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Feijão x Livro

Matéria publicada em 28 de abril de 2017, 13:45 horas

 


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Não é de hoje que o escambo é utilizado pelas pessoas mundo afora. Por aqui, essa prática começou nos primórdios quando da colonização portuguesa, uma vez que os índios brasileiros não conheciam qualquer forma de moeda.

Mas na verdade o que me chama atenção e muita tristeza, não é o escambo que é a troca de uma mercadoria por outra, mas o pedir desbragado de muitas pessoas. Haja vista que no Brasil cuja dimensão é de um pouco mais de 8.500.000 km² e com uma população que só faz crescer, é algo de se assustar, pois os inúmeros bolsões de pobreza e em muitos casos de patente miséria, ganha espaço quase que de maneira infinda pelos quatro cantos dessa terra.

Não foram poucas as vezes que me vi abordado em situações de pedintes em super mercados, padarias, lojas, sinais de trânsito e por aí afora, onde se pedia desde a compra de uma lata de leite, um quilo de arroz ou feijão, pão, café, roupa ou uma moedinha qualquer. Essas necessidades que nos assaltam no dia a dia, mostra que estamos muito longe da igualdade, anos-luz dos direitos que deveria enxergar os menos favorecidos.

Falando com mais propriedade a partir da área literária em que atuo há mais de três décadas, percebo isso com perfeita nitidez, nas feiras e bienais de livro que participo nos principais Estados brasileiros. Vejo centenas, milhares de visitantes caminhando pelos corredores: crianças, jovens e adultos carregando uma mínima soma de livros ou na maioria das vezes nenhum. Se não tem muitas vezes uma das refeições diárias ou mesmo nenhuma delas, como estas pessoas poderão ter condições de comprar livros. Na verdade se elas chegaram até ali, para mim já é um milagre.

Costumo dizer baseado nas últimas bienais que participei no Rio, São Paulo e Bahia que ao longo dos infindos dias de evento, deparo-me com verdadeiros catadores de papéis; pessoas que já na entrada do pavilhão de posse de sacolas dadas como cortesia por editoras ou patrocinadores do evento, enchem as mesmas de marcadores de livros, folhetos promocionais e cortesias de toda a ordem. Livro mesmo muito pouco e muitas vezes comprados nas inúmeras promoções: um livro por R$ 3 e dois por R$ 5. Encalhes que precisam ir para a rua antes que estraguem.

Nada contra esta forma de venda, afinal, é melhor sair com dois livros “antigos” debaixo do braço, o que nesse caso não consigna ser algo ruim, o que seria para muitos produtos que têm data de validade, do que com dezenas de marcadores de página e nenhum livro a ser marcado.

Preço

No Brasil o preço do livro é caro e sua produção idem. As porcentagens cobradas pelas livrarias, na maioria das vezes, superam os 40% do seu preço. E no final nessa cadeia é pegar ou largar, assim o autor acaba ficando com o bagaço da laranja, 10% do preço de capa, muitas vezes do valor líquido.

Como escritor e editor conheço os dois lados da moeda e muitas vezes me vejo preso nessa teia, lutando como autor e comungando desse pseudo cartel que, ao meu ver, não ajuda a azeitar a máquina, não dá ao leitor a real possibilidade de compra de livros recém lançados, mas tão somente os que ficam nas bancas das promoções, obras que estão no mercado já faz alguns anos.

As feiras e bienais transbordam de bancas de promoções e dos livros made in China, que nos chegam do outro lado do mundo a preço de banana ou até menos.

É lamentável ver que a per capita de livros no Brasil por leitor não passa de míseros três livros lidos por ano. Em uma pesquisa feita em 2015 com resultados divulgados em 2016, descobriu-se que 30% dos entrevistados nunca havia comprado um livro. No entanto o que chama a atenção é que cerca de metade dos estudantes e leitores não são compradores de livros. Pouco mais de 50% dos entrevistados indicaram que leram através de empréstimo – com parentes, conhecidos ou em bibliotecas – como principal meio de acesso ao livro, perdendo inclusive para a compra em lojas físicas. E 23% declararam que a principal forma de acesso é quando são presenteados. E não é todo o dia que alguém costuma dar um livro de presente.

Diante dessa situação que já é catastrófica porque não lendo livros, jornais ou revistas seja através de meios físicos ou virtuais, o universo torna-se ínfimo, o conhecimento sobre o mundo e seus acontecimentos praticamente inexiste. Os livros de poesias, romances, crônicas, ficção são imprescindíveis para o crescimento intelectual de cada um de nós.

Triste ainda é constatar que os estudantes brasileiros leem exagerando 7,2 livros por ano, onde 5,5 deles são didáticos ou indicados pela escola. Apenas 1,7 livros são lidos por vontade e escolha própria.

A pesquisa mostrou que o brasileiro dedica, em média, apenas cinco horas por semana para a leitura de livros. Ao que parece, a preferência nacional é mesmo ver televisão (18 horas) – neste quesito nos classificamos na oitava posição – e ouvir rádio (17 horas) semanais.

Internet

Também surpreende o apetite do brasileiro para a internet: por aqui se gasta em média 28 horas semanais navegando com fins na maioria das vezes não profissionais, o que nos coloca na nona posição do ranking. Venezuelanos e argentinos são os melhores classificados na América do Sul.

Entre os trinta países pesquisados, destacam-se na América do Sul a Venezuela (14ª) no ranking e a Argentina (18ª), com 6 horas e vinte e quatro minutos e 5 horas e cinquenta minutos de leitura semanal, respectivamente. Mas quem ganha esta feliz disputa de maior leitor do mundo é a Índia, que ocupa essa distinção desde 2005. Os indianos dedicam, em média, 10 horas e 42 minutos semanais para ler. Os seguintes três postos também são ocupados por países da Ásia: Tailândia, China e Filipinas. Já o quinto é o Egito, depois vem a República Tcheca, seguida da Rússia e da Suécia, que se encontra empatada com a França.

Assim, quando me deparo com alguém em um dos muitos eventos que costumo participar, sem delongas me pedindo um livro de presente, sem se importar com a tal cadeia produtiva, o trabalho e os custos que tornaram aqueles produtos uma realidade, penso uma vez apenas e se posso não me furto a presentear esta pessoa com algum exemplar por mim produzido.

Muito me orgulho de em 2016 ter promovido na cidade de Barra Mansa com apoio de importantes entidades, o projeto Livro Livre, onde presentei mais de cinco mil pessoas pelas ruas de vários bairros. Foram livros dos mais variados gêneros, dados a leitores de todas as idades. Sei que meu projeto não era algo inédito e nem tinha a preocupação que assim fosse, nesse caso quanto mais copiado melhor. Importante é que ele se disseminasse pelo país inteiro, de ponta a ponta, ajudando a tornar a leitura algo cada vez maior e melhor.

Precisamos nos alimentar de feijão e livros. Um vai suprir as necessidades do corpo, já o outro, a do espírito.

 

ARTUR RODRIGUES | artur.rodrigues@diariodovale.com.br

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