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Dostô

Matéria publicada em 16 de julho de 2019, 10:03 horas

 


Dizem que todo mundo tem alguma mania, compulsão ou coleção.
Eu tenho mania de livros. Compro mais do que minha velocidade de leitura é capaz de dar conta. Cheguei a fazer uma promessa de que não compraria mais livros enquanto não lesse pelo menos metade dos livros que estavam parados na estante. Obviamente que não cumpri a promessa. Derrotado pela compulsão, prometi que nunca mais prometeria nada.
As estantes de casa, cheias de livros, me dão muita satisfação, mas às vezes um pouco de culpa também.
É que no meio das centenas de livros devorados e “a devorar” existem daqueles tijolões enormes, que eu sei que já deveria ter lido, mas fico adiando a leitura. Clássicos que esperam pacientes o dia chegar, enquanto adio indefinidamente para a calmaria das próximas férias que nunca chegam.
É o caso de “Irmãos Karamazov” do genial escritor russo Fiodor Dostoievsky. Recentemente me vi com esse tijolaço de quase mil páginas na mão, mas acabei postergando mais uma vez a leitura, não por falta de vontade, mas porque a atribulação dos compromissos não me permitiria ler com o nível de atenção e tempo que a obra requer. Com sentimento de culpa, acabei lendo uma obra mais curta, mas nem por isso menos interessante: “memórias do subsolo”.
Dostoievsky foi realmente um grande gênio.
Ele teve uma produção literária intensa, escreveu contos, ensaios, artigos, foi editor de revistas, e claro, grandes clássicos da literatura mundial, como memórias do subsolo, o idiota, os irmãos karamazov e crime e castigo, sua obra mais conhecida e reverenciada.
Ao longo da carreira, Dostóievski transitou por diversos estilos literários, chegou até mesmo a flertar com o romantismo, como no caso do conto noites brancas, mas depois acabou criando um estilo próprio. Seus romances não tinham muitas descrições detalhistas de cenários e personagens como era comum na época, onde os autores gastavam muitas páginas descrevendo o ambiente, a roupa, os traços da fisionomia. Dostóievski privilegiava o enredo, a ação. Mas se ele não perdia tempo descrevendo como o personagem era por fora, ele fazia um mergulho profundo na alma, na psicologia dos personagens, tanto que é considerado um dos pais do existencialismo, inclusive por Jean Paul Sartre. E Nietzche vejam só, disse que Dostoievsky foi o único psicólogo do qual teve algo a aprender.
Seus personagens não eram sempre bons ou maus, eram ambíguos, cheios de contradições e dilemas.
Culpa, tristeza, vingança, ódio, ganância, sadismo, paixões e arrependimento estavam representados de maneira recorrente nas suas obras. Seus livros, mesmo os de poucas páginas, como é o caso de memórias do subsolo, tinham muita densidade psicológica.
Nesse sentido, seus romances eram tão fortes que até mesmo o pai da psicanálise enaltecia suas obras. Freud dizia que irmãos Karamazov era o melhor romance da história.
Falando em história, não dá para separar o artista de sua história. E a vida de Dostoievsky teve momentos marcantes.
Ele se formou em Engenharia, mas sempre atuou na carreira literária. Seu primeiro romance, “Gente pobre”, foi lançado aos 25 anos de idade. Mas Dostoievsky tinha também ideias políticas, sobre como a Rússia poderia ser um país melhor para seu povo. E ideias, a história mostra, podem também ser perigosas. Ele nem tinha uma atuação política muito intensa, mas andava com uma turma de amigos revolucionários que não era bem vista pelo Czar Nicolau I. E Dostoievsky e sua turma foram presos quando ele tinha 27 anos. Pra piorar, eles foram condenados à pena de morte por fuzilamento.
Alguns dias antes da execução da sentença, o czar transformou a pena de morte por prisão com trabalhos forçados na Sibéria, só que, de maneira cruel e sádica, o czar não avisou os condenados, e mandou o exército levá-los para uma praça pública em São Petersburgo. Amarrou os três primeiros condenados em postes, apontou as metralhadores para a cabeça deles é só então anunciou que a pena de morte tinha sido convertida por trabalhos forçados na região mais isolada da Rússia, a Sibéria, onde no inverno faz trinta graus negativos.
Essa experiência de quase morte teve um efeito filosófico e de elevação espiritual muito forte pro escritor, vindo a marcar profundamente sua obra.
E se não é possível separar o artista de sua trajetória, é possível dizer que todo o sofrimento e privação física e moral que ele experimentou na Sibéria acabaram servindo como combustível para suas criações.
Grandes escritores não escrevem porque possuem o poder de escrever, grandes escritores escrevem porque possuem a missão de escrever, escrever é uma necessidade, um ato de catarse, de cura, de exorcismo dos demônios que atormentam as almas agitadas dos artistas mais geniais.
Nesse sentido, a escrita talvez tenha salvado Dostóievski do frio, da solidão, e dos trabalhos forçados naquele fim de mundo gelado.
E muita das obras prima que ele deixou para a humanidade, como O Idiota e Crime e Castigo foram profundamente marcadas por essa experiência.
Claro que com um currículo desses deixar um clássico como “Irmãos Karamazov” colecionando poeira na estante não é uma atitude pra colocar no currículo. É Dostoievsky mais uma vez provocando culpa e angústia nos leitores, até mesmo quando não se lê seus romances existenciais.
Mas nas próximas férias aquele tijolaço não me escapa.


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