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Falando o português claro

Matéria publicada em 12 de abril de 2019, 07:42 horas

 


Em 1978, Elis Regina cantou, em “Querelas do Brasil”, que o Brazil não conhecia o Brasil, e parece que ela estava muito certa, haja vista que nossa língua, nos dias de hoje, vive coroada de “dialetos” sendo falado por ai a torto e a direito, como: “Tá ligado”, “Demorou”, “Deu ruim”, “Tipo assim”, “Essas paradas”, “Só que não”, “É nóis”, “É massa”, “Irado” e por ai vai. As indefectíveis gírias tomaram conta da fala, sobretudo dos jovens, que pouco leem e acabam por não conseguir sustentar um diálogo compreensível.
Muitas das gírias pronunciadas no dia a dia são oriundas de músicas e bordões que marcaram personagens em novelas e programas, sobretudo os humorísticos, e o povo passa a repeti-las por um longo período, de maneira quase incessante, preenchendo as conversas com essas marcações sem consistência.
Muitas vezes os bordões televisivos são tão fortes que não desaparecem facilmente do nosso convívio, como “Cada mergulho é um flash”, palavras repetidas à exaustão pela personagem de Mara Manzan em uma novela escrita por Glória Perez; ou “Tôcerto ou tô errado?”, fala do personagem Sinhozinho Malta, interpretado por Lima Duarte, na novela “Roque Santeiro”, de autoria de Dias Gomes; ou ainda “É Mara!”, fala repetida até hoje e que nasceu da boca de Ítalo Rossi, na série humorística “Toma lá, dá cá”.
Como é de conhecimento de muitos, a língua portuguesa foi trazida para esta nossa terra no século XVI em virtude do “descobrimento”. O português era praticamente imposto como língua oficial às línguas nativas que havia por aqui. O contato no dia a dia entre os indígenas, os africanos e os inúmeros imigrantes que vieram de várias regiões da Europa contribuiu sobremaneira para o chamado “multilinguismo”.
E a nossa língua, de 1500 para cá, sofreu inúmeras mudanças, e por a fala acontecer de maneira muito mais espontânea do que a escrita, muitos têm uma enorme dificuldade na hora de escrever. Como diz o ditado: “As palavras o vento leva.”, As pessoas falam sem a menor preocupação com o que estão dizendo, sem dar à mínima se o ouvinte está entendendo, o que não acontece com a escrita. Ela, como é algo que tem permanência, as pessoas acabam por ter um maior cuidado ao escrever, já que a língua oral é extremamente dinâmica, incrivelmente criativa e super ágil, e de uma permanência mínima. A criatividade é algo que não para de acontecer, criando tantos conflitos e termos que muitas vezes nos deixam de cabelo em pé.
Como as reformas não param de acontecer, o Brasil já teve quatro mudanças significativas. A primeira Reforma Orográfica aconteceu em 1911; depois, em 1943, Formulário Ortográfico; a seguir, uma nova Reforma Ortográfica, em 1971, e por fim, em 1990, um novo Acordo Ortográfico.
O Acordo Ortográfico de 1990 deu muita dor de cabeça, já que muitos foram contrários a sua realização. Para se ter uma ideia, o Brasil assinou o Acordo em 1990, mas somente em 2009 o colocou em prática. Na verdade, o Brasil não estava muito disposto a se assemelhar linguisticamente com os nossos ex-colonizadores, e a coisa emperrou durante 19 anos. O principal argumento que provocou a última reforma foi a “necessidade” de diminuir as diferenças linguísticas em todos os países lusófonos, como Portugal, Brasil, Moçambique, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.
O objetivo era o de aumentar o prestígio e, consequentemente, a visibilidade da nossa língua, melhorando, assim, a comunicação entre as nações lusófonas. E todo o processo teve início guiado pela Academia das Ciências de Lisboa. Foi estipulado um período de transição para a efetivação do Acordo: 1º de janeiro de 2009 a 31 de dezembro de 2015, e hoje está devidamente estabelecido na nossa escrita.
As principais mudanças na língua aconteceram na acentuação e no hífen, e foi banido de vez o trema. Os ditongos abertos como “ei”, “oi” e “eu” não são mais acentuados em paroxítonas; assim palavras como “ideia”, “plateia”, “jiboia”, entre outras, passaram a ser escritas sem acento. “Pelo”, “para” – do verbo parar -, “polo”, “pera”, não mais se escrevem com acento. O hiato “oo” – como voo e enjoo -, não são mais acentuados. No caso de o segundo elemento começar por s ou r, as duas consoantes devem se duplicadas, como, por exemplo, “contrarregra”. Quando o primeiro elemento termina em vogal e o segundo elemento começa com uma vogal diferente, também não se usará o hífen, como em “autoestrada”. Como já citado, o trema deu adeus a nossa língua, ficando apenas em nomes próprios, como Müller ou Citröen. E por fim as letras K, W e Y entraram de vez no alfabeto, local onde, na verdade, sempre estiveram.
Existe um ditado que diz, com muita propriedade: “Não há má palavra, se a puserem corretamente no lugar.” Então, para um bom entendedor, meia-palavra basta.


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Um comentário

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    A forma do Português escrita no Brasil ficou uma droga (para não dizer coisa pior) com esse AO90, que deve/ia desaparecer dos textos na Net, nos livros escolares e de leitura.

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