Iogurtes, diplomas e miojo

by Diário do Vale

Durante muito tempo, e é provável que isso ainda seja válido, se você entrasse no escritório de um profissional liberal, como médico, advogado ou psicólogo, perceberia que o maior destaque da sala seria um diploma de faculdade, e esse diploma ficaria pendurado na parede até o profissional pendurar as chuteiras.
O diploma era o símbolo maior da aquisição do conhecimento, um conhecimento que seria a base do exercício daquela profissão por toda a carreira. Foi assim até hoje, mas… até quando?
No passado a produção de conhecimento ocorria num ritmo lento e as “verdades científicas” permaneciam verdades por muito mais tempo, normalmente por toda a carreira de uma geração.
Mas o mundo agora tem outra dinâmica e a incerteza é a única certeza. A verdade de hoje pode ser a vergonha científica de amanhã.
Em 1949 o médico português Antônio Egas Moniz ganhou o prêmio Nobel de Medicina. Possivelmente o Nobel mais controverso da história. Ele inventou a lobotomia, um procedimento cirúrgico com o qual ele furava o crânio dos paciente, seccionando as vias que ligam os lobos frontais ao tálamo. A lobotomia foi utilizada para tratar distúrbios mentais, pois deixava os pacientes mais dóceis, passivos e fáceis de controlar, mas com muita frequência menos inteligentes também. Às vezes vegetais. E esse procedimento horrendo foi utilizado durante décadas, condenando dezenas de milhares de pessoas, a maioria nos EUA, a uma vida desumana, quase vegetal, levando muitas delas ao suicídio. E essa prática era não apenas aceita, mas recomendada e aplaudida.
Novas tecnologias e novidades surgem em todas as profissões. Mal nos acostumamos e compreendemos uma novidade e puff… Ela já está obsoleta.
Há estudos que dizem que quando um estudante de Medicina concluir a faculdade, uma boa parte do que ele estudo já estará obsoleto ao sair da faculdade. E se logo ao sair da faculdade uma parte desse conhecimento estará obsoleto, o que acontecerá com esse conhecimento 5, 10, 15 anos depois de formado?
É por isso que já há quem defenda que o diploma no futuro será como um iogurte: deverá vir com data de validade. Porque uma parte do conhecimento que você adquiriu na faculdade talvez não esteja mais valendo no meio da sua carreira, e seus 15 anos de experiência podem na realidade ser 14 anos de defasagem se você não foi capaz de aprender continuamente, o que se chama de Educação Continuada.
E já que o diploma poderá ter data de validade já tem gente dizendo que o diploma é inútil. A tese é tentadora mas é mais ou menos dizer que podemos abolir os banhos, já que todo dia acumulamos sujeira no corpo, e nossa “limpeza corporal” fica obsoleta todo dia.
E estão dizendo que as Universidades irão acabar porque todo o conhecimento do mundo estará na palma das nossas mãos ao alcance de um clique.
Sim, a indústria do conhecimento terá que se reinventar e criar mecanismos para continuar relevante e protagonista nesses novos tempos, tem muita Universidade apegada ao um modelo de ensino do século passado, mas é pouco provável que desapareça. Aliás, é provavelmente o contrário. O problema não será mais termos um diploma. Mas termos apenas UM diploma. Se vamos viver num mundo em que os diplomas têm data de validade, precisaremos renovar a validade dos nossos conhecimentos.
E dá para absorver todo esse conhecimento na internet? Em teoria sim, na prática pouco provável, porque não é simples sermos o Coordenador Pedagógico da própria vida. Precisamos de um processo inteligente de filtrar a informação correta, e nem sempre a gente sabe o que a gente não sabe ainda. Precisamos de debate, contraponto, exposição a ideias diferentes, comuns no ambiente acadêmico, e precisamos de profundidade analítica e densidade de conteúdo, e na internet, com muita frequência, acabamos tentados a consumir fragmentos de informação, conteúdo rápido e superficial que não dão conta de explicar a complexidade do mundo. É como se fosse um conhecimento miojo, que fica pronto em três minutos, mas é carente de vitaminas.
Sei que esse papo parece macarronada de doido mas é pra onde o mundo tá indo.

 

Alexandre Correa é professor da FGV, escritor e palestrante corporativo. Ele está no YouTube, no Facebook, no Linkedin, no Instagram, no SPC e no Serasa. E não está no Tinder porque sua mulher não deixa.

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1 comment

É Leitor 17 de fevereiro de 2020, 16:14h - 16:14

Vc é muito bom camarada. Textos como crônicas. Crônicas como textos. show….

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