terça-feira, 17 de setembro de 2019

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Jardins e cemitérios

Matéria publicada em 3 de setembro de 2019, 08:00 horas

 


Ainda conseguia lembrar dos tempos de criança. Era tudo planta, fruto, bicho, árvore, grama e flores. O jardim era o local onde plantava sonhos, amores, novos projetos, esperanças e o futuro vicejante. A vida era um imenso bosque que a vista não alcançava o fim.
Foi estranho e um pouco opressor sentir que pela primeira vez o cemitério ocupava na sua vida espaço maior que o jardim.
É que muitos dos enterros provinham do jardim, por isso era difícil mantê-lo maior que o cemitério. Cada cova a mais era uma árvore ou sonho a menos.
Forçou com o pé direito a ponta da enxada no chão estorricado para conseguir um pouco mais de terra para recobrir o caixão. Nunca imaginou que tamanha paixão pudesse um dia caber naquele caixote tão apequenado. Não era a primeira. Já enterrara outras paixões antes. Era sempre um processo doloroso, como se enterrasse junto um pouco de si mesmo.
Aquele tinha sido particularmente difícil. Os últimos são sempre os mais dolorosos, mas ele sabia que superaria o luto da perda.
Talvez fosse culpa dele mesmo. Jardins são bonitos, colorem e perfumam a vida, mas dão trabalho. É preciso semear, regar, podar, adubar, colher, replantar. Talvez não tivesse sido um bom jardineiro.
Resolveu regar o jardim. Pra sua surpresa, percebeu um chumaço de margaridas que nascia sem pedir licença ao lado da cova, como se a vida dissesse que era maior que a morte.
Suspirou fundo e sorriu aliviado.
Era o jardim lentamente invadindo o cemitério, e a vida que impunha seu curso inadiável chamando-o do lado de fora, feito Primavera que não espera para eclodir.


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