mas pensou melhor(?) e resolveu ficar, e agora vai ter que encarar o seu terceiro mandato em Brasília, afinal 445 mil votos não são para se desprezar. Conhecido como “príncipe”, Luiz Philippe de Orleans e Bragança, trineto da princesa Isabel e tetraneto de Dom Pedro II, foi atrás do seu lugar ao sol, e na corrida obteve 116 mil votos. Até a policial militar Katia Sastre, que ficou conhecida por matar na frente de várias mães um assaltante na porta da escola de sua filha em São Paulo, também embarcou no “sucesso” do seu ato e foi eleita com 260 mil votos.
Resta-nos para o próximo dia 21 um segundo turno que promete “mudar” a História do Brasil: a disputa entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, algo que merece reflexão redobrada e a certeza de que muito pode ser mudado a partir daí. Os resultados saídos das urnas no último domingo mostram isso com muita clareza, revelando que o eleitor apesar dos pesares, sabe pensar e avaliar; e mesmo tendo escapado alguns nomes que foram reeleitos, mesmo depois de nada terem feito nos últimos anos, e novos outros que chegam com a intenção de também nada fazer, essa boca boa promete não ser tão boa assim.
Hoje é o Dia das Crianças e da padroeira do Brasil, Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Que ela nos inspire, ilumine e direcione os nossos dedos para teclar na urna o melhor para o Brasil, porque como está não dá mais. Como cantou Gilberto Gil: “Andar com fé eu vou, que a fé não costuma ‘faiá’.”


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