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E foram felizes para sempre…

Matéria publicada em 30 de junho de 2017, 09:00 horas

 


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Esta é uma frase epistolar, dita com amor e paixão durante um momento ímpar da vida de um casal… e depois? Bom, depois são outros quinhentos. A vida segue nem sempre em linha reta, até porque, se fosse assim, seria por demais monótona e sem a adrenalina nossa de cada dia.
No fundo, precisamos ter uma visão correta, nada míope ou ingênua, do casamento, mas também sem amargura, sabendo que o “felizes para sempre” nem sempre tem o “sempre” no final. Pra começo de conversa, casamento não é conto de fadas e, mais do que isso, para vivenciar de fato esta relação, é essencial estar nela a dois, não necessariamente casados, mas amando e estabelecendo com o outro a troca permanente, a mesma energia que permite viver essa parceria.
O dia seguinte ao “felizes para sempre” já pode começar fazendo água se um dos lados achar que o “jogo” está ganho. Na verdade, essa partida tem que “terminar” de preferência empatada. Ser feliz um dia de cada vez, a dois, é a fórmula infalível do sucesso, não tem como dar errado. O fato é que, quando escolhemos alguém para dividir nossa vida, depositamos enorme confiança na relação e atribuímos ao nosso companheiro a responsabilidade de compreensão incondicional. Ou seja, confiamos em que aquela pessoa vai estar ali para o que der e vier, independentemente da situação e de como resolvermos lidar com ela. Quando as duas pessoas envolvidas em um relacionamento participam ativamente da vida a dois, muitas coisas desagradáveis são evitadas.
Temos que levar em conta que toda relação tem altos e baixos: um dia é princesa; no outro, bruxa. Ou príncipe hoje, amanhã sapo de papo mole. Todo casal vive esse desafio com o passar do tempo. Assim, devem ser criadas formas de manter uma jovialidade típica de namorados após o casamento ou até mesmo no período de namoro, para aqueles relacionamentos que transcendem o tempo e acabam se confundindo com matrimônio de tão longos. Alguns casais veem isso como um desafio de enormes proporções, às vezes pela falta de tempo de um ou de outro, ou dos dois, às exigências trazidas pelo trabalho ou pelos filhos, haja vista a atenção que deve ser dada a eles e que, de alguma maneira, pode ocupar o espaço para algo a mais entre o casal.
Acredito que tentar manter o clima de namoro é um recurso que torna o relacionamento oxigenado, a criatividade fica em alta, os desejos e o prazer se alimentam da liberdade e do frescor que caracterizam a fase inicial das relações. Tomar decisões juntos, com coerência, dividir as alegrias e as tristezas, não ter medo de ter medo, porque nunca um relacionamento é só feito de sorrisos. Saber olhar nos olhos é primordial.
As surpresas que acontecem nos primeiros meses de namoro não podem morrer jamais, devendo ser alimentadas de todas as formas a fim de driblar o tempo e a rotina. Os pequenos e essenciais carinhos, o beijo dado com desejo, o afago nos cabelos, a atenção e o cuidado nas pequenas coisas, o sorriso de cumplicidade, os dedos entrelaçados… perder isso é perder o caminho. E a mudança de rumo sem sentir nos faz enveredar por uma estrada escura e individualista.
Cenas de um casamento, de Ingmar Bergman, 1973, e Shirley Valentine, de Lewis Gilbert, 1989, são filmes que ilustram muito bem o que estou falando aqui. É o dia a dia do casamento ou do relacionamento virando pó, ganhando contornos pesados e obscuros, perdendo por completo a graça e o lado pueril que sustenta o gostoso jogo do amor.
Li a história de um casal já longevo que dizia: “Quando casamos, fizemos um trato: nunca dormir brigados. Se a gente discute, tem que resolver antes de ir pra cama. Pois, se dormirmos com raiva, o problema aumenta. Aí, na manhã seguinte, fica mais difícil fazer as pazes”. Esta é uma grande verdade. O que mantém a vida a dois em plena felicidade é o diálogo. Ele, aliado à sinceridade, é capaz de espantar qualquer espectro de briga ou ciúme bobo. Surpreender o outro também é algo que torna a cada instante o relacionamento mais gostoso, porque carrega o novo, o inusitado, sempre como um ingrediente a mais, evitando o desgaste, o lugar-comum e a previsibilidade.
O sentimento de companheirismo, de querer construir uma história em conjunto e tornar aquele amor parte dessa conquista é algo espetacular. E nada melhor do que fazer isso ao lado da pessoa de quem mais gostamos, em quem acreditamos e confiamos, aquela que nos provoca alegria, prazer, emoção e paz.
Saber ouvir é outro detalhe que não pode ser esquecido. Há momentos em que queremos falar e o outro deve se calar para nos ouvir; a seguir, é o outro que busca nossa atenção e a ele temos que dar ouvidos com carinho e cuidado. Assim funciona o jogo da admiração: cada um entra em campo disposto a encantar seu par – e ambos vencem. O casal consegue superar problemas quando um acolhe o outro em situações de fragilidade, de sorte que a relação se fortifica. Ao contrário do que muitos possam pensar, o tempo nem sempre desgasta os relacionamentos. Muitas vezes, ele é capaz de solidificá-los, tornando-os estáveis e mais felizes a cada dia.
Então, não deixe de rir dos seus próprios defeitos e dos defeitos do outro, mas também não se esqueça jamais de respeitar a opinião da outra metade. Preservar os momentos de intimidade é primordial, assim como deixar que o outro exponha a sua opinião. Também é fundamental fazer sempre planos juntos, ambos se esforçando o máximo possível para que eles se concretizem.
Quando escolhemos alguém para caminhar junto, para viver e conviver conosco, sabemos o que estamos fazendo (ou, pelo menos, deveríamos saber). Trata-se de uma opção. Então, que cada um escolha também a melhor maneira de viver isso. Se duas pessoas vivem juntas, porém de forma individual, cada uma por si, sem nenhuma responsabilidade com o que acontece na vida do outro, sem participar de nenhuma maneira, sem parceria, elas não conseguem formar um casal de fato.
Um relacionamento a dois deve ser um doce deleite, sempre gostoso, cremoso, feito sob medida, de forma que possamos, a todo instante, nos lambuzar de prazer. Isso é algo infinitamente delicioso… e o melhor: não tem contraindicação.

ARTUR RODRIGUES | [email protected]


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