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Fronteiras

Matéria publicada em 8 de setembro de 2015, 07:30 horas

 


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Antes que chegasse o suco com sanduba notei duas rodas de amigos ao lado do balcão daquela padaria do centro de São Paulo. Do primeiro grupo vinham frases rápidas em espanhol e do segundo uma sonoridade que não consegui detectar muito bem, mas que parecia carregar elementos de francês.
Tres bien. Logo deduzi tratarem-se de imigrantes, possivelmente bolivianos e haitianos, dois dos grupos de estrangeiros que mais cresceram na cidade de São Paulo nos últimos anos.
O Brasil sempre foi, desde o seu nascimento, uma nação miscigenada, Feijoada com Cassoulet, mistura de portugueses, italianos, alemães, moçambicanos, sudaneses, sírios e japoneses.
Somos a soma desse mosaico um tanto caótico de culturas e povos, que fomos recebendo e incorporando com o nosso jeito acolhedor e bagunçado ao longo dos séculos.
E também exportamos muitos brasileiros ao longo das últimas décadas, principalmente entre os anos 1980 e 2010. Apenas nos Estados Unidos, calcula-se que haja algo próximo a meio milhão de brazucas morando por lá. Portugal, Espanha e Japão são outros destinos que abrigam milhares de brasileiros. Um mini Brasil fora do Brasil.
O assunto da imigração voltou a baila com força total por conta dos recentes e traumáticos fluxos migratórios que estão ocorrendo na Europa, desde os milhares de africanos que semanalmente chegam à costa da Itália em navios kamikazes que mais parecem depósito de gente, até refugiados sírios e curdos que fugidos do horror do Estado Islâmico tentam entrar com suas famílias em países europeus, como Grécia, França e Inglaterra.
Em tempos de bonança, faz-se vista grossa para os imigrantes que fritam hambúrgueres, faxinam banheiros e cuidam de crianças, serviços mal remunerados que os cidadãos desses países não se sujeitam a realizar. Mas quando a crise aperta a xenofobia ganha força, satanizando esses seres atrasados e pobres que enfeiam as cidades, aviltam o mercado de trabalho e aumentam as estatísticas de delinquência. (Acionem o radar de ironia, por favor).
O tema não é simples. O que fazer com uma multidão de centenas de milhares de pessoas invadindo esses países, sem emprego, sem dinheiro, sem plano de saúde, e muitas vezes sem sequer falar a língua desses países?
Para muitos países europeus que estão envelhecendo e com a população em vias de encolher, acolher esses imigrantes pode ser uma forma inteligente de reverter essa desidratação populacional, energizar a economia e salvar a previdência social (caso eles sejam incorporados ao mercado formal de trabalho). Mas trazem também à tona o desafio da convivência com o diferente (às vezes frontalmente divergente), o medo da degradação social de economias equilibradas e o pânico extremo do extremismo religioso.
Casos como esses infelizmente parecem que se tornarão mais frequentes, e pedem uma resposta que ainda não temos para uma pergunta fundamental:
Num mundo globalizado, onde o carro que eu dirijo é francês, as rodas chinesas, a carne que os russos comem é do Mato Grosso, e a internet é de todos, qual a extensão das fronteiras?
O que é problema dos países e o que é problema da espécie humana?
Num futuro muito breve, quais serão as nossas verdadeiras e justas fronteiras?

 

ALEXANDRE CORREA LIMA| alexandre.lima@diariodovale.com.br


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