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Mauro Morandi, o Robinson Crusoé contemporâneo

Matéria publicada em 14 de agosto de 2018, 07:26 horas

 


Sempre fui apaixonado por livros e por boas histórias, desde criança, herança que devo em grande parte ao incentivo de minha mãe, e aos gibis da Família Disney que ganhava desde antes de aprender a juntar o lé com o cré do B A BÁ.
Uma das histórias que me fascinou foi a de Robinson Crusoé, escrita por William Dafoe, que conta a saga de um náufrago numa ilha caribenha, que viveu praticamente sozinho por 28 anos, tendo que enfrentar animais, canibais e uma série de aventuras épicas.
Talvez inspirado nesse clássico, o cineasta Robert Zemeckis dirigiu o filme “O Náufrago”, estrelado por Tom Hanks, no qual o protagonista fica sozinho numa ilha por quatro anos, após a queda do avião em que viajava. Embora a ideia central não seja exatamente muito original, o roteiro é muito bem escrito e mostra as angústias do isolamento, os desafios da sobrevivência e a capacidade de adaptação do ser humano.
Histórias que arrebataram leitores e espectadores, crianças e adultos, mundo afora, pela força de um enredo que narra acontecimentos tão fascinantes quanto implausíveis.
Essa foi a categoria em que sempre imaginei que pertenciam esse tipo de relato ficcional, até me deparar com a história de Mauro Morandi, um pescador italiano que em 1989 perdeu o controle de seu catamarã e acabou indo parar numa praia rochosa da ilha de Budhelli.
A vida imita a arte, mas não em todos os detalhes. Após a tempestade, Mauro retornou à sua cidade, mas em crise existencial, vendeu seu catamarã e se exilou na ilha, onde vive até hoje, no esplendor dos seus 79 anos de idade. Em breve baterá o recorde de permanência de Robinson Crusoé.
À exceção do personagem mais famoso, todavia, Mauro não está numa ilha inacessível pode sair de lá quando quiser, e se não o faz, é por vontade própria.
“Eu estou numa espécie de prisão aqui. Mas é uma prisão que eu mesmo escolhi para mim”.
A ilha é de uma beleza estonteante, com uma faixa de areia de rara coloração rosada, e que pela fragilidade de seu ecossistema foi fechada para visitação turística regular. Morandi ainda teve que vencer uma batalha para ganhar o direito de permanecer vivendo como a única alma solitária e feliz da ilha.
Ao contrário dos insulanos mais famosos que buscaram um antídoto contra a solidão, Mauro não parece sentir falta de um Sexta-feira ou mesmo de um Wilson. Ele diz que não se sente solitário, porque está sempre cercado de vida por todos os lados: plantas, pássaros, árvores, peixes, vento, sol, chuva, natureza. E ocasionalmente recebe a visita de alguns turistas, onde conversa sobre a importância de proteger o ecossistema.
Morandi acredita no poder transformador da beleza e na força da natureza.
“A gente pensa que é gigante, que podemos dominar a Terra, mas no fundo somos apenas mosquitos”.
Nos longos e (ainda mais) solitários meses de inverno, Mauro Morandi se dedica a filosofia, artesanato e aos clássicos da literatura.
A arte imita a vida, mas a vida quase sempre produz as histórias mais fantásticas que somos capazes de imaginar.


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