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É hoje

Matéria publicada em 23 de novembro de 2019, 06:30 horas

 


Há, obviamente, prós e contras em relação a contribuição que o futebol propicia a todos nós

Será que a América latina vai parar? Logo hoje? Será que estamos diante do dia mais importante do ano? O juiz vai apitar, River e Fla irão travar uma verdadeira guerra dentro de campo. Bacana, não? A verdade é que para muitos “cidadãos” latino americanos, assistir futebol já virou, além de paixão, um retiro no qual se é possível escapar da realidade problemática dos países em desenvolvimento deste lado do globo. Assim, apesar de ser, relativamente, acessível e inclusiva, tal modalidade esportiva também apresenta problemas, nesse contexto, por ser uma maneira antiga dos governos desviarem a atenção do povo fanático das grandes questões sociais e políticas de nossa América latina. Logo, é preciso medir os limites necessários para que tal cultura não se transforme em um ópio que leve à manipulação em relação aos questionamentos relevantes aos países em desenvolvimento.
Independente do resultado, podemos aprender com a história?
E se ao final do primeiro tempo, o jogo terminar empatado de 3 a 3? Será que alguém irá olhar para o Chile, Brasil, Argentina, Venezuela, Colômbia? Será? Historiadores de todos os países ao redor do globo terrestre reconhecem o lazer, em algumas situações, como uma maneira de os governos garantirem a satisfação do povo e a aceitação das medidas impostas, o que se evidenciou pela célebre frase “Pão e Circo”, que foi uma política romana adotada para manter a ordem oligárquica vigente em questão, na qual o circo significava a distração da população por alguma forma de entretenimento. No Brasil, o futebol mostra-se como o “circo” nacional que desvia a atenção dos indivíduos de crises e escândalos políticos e econômicos. Exemplo disso foi a conquista da Copa do Mundo de 1970, utilizada pela então ditadura militar para criar uma exaltação nacional e ganhar o prestígio da sociedade pelo governo. Por conseguinte, faz-se necessário que a população seja mais consciente sobre as formas de manipulação estatal a fim de não tornar o esporte uma droga alucinógena que faça o povo confundir a realidade com as ilusões que querem ser impostas.
Início do segundo tempo, gol aos 33 segundos, 4 a 3. Que rumo a partida vai tomar? Em contraponto a esse cenário, o futebol brasileiro também é parte fundamental da construção da cultura nacional. Isso porque esse esporte é relativamente inclusivo a todas as etnias e acessível a maioria do povo, o que provocou sua rápida adesão pelos brasileiros, que se tornaram mundialmente conhecidos pelo talento e paixão em tal esporte. O caráter popular do futebol é evidente desde sua origem nas grandes fábricas depois da Primeira Revolução Industrial, já que os operários precisavam de um jogo com tempo definido para término para desfrutar nos intervalos de serviço. Dessa maneira, a transmissão do futebol em canais de concessão pública também atende à Constituição Cidadã no que diz respeito a garantir os direitos sociais como a acessibilidade e o lazer. Consequentemente, valorizar o futebol é, apesar das problemáticas existentes, uma maneira de preservar o patrimônio cultural que dá identidade ao país.
Mas devemos sempre indagar a nós mesmos, qual é a importância que damos ao futebol e qual importância que damos aos nossos governos? Atuamos com equilíbrio?
Fim de jogo. Placar definido. Os dois clubes se consagraram campeões. O que seria mais utópico? Dois campeões ou toda a América latina transformada em seus patamares em se tratando de educação, saúde, lazer, emprego, qualidade de vida?
Há, obviamente, prós e contras em relação a contribuição que o futebol propicia a todos nós. Eu mesmo irei assistir ao jogo, como diz o meu filho Theo, jogaço papai! Iremos torcer, e muito. Principalmente pela conscientização de cada cidadão, pois precisamos nos lembrar que a vida dura bem mais de 90 minutos.
E que vença o melhor!

Boa Leitura, bom jogo,
TMJ!

 

Raphael Haussman. É professor, Coach, consultor e apaixonado por educação e desenvolvimento humano e, ainda, pai da Raphaela e do Theo.

Nosso dicionário:

*América Latina – De uma forma geral, a expressão é usada para se referir a todos os países do continente americano com exceção de EUA e Canadá. 20 países fazem parte da América Latina, são eles: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai e Venezuela.

*River e Fla – O termo está fazendo referência à partida de futebol que acontecerá entre o Flamengo e o River Plate, na qual ambos os clubes sul-americanos disputarão a final da Libertadores.

*Ópio – É uma substância de efeito analgésico, narcótico e hipnótico, muito usada no desenvolvimento e na produção de morfina e heroína. O uso do ópio conduz ao hábito, à dependência química e, a seguir, a uma decadência física e intelectual.

*Chile, Brasil, Argentina, Venezuela, Colômbia – Todos são países sul-americanos que compartilham traços históricos e sociais em comum, a exemplo disso, todos esses países apresentam alta miscigenação cultural e todos tiveram sua colonização baseada na exploração dos recursos naturais.

*Pão e Circo – A política do Pão e circo era o modo com o qual os líderes romanos lidavam com a população em geral, para mantê-la fiel à ordem estabelecida e conquistar o seu apoio. Atualmente, o termo é usado para se referir a programas governamentais que, por meio de políticas sociais, busquem desviar a atenção da população para determinados problemas enfrentados por uma nação.

*Futebol – Atualmente o esporte mais popular do mundo, as partidas são disputadas por duas equipes de 11 jogadores, em que é proibido (exceto aos goleiros) o uso dos braços e mãos, e cujo objetivo é fazer entrar uma bola no gol do adversário.

*Constituição Cidadã – Aprovada pela Assembleia Nacional Constituinte em 22 de setembro de 1988 e promulgada em 5 de outubro de 1988, a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 é a lei fundamental e suprema do Brasil. Ficou conhecida como “Constituição Cidadã”, por ter sido concebida no processo de redemocratização, iniciado com o encerramento da ditadura militar no Brasil.

*Utópico – Segundo o dicionário, ser utópico caracteriza algo como idealista, fantasioso ou quase impossível de ser realizado.


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