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Espelho, espelho meu

Matéria publicada em 5 de outubro de 2019, 06:00 horas

 


Cultura do narcisismo impede o equilíbrio emocional do indivíduo e a construção do senso de pertencimento

Em tempos de selfies, o narcisismo se torna cada vez mais recorrente – todo mundo conhece um narciso, que ama o próprio reflexo. E esse reflexo não precisa ser literal, pode se referir a outros tipos de amor próprio excessivo que vão além do físico.
Como uma pessoa se torna tão autoconfiante e apaixonada pela própria imagem a ponto de desprezar os outros? Pesquisadores americanos foram buscar essas respostas no comportamento das crianças. Foram analisadas 565 crianças, de 7 a 11 anos de idade, e seus pais – 415 mães e 290 pais.
O resultado foi claro e objetivo: crianças superestimadas pelos pais durante este estágio de desenvolvimento são mais propensas ao narcisismo. Segundo o estudo, “superestimar” é fazer a criança achar que é melhor que seus colegas. “Quando as crianças são vistas por seus pais como sendo mais especiais do que outras crianças, eles podem internalizar a visão de que eles são indivíduos superiores, uma visão que está no cerne do narcisismo”, diz o estudo.
Mas a teoria da psicanálise sugere que narcisistas são fruto de um relacionamento frio com os pais – o que poderia invalidar as ideias dos autores da pesquisa, Brad Bushman e Eddie Brummelman. Tendo isso em mente, Bushman e Brummelman se apoiaram na Teoria da Aprendizagem Social – a ideia que todo aprendizado provém de comportamentos já moldados. Então, as crianças, na verdade, aprendem a ser narcisas com os pais. É isso: pais narcisistas geram filhos narcisistas.
Historicamente, o Renascimento Científico e Cultural, durante o século XVI, desenvolveu uma visão antropocêntrica do mundo, na qual o homem assumiu central da vida, em detrimento do Teocentrismo vigente nas sociedades antigas. A valorização do homem e das tecnologias voltadas para o seu aprimoramento conduziu à construção, na vida moderna, de uma cultura narcisista, visto que o indivíduo tornou-se “escravo” de sua própria imagem. Nesse viés, nota-se que o narcisismo se apresenta de modo negativo para a sociedade, uma vez que compromete o desenvolvimento psíquico do indivíduo e de relações interpessoais sólidas.
Em um primeiro momento, vale ressaltar que a cultura do narcisismo impede o equilíbrio emocional do indivíduo e a construção do senso de pertencimento, já que este olha apenas para si mesmo e não desenvolve a empatia. Segundo Maslow, psicólogo humanista do século XX, a noção de pertencimento na sociedade se torna importante para o pleno desenvolvimento do indivíduo. Dessa forma, verifica-se que a exposição de uma vida aparentemente perfeita e idealizada, principalmente, nas redes sociais, reforça o culto ao narcisismo e intensifica os efeitos negativos na vida do indivíduo.
Isso dito, percebe-se que a falta de empatia inviabiliza o convívio social e dificulta a estruturação de relações sociais menos instáveis e frágeis na sociedade atual. Sob essa perspectiva, o filósofo contemporâneo Jean Paul Sartre, em sua teoria existencialista, afirma que a existência precede a essência, visto que esta de evidencia como uma construção do indivíduo a parte da sua liberdade de escolha. Desse modo, conclui-se que a cultura do narcisismo se configura como uma construção social que fortalece padrões estéticos e comportamentais na modernidade.
Por fim, e se cada um começasse a postar mais os seus interesses, informações culturais, a compartilhar projetos sociais importantes, e não somente o seu próprio retrato, mas sim, o que está por trás da “selfie”, quem realmente é, e como pode ajudar a sociedade em que vive, que com certeza, não será através da postagem de milhares de fotos de si mesmo. A necessidade de construirmos uma sociedade menos individualista e egoísta, que cada vez mais nos tornamos, e sim que as redes sociais possam ter, principalmente, uma função de contribuição à sociedade.
Será que dessa maneira não construiríamos uma sociedade capaz de enfatizar a importância da empatia, da solidariedade e da noção de coletividade para o pleno convívio social desde a primeira infância. Será que, dessa forma, não teríamos mais janelas e menos espelhos?
Boa Leitura,
TMJ!

Raphael Haussman. É professor, Coach, consultor e apaixonado por educação e desenvolvimento humano e, ainda, pai da Raphaela e do Theo.

Nosso dicionário:
* Selfies – A palavra selfie está relacionada ao ato de tirar fotos de si mesmo, ou seja, corresponde ao termo autorretrato.
* Narcisismo – Narcisismo é um conceito da psicanálise que define o indivíduo que admira exageradamente a sua própria imagem e nutre uma paixão excessiva por si mesmo.
* Narciso – Narciso é um personagem da mitologia grega, filho do deus do rio Cefiso e da ninfa Liríope. Ele representa um forte símbolo da vaidade, sendo um dos personagens mitológicos mais citados nas áreas da psicologia, filosofia, letras de música, artes plásticas e literatura.
* Psicanálise – Psicanálise é um ramo clínico teórico que se ocupa em explicar o funcionamento da mente humana, ajudando a tratar distúrbios mentais e neuroses. O objeto de estudo da psicanálise concentra-se na relação entre os desejos inconscientes e os comportamentos e sentimentos vividos pelas pessoas.
* Brad Bushman – Brad J. Bushman (4 de maio de 1960, Salt Lake City, Utah, EUA) é um professor de Comunicação de Massa e psicólogo da Ohio State University. Ele publicou extensivamente sobre as causas e consequências da agressão humana
* Eddie Brummelman – Eddie Brummelman é um pesquisador de pós-doutorado na Universidade de Amsterdã, na Holanda. Seus estudos focam na “socialization of the self” e como os processos sociais moldam a visão própria das crianças.
* Aprendizagem social – Desenvolvida por Albert Bandura, psicólogo canadense e professor da Universidade de Stanford, a teoria da aprendizagem social destaca o aprendizado por meio da observação. Bandura aponta que o estado mental interno daquele que está aprendendo desempenha um papel fundamental no processo absorção de conhecimento. Assim, a aprendizagem social acontece a partir da interação entre a mente do aprendiz e o ambiente ao seu redor.
* Renascimento científico e cultural – O Renascimento Científico deve ser entendido dentro do contexto do Renascimento Cultural, ocorrido na Europa entre os séculos XV e XVI. Foi um período marcado por grandes avanços nas ciências, possibilitados pelos estudos e experimentos de grandes cientistas.
* Senso de pertencimento – O senso de pertencimento está relacionado ao ato de pertencer como a sensação de ser um “humano entre seres humanos”, o que nos faz sentir uma conexão com outras pessoas.
* Empatia – Segundo o dicionário, capacidade de se identificar com outra pessoa, de sentir o que ela sente, de querer o que ela quer, de apreender do modo como ela apreende etc.
* Maslow – Abraham Harold Maslow (1 de abril de 1908, Nova Iorque — 8 de junho de 1970, Califórnia) foi um psicólogo americano famoso em meados do século XX, o qual liderou o movimento da psicologia humanista. Ele argumentou que as necessidades de crescimento e felicidade individual não podem ser supridas sem primeiro satisfazermos a necessidade mais básica da conexão humana.
* Jean Paul Sartre – Jean-Paul Charles Aymard Sartre (Paris, 21 de junho de 1905 — Paris, 15 de abril de 1980) foi um filósofo e crítico francês. É considerado um dos maiores pensadores do século XX e representantes da filosofia existencialista, ao lado dos filósofos Albert Camus e Simone de Beauvoir.
* Solidariedade – Solidariedade é o substantivo feminino que indica a qualidade de solidário e um sentimento de identificação em relação ao sofrimento dos outros. A palavra solidariedade tem origem no francês solidarité que também pode remeter para uma responsabilidade recíproca. Em muitos casos, a solidariedade não significa apenas reconhecer a situação delicada de uma pessoa ou grupo social, mas também consiste no ato de ajudar essas pessoas desamparadas.
* Coletividade – Segundo o dicionário, coletividade diz respeito a um grupo de indivíduos que partilham dos mesmos interesses, costumes e hábitos.


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