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Infância perdida?

Matéria publicada em 5 de maio de 2017, 13:58 horas

 


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“Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo. E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo”. Toquinho redescobriu a infância na letra de uma música lançada em 1983 e que faz sucesso até hoje, cantada por crianças e adultos. Nela ele mostra a liberdade de se criar, de reinventar inúmeras brincadeiras, de se ter a verdadeira liberdade.

A saudosa infância é algo que para muitos que já passaram dos 40 anos, tornou-se um prazer que ficou enclausurado nos tablets e celulares que passeiam pelas mãos das crianças pelo mundo afora.

Nasci em uma época que ter a liberdade de viver as ruas e não nas ruas, era algo comum. Estar em contato físico e não virtual com os amigos era algo primordial, até porque virtual era uma palavra desconhecida das crianças do idos anos 1960.

Brincar de pique bandeira, pega-pega, esconde, queimada, amarelinha, bola de gude, pular corda, passar anel, pião, carrinho de rolimã, patins e empinar pipa, entre outras, era algo que nos levava para o convívio muito de perto com os amigos, gritando seus nomes quase que de porta em porta, celebrando os encontros que eram sinônimos de uma infância de liberdade a céu aberto, o que não mais acontece. Em um mundo onde a tecnologia não era tão inerente ao dia a dia, estas brincadeiras estão cada vez menos conhecidas entre a geração da tecnologia, que adotou o computador, os games nos tablets e celulares como novos passatempos favoritos.

Ajudados pela violência nossas crianças ficaram privadas de irem as ruas e assim acabaram confinadas nos quartos e plays da vida, obrigadas a direcionarem seus olhares não mais para o céu, mas sim para as telas dos aparelhos que começaram com as TVs e hoje estão estacionados nos celulares multifuncionais que, inclusive, fazem ligações, mas que com o advento do WhatsApp estão fadadas a desaparecer.

Pouco convívio

O progresso nos fez regredir no convívio. O sorriso ficou limitado a uma foto enviada por mensagem. Contar uma piada ou um caso só se for através de um vídeo onde centenas de milhares de pessoas compartilham em segundos. Beijos, sorrisos, uma lágrima de tristeza ou de alegria, aperto de mão, raiva, uma piscada de olhos ou um buquê de flores, ganharam vida através de emojis que representam estes e outros desejos e recados enviados aos amigos reais e virtuais.

Não se pode negar o valor e a importância de todo esse progresso, as tecnologias que nos colocam em contato com o mundo em segundos. Mas é fato que com isso os jornais e as revistas definharam. Os livros ameaçaram se transformar em e-books. O CD parece ter seus dias contados. Já o pen drive passou a ser artigo de primeira necessidade.

O mundo evoluiu e não foi pouco, dos celulares gigantes e com funções apenas para ligar e desligar, transformaram-se da noite para o dia em mini aparelhos, para hoje ganharem novamente um corpo respeitável, altos, porém, magros, slim de silhueta esbelta e elegante, trazendo inúmeros aplicativos que vão do rádio ao relógio, calculadora, clima, e-mails, agenda, músicas, gravador, calendário, jogos, além de câmera fotográfica com inúmeras opções para a produção de uma foto com detalhes e apliques que podem sofrer cortes, receber cores, filtros e fundos.

As televisões também sofreram todo o tipo de mutação, ganhando os mais diversos tamanhos, crescendo e afinando, trazendo componentes tal qual os celulares. Migramos de tão somente três canais de TV para centenas de emissoras a cabo e satélite.

A infância viajou no tempo e mudou de cara, incorporou 100% a tecnologia, onde só no Brasil com um pouco a mais de 204 milhões de habitantes, fez a mágica de espalhar em pouco tempo 242,8 milhões de celulares.

Resgate

Felizmente muitos colégios espalhados pelo Brasil trabalham incansavelmente com projetos de resgate das brincadeiras antigas, buscando manter vivo o aspecto cultural trazido por elas. É fato que as brincadeiras fazem parte de nossa cultura, é importante que as crianças estejam revivendo as tradições. A cultura é transmitida de geração em geração e deve continuar assim para o bem da sociabilidade. Além disso, a maioria dessas brincadeiras de 40, 50 anos atrás, estimula a questão social, a interação nelas é mais viva, corporal, o que é muito positivo para as crianças aprenderem a controlar seus impulsos e ímpetos.

Resgatar a interatividade é palavra de ordem, porque através dos celulares isso está caindo no desuso, porque nem falar com aquela pessoa que está a sua frente em uma mesma mesa de restaurante tem sido algo comum. Namorar via celular, é algo que se incorporou no dia a dia dos novos casais. Em uma casa, cada um em um cômodo “conversando”; mais corriqueiro impossível.

É inegável que crianças que brincam são mais criativas e as que se divertem em grupo têm menos problemas de ajuste social quando chegam à idade adulta. Tanto a tecnologia atual, quanto a tradição antiga trazem um importante aprendizado quando utilizadas de maneira correta e muitas vezes supervisionadas, sobretudo, pelos pais ou responsáveis. O segredo será sempre o equilíbrio entre os dois tempos.

É fato que as novas tecnologias que estão em computadores e celulares, entre outros, é algo importante e valioso, mas deve-se manter cuidado e distância de coisas que viralizam e muitas das vezes chegam a levar a morte, como aconteceu lamentavelmente em uma partida de game online, onde um adolescente morreu ao se enforcar com uma corda após perder o jogo. A cena tinha sido acompanhada em tempo real pelos outros participantes, pois estavam conectados via webcam. Ou ainda a patética brincadeira entre jovens estudantes, em uma disputa de quem conseguia desmaiar primeiro depois de provocar a diminuição da quantidade de sangue no cérebro que nos casos mais graves pode causar a morte.

‘Prisão’

Está comprovado que a falta de liberdade, a prisão que leva os pequenos a não deixar nem por um minuto o celular, altera os padrões de sono, produz violência e agressividade, além de contribuir para o desenvolvimento de problemas sociais e comportamentais que se realçam na idade adulta e ainda comportamentos de risco, estereotipagem racial e dos papéis de gênero.

A informação hoje em dia é em tempo real, o aprendizado das crianças é mais rápido, não existem barreiras de tempo ou de distância para que qualquer um saiba o que está acontecendo, o mundo cabe inteiro na palma das mãos.

Mas nem tudo está perdido, pois quem me sugeriu a coluna de hoje foi um menino de apenas 9 anos, Luciano, que mesmo com um celular nas mãos, preza pelas brincadeiras do meu tempo, não dispensa o convívio social e sonha com um mundo igualitário, onde estar com a família e os amigos é para ele algo melhor do que qualquer jogo virtual.

 

 

ARTUR RODRIGUES | [email protected]


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