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Darth Vader e o medo ancestral da escuridão: Trevas como símbolo de ignorância

Matéria publicada em 13 de março de 2015, 06:36 horas

 


Negro não é uma cor, é a ausência total de cores, um objeto é negro quando ele absorve todos os comprimentos de onda do espectro luminoso e não reflete nada

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Darth Vader: O negro como símbolo do mal e da ameaça (Foto: Divulgação)

Semana passada, como bem se recordam, comentei aqui nesse espaço sobre o caso Eike Batista e o juiz que passeou no carro apreendido. Em uma analogia com o filme “Guerra nas Estrelas” o título da matéria falava no “Juiz e o lado negro do Brasil”. Um leitor, afro-brasileiro, enviou e-mail reclamando da associação do negro com a corrupção e o lado podre do país. Ele acha que o colunista devia “rever seus conceitos”. É mais um exemplo da patrulha do politicamente correto que assola a imprensa e as artes. Mas nesse caso trata-se de uma causa perdida. O medo da escuridão negra e sua associação com coisas negativas (Como o Darth Vader aí na foto) faz parte da memória ancestral da humanidade.

Pra começar é bom explicar que negro não é uma cor. É a ausência total de cores. Um objeto é negro quando ele absorve todos os comprimentos de onda do espectro luminoso e não reflete nada. Como o famoso monólito negro do filme “2001 Uma Odisseia no Espaço”. Esse também é o motivo porque o céu a noite é negro. Toda aquela abóbada infinita está emitindo radiação cósmica de fundo, que brilha na faixa das micro-ondas. Bem abaixo do vermelho, que é a radiação mais longa que nossos olhos podem perceber. Como não temos olhos sensíveis as micro-ondas vemos tudo preto e sem cor.

Darth Vader se veste de preto, como todo vilão de cinema que se preza. E se entregou ao “lado negro da força”. Mas de onde vem essa associação do negro, da escuridão, com o perigo e a ameaça? Ela vem dos primórdios da humanidade, quando nossos antepassados precisavam se esconder em cavernas durante a noite, para escapar das feras que caçam na escuridão negra.

Mesmo depois que o homem conseguiu dominar o fogo, a escuridão ainda metia medo e causava apreensão. A fogueira podia espantar as feras, mas elas continuavam lá, a espreita no negrume da floresta, prontas a atacarem os incautos. Esse medo ancestral do escuro está por trás de expressões como “a coisa está preta”, “a hora mais negra” e “idade das trevas”. As trevas simbolizando a ignorância em oposição à luz clara da razão e do esclarecimento. Como o lado negro da força que seduziu o Darth Vader nos filmes de “Star Wars” e o levou para o lado ruim, mal, da rebelião galáctica. Coisa que também aconteceu com outro personagem famoso da nossa cultura, o conde Drácula, o príncipe das trevas.

Mesmo hoje, quando a humanidade vive em cidades bem iluminadas ainda tememos a escuridão. Protestamos indignados quando um apagão nos deixa no escuro e temos medo de andar em ruas mal iluminadas. Onde os predadores modernos se ocultam a espera de suas vítimas incautas. Também é devido a esse temor ancestral que o mais famoso herói dos quadrinhos, o Batman, se veste de preto e usa uma fantasia negra de morcego. Para assustar os criminosos.

Para o futuro, entretanto, há uma esperança de que essa associação seja esquecida. Desde que a humanidade sobreviva e consiga evoluir além da barbárie atual. Neil deGrasse Tyson, o astrônomo afro-americano que apresenta a série Cosmos, acha que seres extraterrestres podem ter visitado nosso mundo e partido ao concluir que não existe vida inteligente no nosso planeta. Mas nada impede que nossos descendentes se tornem mais sábios e escapem do primitivismo atual.

O físico Freeman Dyson acredita que nossos descendentes podem colonizar o espaço interestelar. Se isso acontecer o negro sem fundo do infinito se tornará o símbolo do lar, do universo acolhedor e não mais das trevas ameaçadoras. E esses seres do futuro poderão viajar pelo espaço em naves impulsionadas pela energia negra da matéria escura como os Transformers das histórias em quadrinhos. Mas por enquanto ainda estamos muito longe disso.

Jorge Luiz Calife | jorge.calife@diariodovale.com.br


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2 comentários

  1. Ovo de páscoa do Darth Vader pra todo mundo , vem com uma caneca maneira pra tomar café e assunto encerrado.
    Pronto falei.

  2. O politicamente correto é um câncer para a Democracia. Restringe a liberdade de expressão em nome das “sensibilidades” dos mais diferentes grupos organizados; daí a tirania. Um pequeno número de militantes se arvora no direito de decidir, em nome do grupo que dizem representar, o que fere ou não suas sensibilidades e, portanto, o que pode ou não ser escrito ou falado. Só faço uma ressalva ao texto do autor: usar o termo “afro-brasileiro” é também uma forma de ceder ao politicamente correto. O Brasil é um povo miscigenado. Eu mesmo tenho ascendentes de várias etnias; brancos, negros e indígenas…Isso também é verdadeiro para a maior parte do povo brasileiro: se dizer “afro-brasiliero” é apenas uma afirmação política sem nenum lastro científico ou cultural.

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