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Direitos animais

Matéria publicada em 1 de outubro de 2019, 08:00 horas

 


Até onde o conhecimento disponível nos permite deduzir, tudo indica que nossa espécie tenha surgido nas savanas africanas, repletas de uma rica galeria de animais e depois se espalhado pelo resto do planeta.
Somos animais também. Já habitamos as mesmas florestas geladas e as mesmas cavernas escuras. Já fugimos de bicho, já caçamos e mais do que tudo, já fomos muito caçados.
E agora nós viramos esse Homo Sapiens sofisticado, que mistura morango com chantilly, damasco com gorgonzola, que aprecia vinhos e sinfonias e planeja conquistar outros planetas.
Mais do que tudo, conquistamos o reino animal. O Rei Leão agora só é Rei no cinema. Na vida real, derrubamos savanas e florestas para construir estradas, prédios e shoppings e nossa dieta inclui fartas doses de proteína animal: frango, carne, porco, peixes e crustáceos.
A conquista do mundo animal é um dos capítulos mais impressionantes da saga humana na Terra, mas em que ponto cruzamos a linha que divide a conquista da subjugação?
Durante muito tempo nos acostumamos com a ideia de que existe uma cadeia alimentar natural, onde o mais forte vence o mais fraco e que sendo parte de um ciclo da natureza, não haveria nada de errado nisso. E comíamos felizes os bifes de alcatra que apareciam todo almoço na nossa frente, sem ter que pensar muito bem em como é que ele foi parar no nosso prato.
E socialites usavam espalhafatosos casacos de vison nas festas chiques do mundo e usávamos cobaias animais para testar os efeitos de novas drogas. Mas cada vez mais pessoas se perguntam se não estamos cruzando a linha que separa aquilo que temos o PODER de fazer daquilo que DEVERÍAMOS fazer.
Deveríamos dar aos animais os mesmos direitos que nós temos? Parece um pouco exagerado dar aos animais direitos de propriedade ou direitos políticos, embora a política mundial esteja cheia de antas e hienas e que nos perdoem as antas e as hienas.
Mas se parece exagerado dar aos animais os mesmos direitos que nós temos, talvez seja um pouco cruel não dar a eles nenhum direito.
Nos Estados Unidos o Instituto Gallup conduziu uma pesquisa de opinião em 2015 sobre os direitos dos animais, onde 32% disseram que os animais deveriam ter os mesmos direitos que os humanos e 62% que eles devem ter algum direito, mas podem ser utilizados em benefício humano e apenas 3% disseram que os animais não precisam de nenhuma proteção especial.
No Brasil, uma pesquisa do Datafolha revelou que 41% da população é contra o uso de animais em testes. E esses números foram mais altos entre os jovens.
Mas por que existe essa tendência no aumento da demanda por direitos animais? Existem muitas causas, algumas regionais e outras quase insondáveis, mas eu diria que as principais são:

– Maior transparência – Com a internet a gente vive num mundo onde segredos não existem, as coisas boas ou más proliferam com uma velocidade muito grande e muito do que as pessoas aceitavam por conveniência ou ignorância fica difícil apoiar. Nos EUA e Europa nos últimos anos surgiram muitos documentários a respeito de maus tratos de animais que acabaram repercutindo na opinião pública;
– Ativismo – Existe hoje em dia muito mais ativismo em torno de “causas” e o direito dos animais é uma dessas causas. E existe mais ativismo porque a internet tornou muito mais fácil aglutinar pessoas com interesses comuns, mesmo que elas morem a milhares de quilômetros de distância;
– Cultura – Todos nós somos frutos do local e da época em que vivemos e somos influenciados pela cultura dominante. Durante muito tempo, criancinhas cantavam felizes no pátio da escola, com o incentivo dos professores:
Atirei o pau no gato, mas o gato não morreu. Dona Chica se admirou do berro que o gato deu.
As novas gerações surgem com um código cultural novo e começam a questionar padrões vigentes, e porque a razão a gente faz o que sempre fez.
E por que a gente deve olhar para essa tendência?
Em primeiro lugar por decência, por moralidade, por justiça. Se a gente habita o reino animal e por alguma sagacidade muito particular conseguimos criar instrumentos, instituições e ferramentas que nos permitem dominar o ambiente ao nosso redor, é nosso dever, como seres “superiores” que somos, não deixar que essa concentração de poder resulte na opressão dos outros seres do reino animal. Não é subverter a lógica da natureza, onde existe uma cadeia alimentar, mas cuidar de regular e limitar a gula desenfreada de nossas pulsões mais bárbaras;
– Por inteligência ecológica – A vida na terra é regulada por um equilíbrio fino que desanda com muita facilidade. Ao longo dos últimos séculos muitas espécies se extinguiram, muitas delas pela ação direta ou indireta dos homens. Não parece muito inteligente desarticular esse equilíbrio ecológico fino que foi arquitetado pacientemente ao longo de milhões de anos.
E se nenhum dos dois outros itens foram suficientes para convencer, vai valer a pena respeitar o direito dos animais nem que seja por marketing ou para evitar uma tragédia de relações públicas, porque os consumidores estarão cada vez mais atentos e conscientes em relação a empresas que não se comportam bem, inclusive em relação aos animais.
Sim, nós somos os sofisticados e sagazes Homo Sapiens. Mas continuamos sendo animais.

Alexandre Correa Lima é professor da FGV, escritor e palestrante corporativo. Ele está no YouTube, no Facebook, no Linkedin, no Instagram, no SPC e no Serasa. E não está no Tinder porque sua mulher não deixa.


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Um comentário

  1. Avatar

    Daqui a pouco passamos ao próximo nível de retardamento politicamente correto.
    Vou dar a dica: https://www.newstatesman.com/politics/feminism/2018/04/samantha-s-suffering-should-sex-robots-have-rights

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