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Marcovaldo

Matéria publicada em 11 de setembro de 2018, 08:40 horas

 


As cidades – as grandes metrópoles, sobretudo – têm se tornado ambientes inóspitos à vida e ao belo. Trincheiras do caos e da selvageria. Império do cimento, hegemonia do cinza e do aço sobre o verde escasso.
Talvez por isso a foto tenha me tocado. Uma árvore crescendo no meio de milhares de pneus velhos num depósito abandonado é realmente uma cena inusitada.
Lembrei-me de um livro do Ítalo Calvino que ganhei de uma prima há alguns anos, Marcovaldo – As estações na cidade.
Marcovaldo conseguia enxergar beleza nas coisas mais triviais. Uma planta crescendo na minúscula fenda que se abria no asfalto escaldante ou um cogumelo que brotava do ponto de ônibus. Uma vitória do imponderável sobre a concretude de uma realidade opressora. O grande trunfo do livro e mostrar que nem tudo é inescapável. A íris é capaz de captar a beleza que a urbe capciosamente nos esconde.
Mas onde se esconde o belo?
(Sem piadinhas de pagodeiros detentos, por favor, que esta é uma crônica com pretensões líricas).
Tendemos a procurar a beleza longe nós, em outro ambiente, outra cidade, outro país, outro planeta, outra pessoa. Mas precisamos abrir os olhos para o belo que nos cerca.
Ou às vezes também fechar as portas para o inferno que nos rodeia.
Lembro-me do depoimento de um prisioneiro judeu que sobreviveu a um campo de concentração nazista. Mesmo tendo vilipendiadas todas as coisas que tinha família, liberdade, patrimônio e dignidade, conseguiu preservar intacta a última fronteira que lhe restava: seu cérebro. Enquanto sofria as mais abjetas humilhações se punha a imaginar o fim da guerra e o reencontro com a família e os amigos. Dilaceravam cada pedaço da carne, mas não podiam comandar os pensamentos.
Um enredo parecido com o do filme “A Vida é Bela”, no qual o protagonista faz o filho acreditar que participam de um divertido jogo, para que o pequeno não perceba a tragédia e o horror em que estão imersos.
A vida tem que ser Bela. Precisamos de algum alimento que nos sacie mais do que as tripas. Somos seres estéticos. A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte.
Saciadas nossas necessidades mais básicas, precisamos alimentar o espírito, a alma. Qual a lógica absoluta de se ouvir música, ler um livro, admirar um quadro, rezar, dançar, entender filosofia grega ou apreciar a beleza silenciosa de uma montanha?
Esse é um dos grandes traços que nos distinguem dos animais. Sabemos que viver é muito mais do que sobreviver. E “viver” é quase impossível sem alguma experiência que transcenda a mera materialidade da subsistência.
A falta de um sentido maior nas coisas nos causa um vazio tão grande quanto o consumo vazio de coisas. É por isso que o consumismo, destituído de algum valor maior que o lastreie, vira futilidade, um fascínio idiota fadado ao fastio.
Precisamos viver alguma forma maior de arte, exercitar o nosso lado Marcovaldo e aprender a encontrar a beleza cotidiana que se aloja discretamente ao nosso redor.
A vida pode ser bela, mas depende um bocado de você.


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Um comentário

  1. Ótimo texto! Inspirador!

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