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“Decadância”

Matéria publicada em 11 de dezembro de 2018, 08:15 horas

 


Por conta de um congresso, me hospedei no centro velho de São Paulo, para ficar mais perto do local do evento.
Titubeei um pouco, porque a fama do centro não é das mais lisonjeiras, mas o desejo de evitar congestionamento e briga por estacionamento falou mais alto.
De mais a mais, pensei, poderia ser um déjà vu da época de criança em que meu padrasto viajava a trabalho e ficávamos num hotel tradicional próximo ao Largo do Arouche. Isso nos longínquos anos 80, quando meu passeio predileto era ir até o Mappin escolher os LPs que eu compraria se tivesse dinheiro.
O congresso foi bom, mas a experiência de ficar no centro melhor ainda. E não porque o centro não esteja decadente, muito pelo contrário. Andar pelas ruas do centro velho foi como entrar em uma outra dimensão, uma verdadeira fauna de seres que parecem ter sido ejetados diretamente das catacumbas da noite: drogados, prostitutas, andarilhos, mendigos, travestis, desvairados e desvalidos de todo tipo. A vida como ela não deveria ser, mas ainda assim a vida como ela é, pornográfica e constrangedora.
Nos esquecemos que há o oposto simétrico na mesma São Paulo, talvez tão pornográfico e constrangedor quanto: pessoas ardendo nas brasas das fogueiras de vaidades infinitas, desfilando em carros de centenas de milhares de reais e gastando numa noite o que muitas famílias não amealham em um ano. Cegas pelo brilho fugaz de um dourado reluzente e brega.
O excesso de tudo e a amplitude do nada, separados por alguns quarteirões.
Não vou ser hipócrita de dizer que transitar pela zumbilândia não tenha provocado sensações desconfortáveis, oscilando entre o terror da violência e a tristeza de ver tantos projetos mal-acabados de pessoas vagando sem rumo e destituídos da mínima dignidade, a vida esvaziada feito pó, evaporada na fumaça de um cachimbo.
Mas ao mesmo tempo aquele centro ainda respira alguma coisa da elegância esquecida de um passado glorioso, monumentos históricos, praças, parques e alguns dos mais icônicos prédios e restaurantes da maior capital do país. O terraço Itália, salas de teatro, o edifício Copam, o mercadão municipal, o Bar Brahma, o Gato que Ri e o Filé do Moraes.
E tenho que ser honesto de dizer que me surpreendi com a diversidade da área: velhinhas voltando com sacolas de frutas, adolescentes alternativos andando de bike, famílias fazendo compras, artistas de rua, tudo junto e misturado. Uma cidade viva, ainda pulsando, apesar dos pulsos abertos.
O centro velho das grandes cidades com muita frequência segue uma trajetória parecida: cresce, se adensa, atrai empreendimentos e depois satura; os investimentos começam a migrar para alguma nova área da moda e aos poucos tudo vai se deteriorando. É comum que durante o dia o espaço ainda seja tomado de atividades comerciais, mas com o cair da noite e o apagar das luzes os seres que habitam as entranhas da noite tomam o espaço e as pessoas fogem assustadas.
Mas não acho que precise ser necessariamente assim. Diversas cidades no mundo já empreenderam de maneira bem sucedida programas de revitalização dessas áreas. Os centros históricos guardam tesouros arquitetônicos, patrimônios culturais, museus, parques e são propriedade de toda a população.
É preciso trazer as pessoas de volta para o centro, revitalizar áreas degradadas, zelar pela segurança pública e tentar salvar as almas que vagam perdidas pelas sarjetas da dura poesia concreta das nossas esquinas.
Porque apesar dos pesares, alguma coisa ainda acontece no meu coração toda vez que cruzo a Ipiranga e a Avenida São João.


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