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Fritz Lang e o profético ‘A Mulher na Lua’

Matéria publicada em 21 de julho de 2017, 07:00 horas

 


Filme proibido pelos nazistas ressurge em sua forma original; durante décadas os amantes do cinema só conheceram uma versão reduzida

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Fritz Lang foi um daqueles gênios que inventaram o cinema moderno no início do século passado. A geração atual só conhece o trabalho de Lang através daquele vídeo da música “Radio Gaga” do Queen, que usou trechos do épico “Metrópolis”, que Lang filmou em 1927, ainda no tempo do cinema mudo e em preto e branco. É uma história envolvendo androides e uma rebelião em uma cidade do futuro que foi a precursora do moderno “Blade Runner”. Mas a obra mais profética de Lang, a aventura espacial de “A Mulher na Lua”, foi considerada perdida durante décadas até ser resgatada e restaurada em 2003.

Sabem aquela contagem regressiva que antecede o lançamento de todo foguete moderno? 5,4,3… Não foi a Nasa que inventou, foi Fritz Lang que criou esse recurso para aumentar o suspense em seu filme, rodado nos estúdios da UFA, em Berlim. No ano de 1928. Em uma época em que não existiam nem aviões a jato, o cineasta alemão queria mostrar uma viagem a Lua com o maior realismo possível. Para isso ele contratou a consultoria do cientista Herman Oberth, que era um dos maiores especialistas em foguetes da época.

O filme é um melodrama, que envolve um triângulo amoroso durante uma viagem ao espaço. Mas os detalhes técnicos ainda impressionam, noventa anos depois. O enorme foguete, de três estágios, é montado verticalmente em um grande hangar. E se desloca sobre uma plataforma móvel até o local do lançamento. Exatamente como o Saturno 5, que lançou a Apollo 11 em 1969, quarenta anos depois. E a separação dos vários estágios, durante a subida, é exatamente como acontece hoje em dia, nos foguetes modernos.

Mas Lang pagou um preço caro pelo realismo do seu filme. Quando Hitler subiu ao poder sua polícia secreta, a Gestapo, mandou confiscar todas as cópias do filme. Por acreditar que ele revelava os segredos da tecnologia de foguetes da Alemanha. Tecnologia que foi usada para criar o míssil balístico V-2, usado para bombardear a Inglaterra. Até o belo modelo da espaçonave Friede foi confiscado e destruído durante a guerra.

E durante décadas os amantes do cinema só conheceram uma versão reduzida de “A Mulher na Lua”. Uma versão editada para 1 hora e 60 minutos, distribuída nos Estados Unidos. Lang morreu em 1976, depois de fazer muitos filmes coloridos em Hollywood. Ele fugiu da Alemanha antes da guerra e foi morar em Los Angeles. Mas continuou a inspirar novas gerações de cineastas. Em “O Tigre da Índia”, de 1959, ele colocou a atriz Debra Paget para dançar seminua, encantando uma cobra, em uma cena que inspirou a sequência com a dançarina de Orion no filme piloto de “Jornada nas Estrelas”.

E Debra Paget acabou sendo a segunda mulher a ir a Lua no cinema, na adaptação de “Da Terra a Lua”, do americano Byron Haskin, filmada em 1958. Quanto ao filme pioneiro, de 1928, ele acabou sobrevivendo à censura nazista. As partes cortadas foram recuperadas e a versão original, com 2 horas e 40 minutos, está disponível no YouTube. Para servir de inspiração aos cineastas do futuro.

Na vida real as viagens ao espaço não foram tão românticas quanto nos sonhos de Fritz Lang, mas foram bem dramáticas como mostra o documentário russo “Gagarin: O Primeiro no Espaço” do diretor Pavel Parkhomenko. O filme reconstitui a trajetória do primeiro astronauta da vida real, Iuri Gagarin, que entrou para a história ao orbitar a Terra em 12 de abril de 1961. A reconstituição espetacular do voo da Vostok 1 também está disponível no YouTube.

Espaço: Do romance de Lang a realidade do Gagarin

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JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br


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Um comentário

  1. Avatar

    Mais uma prova de que para fazer um bom filme não é necessário ter efeitos especiais mirabolantes e nem ameaças mundiais rocambolescas.

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