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Em queda livre

Matéria publicada em 15 de fevereiro de 2019, 08:15 horas

 


Falei recentemente nas minhas duas últimas crônicas, e até mesmo em algumas anteriores, acerca do pouco-caso do Poder Público em relação à manutenção de áreas públicas das cidades, como pontes, viadutos, passarelas, praças e ainda boa parte do mobiliário urbano.
Corriqueiramente, as construções acontecem precedidas de inaugurações recheadas de pompa, com direito a placas, discursos e aplausos. O tempo passa, o governo muda e o esquecimento se instala de maneira quase que definitiva. A manutenção, que deveria ser periódica, ganha espaço de décadas, até que o inevitável acontece: a queda.
Exemplos, temos dezenas, se não centenas, espalhados pelos quatro cantos do país. A cena de descaso é comum por todos os lados; são pontes e viadutos com ferragens expostas, rachaduras, trincas e até árvores de grossos troncos crescendo por entre as fendas, uma prova inequívoca do abandono que começou no dia seguinte após a inauguração. Tudo isso resultado da falta de investimento e um “esquecimento” oriundo de muitos governantes, os quais acreditam que manutenção não chama atenção e, consequentemente, não dá voto.
O viaduto que cedeu na Marginal Pinheiros, inaugurado em 1970, é a prova viva do esquecimento do governo paulistano, e além dele existem mais 33 estruturas necessitando de urgente manutenção. No Rio de Janeiro grande parte dos viadutos e pontes precisa de cuidados em suas estruturas, segundo divulgou o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea-RJ). São pelo menos 20 pontos que necessitam de atenção imediata. A ciclovia Tim Maia, que liga o bairro do Leblon a São Conrado, mostrou recentemente que obras de qualidade duvidosa e de pouco-caso andam de mãos dadas.
A Secretaria Municipal de Urbanismo entregou em 2018 uma lista de obras à Comissão da Câmara de Vereadores do Rio mostrando a necessidade de resposta, objetivando dar agilidade ao serviço, mas, como sempre acontece, não existe prazo para dar início a essas obras. Segundos dados do CNT (Confederação Nacional de Transportes), existem, no Brasil, 1.735.621 km de malha rodoviária, sendo 3% (54.972 km) de pontes e viadutos.
A capital Brasília não foge à regra: pontes e viadutos também necessitam com urgência de cuidados. Esse descaso não é “mérito” apenas desses estados. Minas Gerais, Fortaleza, Bahia e Belém também engrossam o número de vias públicas que fazem parte do esquecimento dos seus governantes. Parece fácil perceber que o Brasil não tem um programa de recuperação e manutenção dessas obras, pois a deterioração dessas infraestruturas parece nos mostrar, a todo instante, os graves riscos para a população, algo que já ocorreu em várias localidades, provocando desastres fatais.
Segundo dados da ABCR (Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias), o Brasil teve menos de 1,5% do PIB investido em infraestrutura. Para atender às demandas do setor, o país precisaria investir anualmente entre 1,5% a 6% do PIB, valores em torno de R$ 300 bilhões. O eterno empurrar com a barriga só serve para adiar soluções, fazendo aumentar ainda mais os gastos futuros com esses empreendimentos. O país não pode e não deve adiar a manutenção dessas obras, sob o risco de graves acidentes em um futuro muito próximo.
Outros dados revelam que em trechos de rodovias concedidas, 1,9% da extensão de pontes ou viadutos, não há acostamento ou defensas. Esses dispositivos estão completos em 51,0% mas 47,1% estão sem um dos dispositivos. Já nas rodovias públicas, em apenas 17,3% há presença de pontes ou viadutos com acostamento e defensas completas. Em 69,9%, um dos dispositivos de proteção está ausente, e em 12,8% não há qualquer um dos dispositivos. Ou seja, estamos à mercê da sorte, acreditando que algo maior nos protegerá, porque nossos impostos já não são capazes de alimentar a máquina que, por obrigação, deveria cuidar das construções e manutenções, e com isso somos obrigados a contar com as bênçãos de alguma entidade mais eficiente e menos incapaz.
Como sempre digo, o Brasil é o país do dia seguinte. Basta ver a soma de tragédias vividas por nós nesses dois primeiros meses do ano. E ainda teremos dez meses para aguardar e talvez amargar novas surpresas.


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