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E o Brasil entra na era das trevas

Matéria publicada em 10 de abril de 2015, 06:34 horas

 


Com medo da conta de energia brasileiro vive no escuro, nossos governos tiveram mais de duas décadas para se prepararem para a estiagem atual, não fizeram nada 

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Recurso: Lampião de querosene volta a ter utilidade (Foto: Divulgação)

Recurso: Lampião de querosene volta a ter utilidade (Foto: Divulgação)

A matéria foi exibida no Jornal Nacional, em horário nobre. Apavorada com o aumento na conta de luz a dona de casa passou a viver no escuro. Luz acesa só na sala. Para ir aos quartos, ela usa a luzinha do telefone celular. Se arriscando a tropeçar em alguma coisa no meio da escuridão. Seria cômico se não fosse trágico. Mas o Brasil de hoje está parecendo uma comédia de absurdos. Daquelas em que o público ri diante do insólito. E enquanto as casas ficam no escuro a indústria reduz a produção e o país se afunda cada vez mais na recessão.

 Obras faraônicas

O Brasil já gastou muito dinheiro para evitar essa situação em que vivemos hoje. A época do Regime Militar foi o tempo do “Brasil Grande” e um racionamento de energia era coisa impensável. O país precisava de energia para se tornar a grande potência com que sonhavam os generais presidentes. Para garantir que nunca ficaríamos no escuro os militares gastaram bilhões em obras faraônicas. Como a usina de Itaipu, que de tão grande ia fornecer energia barata não só para o Brasil, mas para os países do cone sul.

 Governo FHC

Depois teve o programa nuclear brasileiro, que ia espalhar centrais atômicas pelo litoral do nosso país tropical. Compraram uma usina nos Estados Unidos e duas na Alemanha. E até hoje estão tentando terminar a terceira usina. As outras duas ganharam o apelido de vagalumes. Vivem acendendo e apagando. Com a Nova República a coisa começou a ficar preta. No governo do FHC a moda era privatizar tudo. Incluindo as empresas de geração e distribuição de energia. E o resultado foram os apagões, que mergulharam o país nas trevas.

Ainda tenho os dois lampiões de querosene que meu pai comprou naquela época. A luz apagava durante duas, três horas e retornávamos aos tempos do Brasil Império. O jantar era a luz de velas, o que era romântico, ainda que péssimo para a economia do país. E ninguém poderia imaginar que iriamos viver uma situação ainda mais insólita. Aonde o alto preço da conta de energia ia levar as famílias a encostar eletrodomésticos, como os aparelhos de ar condicionado e a viver com a casa no escuro.

 Situação temporária?

O governo garante que a situação atual é apenas temporária. Um resultado da falta de chuvas. Como se esse governo que está aí tivesse moral e credibilidade para garantir alguma coisa. De minha parte fico feliz por ter guardado os lampiões e as velas da era Fernando Henrique. Eles serão úteis no país da Dilma. O fato é que a redução nas chuvas é uma realidade prevista desde a década de 1990. Em 1992 participei da cobertura da Rio Eco 92, a primeira grande conferência sobre o clima realizada ali no Rio Centro, no Rio de Janeiro. E os cientistas presentes já diziam que a água ia se tornar escassa e virar um bem precioso.

Nossos governos tiveram mais de duas décadas para se prepararem para a estiagem atual. Não fizeram nada. Como de costume preferiram empurrar o problema para o próximo mandato. Agora chegam à televisão com a maior cara de pau e pedem que o povo economize. E pague mais caro por um serviço essencial na vida moderna. Tiveram tempo de sobra para diversificar a matriz energética do nosso país, mas estavam muito ocupados se enriquecendo e se locupletando.

 Energia eólica

O Brasil tem uma costa enorme, onde venta o tempo pouco. Mas ainda temos poucas usinas eólicas. Usinas de energia solar então nem se fala. Nas regiões ensolaradas, como as praias do nordeste elas poderiam gerar uma boa parte da energia consumida. Quanto a energia nuclear é bom nem falar. Há trinta anos que estão tentando construir a Angra 3 e ainda não terminaram.

Diante disso é melhor a população aprender a viver no escuro. E se desapegar de todas essas engenhocas como computadores, que precisam de energia elétrica para funcionar. No país do futuro a luz, como a água, virou um recurso caro e escasso.

Jorge Luiz Calife/ jorge.calife@diariodovale.com.br


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3 comentários

  1. Avatar

    Bom texto. O Brasil realmente deveria explorar outras alternativas em geração de energia. A tão infamada energia nuclear tem aqui no país as melhores condições operacionais possíveis, pois não temos grandes cataclismos como terremotos/maremotos, furacões e tornados. O Sol e o vento também são subutilizados…

    O que mais dói é pedir economia para quem já gasta em média 5 vezes menos que um europeu ocidental e um norte-americano. Nosso consumo per capita é menor mesmo que o de vários países com desenvolvimento menor que o nosso. Dóis mais ainda que temos todas as condições para gerar muita energia, mas não o fazemos…

  2. Avatar

    A “presidanta” veio à público e fez a maior festa política quando anunciou a redução das tarifas de energia elétrica. Populismo demagógico em busca de sucesso eleitoral. Na ocasião, os especialistas já diziam que tal medida não se sustentaria e que a conta no fim seria repassada aos consumidores. Agora, essa mesma dona se esconde e manda o ministro da Fazenda vir a público anunciar as “maldades”, como os aumentos e mais aumentos. Com esses governantes estamos mal mesmo. E se forem dessa nossa esquerda burra e retrógrada a coisa fica ainda pior.

  3. Avatar

    O Calife só foi infeliz em relação às usinas nucleares. A usina que ganhou o apelido de vaga-lume é Angra I. Isso no começo do funcionamento. Hoje as usinas funcionam com toda confiabilidade e segurança. Existe muita desinformação por parte de pessoas que nunca nem pisaram numa usina nuclear!

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