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De volta para Pinheiral

Matéria publicada em 25 de abril de 2017, 07:00 horas

 


O melhor da cidade não está disponível para viajantes comuns; Pinheiral moderna é suja e empoeirada

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Já comentei aqui, nesse espaço, sobre uma amiga que passou a infância em Pinheiral. Depois foi morar em São Paulo e passou décadas sem visitar a cidade. Ano passado ela apareceu, chegou a Praça Brasil, olhou em volta e desabafou: “Nossa! Pinheiral está um lixo!”. Não mudou nada desde então, mas minha amiga cometeu um erro ao achar que poderia rever Pinheiral no seu carrinho, um Fiat Uno desses convencionais. Não dá. Para curtir o melhor de Pinheiral é preciso ter um carro que não se encontra nas revendedoras de veículos da nossa região. Precisamos de um DeLorean movido a plutônio que nem aquele do filme “De volta para o futuro”.

Com o DeLorean é só regular o mostrador temporal para setembro de 1963. Esse é um bom ano para visitar Pinheiral. Com a carga de plutônio carregada no capô vamos para a Via Dutra. Antes de Resende tem uma reta perfeita para acelerar o carro até a velocidade necessária. A uns 120 quilômetros horários atingimos a curva de Gödel e o salto temporal necessário. Em um instante passamos por um DKV e uma Rural Willis, estamos em 1963. A estrada do quilômetro nove ainda não foi asfaltada e é melhor acionar o sistema de levitação para não estragar a suspensão do DeLorean. Afinal, ele pode voar e viajar no tempo, mas não foi feito para estradas de terra.

Entramos em Pinheiral passando por um túnel que tem por baixo da segunda linha e dobrando a esquerda pela Rua Benedito Honorato. É uma tarde de primavera e Pinheiral cheira a eucalipto. A Rua Remi Barbosa é dividida ao meio por uma fileira de ipês. O trânsito é mínimo e logo descemos a José Gomes da Silva em direção a Praça Brasil. O cinema Odeon tem um cartaz anunciando o filme “Eldorado”, com o John Wayne. E um seriado em preto e branco da antiga Republic, o “Capitão Cody”. Mas o que chama a atenção na praça é o gramado verde e o “repuxo”, a direita do cinema, em frente aonde é hoje o Banco do Brasil.

O repuxo é como os moradores chamam o lago cheio de peixes japoneses, com um chafariz no meio. O fundo é todo revestido de azulejos brancos e os peixes são vermelhos e brancos. Ficam entrando e saindo de umas aberturas que servem de tocas. As crianças gostam de jogar pipoca para eles antes da matinê do cinema, mas isso não é recomendado. Ao lado fica a Praça Teixeira Campos, toda gramada e arborizada.

Depois de circular pela praça pegamos a Rua Domingos Mariano em direção ao Posto Zootécnico. Em frente ao imponente casarão do século XIX é melhor deixar o DeLorean estacionado e seguir a pé, atravessando a linha. O Posto Zootécnico é uma fazenda modelo do Ministério da Agricultura. Em frente ficam as baias onde os bois e cavalos são lavados e vacinados. O teto é de telhas francesas importadas realmente da França. O interior é ladrilhado e muito limpo.

Subindo as escadarias admiramos a vista do vale da sacada do casarão. Em 1963 esta linda construção ainda não foi saqueada e queimada. Está intacta, com seus lustres importados, o assoalho e os móveis de madeira de lei. Passando pelas alamedas de eucaliptos voltamos para o nosso meio de transporte. É o fim da tarde e o céu se enche de andorinhas, que fazem seus ninhos na estação do trem. O expresso passa apitando rumo a Barra do Piraí. Os vagões de madeira, a locomotiva canadense pintada de azul e amarelo.

Seria ótimo esperar a noite para admirar o céu estrelado de Pinheiral. Mas é hora de voltar para o futuro. Dessa vez adaptamos o DeLorean para correr pelos trilhos do trem até atingir a velocidade de necessária de 88 milhas horárias. A curva do tempo é atingida e chegamos a Pinheiral moderna, suja, empoeirada, fedendo com o cheiro da granja. Do casarão que visitamos há pouco só restam ruínas tomadas pelo mato.

Pronto: Nosso transporte para Pinheiral

Pronto: Nosso transporte para Pinheiral

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br


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6 comentários

  1. Avatar
    Al Fatah, o Horrendo

    O mundo é um processo dinâmico…

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    Triste realidade, à começar pelas áreas de posse…

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    Pagador de impostos

    Olá Calife. Parabéns pelo texto nostálgico e belo. Seria legal se você compartilhasse com os seus leitores, algumas fotografias, se as tiver é claro, retratando esses cenários que você descreveu. Parabéns.

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    PÔ ESTE CARA SÓ FALA MAU DE PINHEIRAL, POR QUE VOCÊ NÃO APROVEITA E MUDA PARA VOLTA REDONDA, VAI FAZER UM FAVOR MUITO GRANDE.

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    Seu texto foi muito feliz…Parabéns

  6. Avatar

    Muito triste a degradação das cidades do interior, antes tão belas. A degradação moral é ainda pior: as pessoas perderam o senso de comunidade e a disposição para cuidar daquilo que é público; perderam até mesmo o senso de estética. Este é o resultado de décadas de hegemonia cultural da esquerda, afinal, para os novos intelectualóides o belo é elitista, pixação é arte e o funk é uma obra-prima da música.

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