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Eu te disse! Eu te disse!

Matéria publicada em 24 de novembro de 2019, 06:00 horas

 


Tribunal Regional Federal considera, como o colunista afirmou, que escória não é tóxica nem tem risco de cair no Rio Paraíba do Sul

Um desenho animado de décadas atrás, “Carangos e motocas” tinha entre seus personagens uma lambreta falante, que sempre avisava do que estava para acontecer. Como ela era o menor entre os veículos da trama, os outros não lhe davam atenção. Aí, quando todo mundo estava encrencado, ela começava a repetir: “Eu te disse! Eu te disse!”, o que não resolvia nada, mas satisfazia o ego dela. Pois bem: a todos os que apostavam que o monte de escória acumulado pela CSN no bairro Brasilândia era uma bomba-relógio que detonaria um apocalipse ambiental em Volta Redonda, aí vai a resposta deste colunista: “Eu te disse! Eu te disse!”.
Os supostos ativistas ambientais e os políticos que tentam ganhar palco no evento ficaram de bico caladinho quando o desembargador Messod Azulay Neto, do Tribunal Regional Federal da Segunda Região, reconheceu que não há certeza de que a escória gere risco de dano ambiental: “…é de se notar que o risco de dano ambiental que ensejou o deferimento da liminar já era duvidoso quando do primeiro deferimento, vez que, conforme parecer jurídico trazido pela Harsco, há pareceres ambientais que afirmam não haver risco considerável, eis que : i) a atividade é licenciada (embora o ato esteja em fase de renovação); o material não é poluente; iii) as pilhas são estáveis; iv) o risco de contaminação atmosférica ou fluvial é baixíssimo; v) o pátio está instalado em local apropriado, segundo o plano diretor do Município de Volta Redonda”, disse ele em decisão que suspendeu determinação de multa à CSN e à Harsco , aplicada pela primeira instância (o “primeiro deferimento” a que o desembargador se refere).
Ao contrário dos “ouvi falar” e dos “vi no YouTube” dos supostos ativistas, o colunista foi buscar a definição de escória no paper acadêmico intitulado “Caracterização da escória de alto forno proveniente de resíduos industriais visando seu uso na construção civil”, escrito por Maurílio Gomes Pimentel, Engenheiro Civil e Mestrando da UFPA, Adriano Luiz Roma Vasconcelos, Engenheiro Civil e mestre pela UFPA, Marcelo de Souza Picanço, Doutor em Geologia e Geoquímica, José Victor Brasil de Souza, Graduando em Engenharia Civil pela UFPA e Alcebíades Negrão Macêdo, Doutor em Engenharia de Estruturas, também pela UFPA.
“A escória de alto forno (EAF) é um produto gerado na fabricação do ferro gusa, sua formação ocorre pela combinação química das impurezas do minério de ferro com calcário e dolomita e as cinzas de carvão mineral, durante a produção do ferro gusa a EAF flutua no topo do ferro fundido, localizado na parte inferior do forno, dessa forma, protegendo o mesmo de se reoxidar por meio do jato de ar quente que funde através do forno, durante o reaproveitamento do forno, o ferro fundido e a escória são separados, enquanto o ferro é fluído em moldes de ferro gusa para fabricação do aço, a escória é direcionada em grandes recipientes, em seguida despejada dos mesmos”, afirma o trabalho.
Então, basicamente a escória é o que sobra quando se produz o gusa, que depois vai virar aço. Agora vamos ver a composição desse produto: “Os resultados mostraram que a EAF possui uma massa específica semelhante ao dos cimentos devido em especial a sua composição química e mineralógica. Da mesma forma a EAF apresentou predominância de óxidos de silício (SiO2), cálcio (CaO) e alumínio (Al2O3), bem como em sua mineralogia predominância de quartzo, calcita e hematita. Além disso a EAF apresenta-se como um material inerte, podendo ser utilizado dessa forma, como material suplementar ao agregado natural para a produção de concretos e argamassas”.
Em resumo, a escória não representa riscos à saúde por ser, como afirmam os cientistas, um material inerte.

Tribunal Regional Federal reconhece que escória é inerte e não apresenta risco de cair no Rio Paraíba do Sul (Foto: Paulo Dimas)

Sem problemas dentro da água

“E se a escória cair dentro do Rio Paraíba do Sul?”, perguntam alguns dos paranoicos de plantão. Eles enxergam um cenário apocalíptico, com a captação de água sendo paralisada a jusante de Volta Redonda, por causa do risco de contaminação. Para responder a essa pergunta, vamos recorrer ao trabalho acadêmico “Avaliação ambiental de concreto com escória de alto-forno ativada quimicamente após um ano de exposição em ambiente marinho”, de Maria Antonina Magalhães Coelho, Maristela Gomes da Silva, Fernando Lodêllo dos S. Souza, Robson Sarmento, Eliana Zandonade , Tsutomu Morimoto e José Luiz Helmer.
De acordo com o próprio trabalho, “O objetivo desta pesquisa foi avaliar o impacto ambiental, após um ano no meio marinho, de concreto de escória de alto-forno ativada quimicamente. Foram produzidos dois concretos, o primeiro como referência, utilizou 50% de escória de alto-forno e 50% de cimento CP III e o segundo utilizou escória de alto-forno ativada quimicamente com 4% de Na2O do silicato de sódio + 5% de cal. Para a avaliação do impacto ambiental foram confeccionados blocos de uma estrutura hidráulica de contenção de ondas e colocados em exposição em ambiente marinho. Ao mesmo tempo, blocos ficaram imersos em tanques com água do mar, com simulação do movimento das marés. Foram avaliadas a qualidade da água através do monitoramento do pH, durante 1 ano, e por análise química da água. Foram realizados, após este tempo, estudos de classificação e de contagem de número de organismos marinhos encontrados na superfície dos blocos que estiveram no mar. Este estudo e a comprovação da qualidade da água, indicam que o material utilizado não prejudica o meio ambiente”.
Como queríamos demonstrar. Mesmo que toda aquela escória caísse, por algum motivo, dentro do rio, não haveria risco à qualidade da água.

 


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10 comentários

  1. Avatar

    O DV deveria ter vergonha de manter esse artigo, o digníssimo autor não entende nada de escória de aciaria, que é o material estocado na Hasco, fazendo referência a artigos de escória de auto forno. Mostrando completo desconhecimento do assunto. Isso é uma vergonha!

    • Paulo Moreira

      Apesar de algumas diferenças, o resultado básico é o mesmo. A escória de aciaria também é inerte. Recomendo que você leia o trabalho “Escória de Aciaria: Caminhos para uma Gestão
      Sustentável”, de Suzy Magaly Alves Cabral de Freitas para UEMG. Entre outras coisas, você encontrará a composição da escória de aciaria da CSN.

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    Resumindo: parem de encher o saco!

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    Caro colunista, só tem um detalhe, a escória que o senhor faz referência em seu texto, a qual o senhor buscou informação, é escória de alto forno, que a CSN já utiliza na fábrica de cimento e nunca foi enviada para a Hasco. As pilhas de escória na Hasco são de escória de aciaria, que tem a composição completamente diferente da EAF, por isso não é usada na fábrica de cimento.
    Quanto a uma pessoa do judiciário dizer que é tóxica ou não, com os exemplos que a mais alta corte tem dado ao Brasil, a credibilidade dos senhores juízes e desembargadores já foram melhores.

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    A escória acumulada no pátio da Harsco é da aciaria. A escória do trecho transcrito de trabalho acadêmico é a escória de alto-forno. São diferentes. Realmente a escória do alto-forno serve pra fazer cimento, já a de aciaria não. Se desse, era só moer e empacotar, o que não foi feito. Acumula-se em pilhas ali porque é um material de difícil aproveitamento.

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    A ambição sem limites e a ignorância são combustíveis para alimentar processos deste tipo. Conheço uma moradora do Volta Grande que achava que iria resolver sua vida financeira com a indenização a ser paga pela CSN.

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    Nesse caso uns exageram para mais e outros para menos, ou seja, nem tanto, nem tão pouco.
    Até onde sei a escória de alto forno é aproveitada pelas fábricas de cimento e, portanto, não sobraria esse tanto acumulado na Volta Grande. Na verdade essa escória vem da Aciaria. Resta saber se têm a mesma composição. Visualmente são bem diferentes
    Basta alguns diretores e gerentes da CSN ficarem junto a esse monte de escória nas horas de folga, inclusive sábados, domingos e feriados e ficará provado que aquilo não causa problemas.

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    O Inea disse nao ter recursos pra fazer análise do solo das casas e a CSN pagou para que uma empresa alemã o fizesse. Apenas dois moradores aceitamos coletar amostras, e o resultado: zero contaminação na minha casa. Ora, pq o Inea não estimulou a feitura das analises e pegou o laudo por amostragem pra se fazer contra-prova, já q nao tinha recursos pra pesquisa ampla? Por que os ‘ativistas’ não pensaram nisso? Porquê a guerra é de narrativas, não de dados e fatos reais…

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    Pois é camarada…mas hoje o povo prefere narrativas do que dados concretos…o excesso de informações, paradoxalmente, se transformou no viés indutor da ignorância…
    Sou proprietário de imóvel no bairro, rua 180, e sei bem como os “corvos” exploram o tema nos anos eleitorais.

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      Alexsander concordo com vc, mas temos de admitir que a ambição desenfreada de moradores que acham que ficarão ricos com a indenização da CSN é terra fértil para estes picaretas.

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