quarta-feira, 3 de junho de 2020

TEMPO REAL

 

Capa / Colunas / Maradona

Maradona

Matéria publicada em 17 de março de 2020, 08:00 horas

 


Acabei de assistir a um documentário interessante do diretor Asif Kapadia sobre a vida do jogador argentino Diego Maradona.
Ele nasceu num bairro muito pobre da capital, uma favela, onde faltava parede, esperança, água tratada e esgoto para Maradona e seus sete irmãos. Mas a Villa Fiorito nunca saiu de dentro dele.
Seu refúgio era aquela circunferência de couro que ele chutava como ninguém. Sonhava um dia poder jogar em algum time da serie A do país.
Um dia um amigo de bairro foi selecionado para a categoria de base do Argentinos Juniors. E ele disse:
– Se vocês gostaram de mim, deveriam ver jogar meu amigo Diego Armando, ele é muito melhor do que eu.
E logo ele estava desfilando seu talento nos gramados esburacados da capital argentina. Ainda adolescente conseguiu realizar o primeiro grande sonho de sua vida: tirar a família da favela e levar todos para morar em um apartamento, modesto mas decente e cheio de móveis, uma novidade para a família, acostumada a compartir muito pouco com muita gente. Daquele dia em diante Don Diego carregaria toda a família nas costas.
Não demorou para ser notado e contratado a peso de ouro para jogar na Europa, pelo Barcelona, numa temporada infeliz marcada pelas contusões e pelas performances abaixo das previsões. Mesmo assim fez 38 gols em 58 jogos.
Quis a História um destino um bocado implausível: acabou sendo contratado pelo Napoli, um dos times de menor prestígio da liga italiana e sediado numa das regiões mais pobres e problemáticas do país. Para piorar, Nápoles era uma cidade dominada pela máfia, cujos Capos logo manteriam uma complicada relação de amizade com o craque.
Após duas primeiras temporadas um tanto frustrantes, Maradona conseguiu enfileirar uma séria de triunfos absolutamente impensáveis para a modesta biografia do clube: dois Scudettos, copa da UEFA e Copa da Itália. A catarse foi ainda maior porque Nápoles era símbolo da uma Itália atrasada, violenta e pobre, em contraste com o Norte rico e desenvolvido do qual se destacavam Juventus, Inter e Roma. Era como se Nápoles fosse a Villa Fiorito da Itália.
Logo viria o redentor título mundial pela seleção argentina na Copa de 1986, cujo espetáculo mais emblemático talvez tenha sido o gol de mão contra a seleção inglesa, país que anos antes tinha “roubado” (na concepção Argentina) suas ilhas Malvinas. Curiosamente, Maradona apelidou aquele gol de “La mano de Dios”. Se ele quis dizer que a mão foi de Deus ou que sua mão era divina nunca saberemos, mas o fato é que logo Maradona se tornou um semi Deus em Nápoles.
Mas o inferno o esperava logo na esquina. Seu envolvimento com a máfia italiana, a vida pessoal desregrada e o vício em cocaína acabaram por cobrar um preço muito alto do jogador. E de alturas maiores a queda é sempre muito mais dolorosa.
Maradona foi processado e condenado pela justiça italiana pelo consumo de drogas, e pelo envolvimento com prostitutas e com a máfia italiana. Foi suspenso do futebol e ainda flagrado no anti dopping .
E daí tudo que se segue é História.
Maradona foi um dos mais talentosos jogadores que os gramados do mundo já viram desfilar. O documentário diz que havia um Diego, menino lutador que superou as dificuldades da Favela, e havia Maradona, um personagem visceral, vulcânico e explosivo que era despertava paixões e ódios. Herói e vilão dentro do mesmo uniforme suado. Tudo digno de um tango argentino, dramático, cheio de júbilo e lágrimas.
Mas como o jogador mesmo afirma, “se eu fosse sempre Diego jamais teria saído da Villa Fiorito”.
Curioso é que logo no início do documentário entrevistam Pelé perguntando sobre o talento emergente, no que ele diz, sereno:
– “Ele tem talento, tremendas habilidades, mas não está preparado ainda, parece psicologicamente imaturo para enfrentar as responsabilidades que virão”.
As imagens, capturadas em preto e branco, vistas em perspectiva histórica, parecem quase um vaticínio profético e não poderiam ter saído de ninguém mais do que aquele que soube ser gênio dentro e fora de campo. O jogador que foi Edson e não deixou que o Pelé destruísse o que conquistou, e que por isso mesmo talvez ainda hoje seja lembrado como o maior jogador de todos os tempos.

 

Alexandre Correa é professor da FGV, escritor e palestrante corporativo. Ele está no YouTube, no Facebook, no Linkedin, no Instagram, no SPC e no Serasa. E não está no Tinder porque sua mulher não deixa.É autor dos livros “Pesquisas de Opinião Pública” (2017) e”Longevidade Inteligente” (2020).


Comente com Facebook
(O Diário do Vale não se responsabiliza pelos comentários postados via Facebook)

2 comentários

  1. Avatar

    Estou me comprometendo em acompanhá-lo nas suas crônicas. Não me arrependo. Sem interferir e sem fazer juizo de valor.

  2. Avatar
    Cidadão consciente.

    Bom texto, comprometido com a história. Porém, se, por um lado, Maradona não teve maturidade suficiente para ser um ídolo exemplar fora dos gramados, não podemos negar-lhe a condição de ser um cidadão crítico , que teve e tem coragem de assumir, publicamente, seu lado político; ao contrários dos ídolos desportivos brasileiros, que não têm coragem para declarar publicamente sua opção política ( como é o caso de Pelé, Zico, etc) ou daqueles sem informação, sem noção e sem argumentação, que pegam carona numa onda e passam a apoiar políticos descomprometidos com os interesses do povo que os idolatram. Pela sua coragem e desprendimento, o desportista e cidadão Diego Armando Maradona merece o nosso respeito.

Untitled Document