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Federer e a longevidade no esporte

Matéria publicada em 23 de julho de 2019, 15:31 horas

 


Faz uma semana, na grama sagrada de Londres, aconteceu a final do mais tradicional torneio de tênis do mundo, Winbledon. E quem ganhou foi Djokovic, de 32 anos de idade, o número 1 do tênis na atualidade e considerado um dos melhores de todos os tempos.

Mas o que mais chamou a atenção não foi quem ganhou a final, mas quem QUASE ganhou a final. Porque do outro lado da rede estava Roger Federer, considerado por muitos “o” maior tenista de todos os tempos.

Foi uma final épica, com quase 5 horas de duração e 421 pontos disputados. E apesar de ter perdido a partida, Federer fez 218 pontos, contra 203 do adversário.

Mas tem outro número que chamou mais a atenção do mundo, é que o jogador estava a poucos dias de completar 38 anos de idade. 38 anos de idade e ainda vencendo no competitivo circuito do tênis. Faz 15 anos que ele se mantém entre os três melhores do mundo, o que é uma marca notável.

O curioso é que desde que ele completou 30 anos que em toda entrevista ele tem que falar sobre quando será sua aposentadoria. E já faz quase uma década que ele passou dos 30 e ele continua ganhando torneios e varrendo da quadra jogadores muito mais jovens do que ele.

Aliás, justiça seja feita, no grupo de elite do tênis, uma grande parte tem acima de 30 anos, como o número 1 Djokovic com 32. Rafael Nadal, outro tenista sensacional, tem 33 anos, e continua ganhando torneios pelo mundo. É o atual número 2 do mundo.

As pessoas se espantam com a longevidade deles no esporte, porque existe uma narrativa cultural que associa o passar da idade apenas com decadência, sobretudo decadência física, e fica difícil compreender como esses atletas acima dos 30, ou próximo dos 40, como é o caso do Federer, conseguem se manter no topo e ganhar de atletas mais jovens.

Qual o segredo então?

Bom, em primeiro lugar é provável que Federer, Nadal e Djokovic sejam realmente diferenciados, frutos de uma safra espetacular de tenistas. Mas não é só isso.

O tênis é um esporte onde a parte atlética tem óbvia importância. Você precisa correr, ter velocidade e energia física para sacar e rebater bolas. Segundo alguns estudos, a maior parte dos atletas atinge o ápice físico ao redor dos 26 anos de idade, o que seria uma desvantagem para os jogadores acima dos 30 anos.

Mas como é então que Roger Federer, com quase 38 anos de idade, aguentou uma maratona de cinco horas de jogo? Bom, em primeiro lugar, esses atletas tem uma preparação invejável, e em segundo lugar, os estudos também mostram que, se o auge da força, velocidade, explosão e processamento do oxigênio se dá por volta dos 26 anos, para atividades de resistência os atletas entre 30 e 40 anos se saem muito bem. Observe a quantidade de triatletas e maratonistas que existem acima dos 30 anos.

Mas o tênis é também a soma de dois outros atributos importantíssimos: estratégia e controle emocional.

Tênis é um esporte estratégico, você precisa utilizar da maneira mais inteligente a geometria da quadra, os ângulos, construir pontos e deixar o adversário desconfortável ou encurralado. É como se a quadra fosse um enorme tabuleiro de xadrez. E os cientistas dizem que a maioria dos jogadores de xadrez atinge seu ápice logo após os 30 anos de idade.

E por fim, mas não menos importante, tênis é um jogo mental, profundamente emocional. Antes de derrotar o adversário que está do outro lado da rede você precisa dominar o mais terrível inimigo que existe, que é você mesmo, sua mente, seus pensamentos, a ansiedade, o medo de errar e a frustração quando as coisas não saem como você planejou. Não é a toa que a gente vê tanto jogador com acesso de fúria durante partidas de tênis. E normalmente os jovens costumam ter um menor controle emocional. A gente obtém uma maior maturidade emocional à medida que os anos passam.

Portanto, se tenistas muito jovens levam alguma vantagem no vigor físico, é possível que eles levem alguma desvantagem no domínio estratégico do jogo e no controle emocional.

E isso desmonta todo o argumento por trás do preconceito de que o passar dos anos traz apenas declínio. Ele até traz sim algum declínio físico, mas simultaneamente ele traz ganhos de performance em outras áreas, como na inteligência emocional, na capacidade de interpretar suas emoções e as emoções alheias, na análise de cenários e muito mais.

Agora, se até o preconceito de idade contra atletas já é discutível, você imagina qual o sentido do preconceito de idade no mercado de trabalho, quando atributos como inteligência emocional, liderança e capacidade de interpretar cenários são ainda mais importantes.

Eu finalizo esse texto com a frase que o Federer usou logo após perder a final do torneio. Mesmo frustrado por ter perdido um jogo que estava próximo de ganhar, ele disse: “espero que meu exemplo inspire outras pessoas e que se perceba que ninguém está acabado porque tem 37 anos”.

Então é isso: se mexa, porque quem pratica esportes vive mais e melhor.

E vida longa ao Rei do Tênis.


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