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Meus filhos não bebem refrigerante

Matéria publicada em 29 de fevereiro de 2020, 07:00 horas

 


Diariamente nossa atenção é sequestrada, nossa atenção, nossa energia, nossa possibilidade de nos relacionarmos com nossos semelhantes

Um novo post, uma nova mensagem, uma nova chamada, uma foto para curtir e 15 para postar. Estou cada vez mais exausto, cada dia mais impaciente, cada hora mais introspectivo. Produzo cada vez menos e tenho essa sensação. Sinto-me cada vez menos feliz, mesmo que tenha voltado recentemente de uma viagem dos sonhos. O que será que está acontecendo?
Parece que não sou mais eu mesmo. Sabe quando as pessoas ficam viciadas em sustâncias químicas e se transformam por isso? Será que é isso que aconteceu? Mas eu não estou viciado em nada. Ops! Será mesmo?
Agora mesmo, escrevendo este texto eu parei antes do início para olhar o meu celular. Redes sociais e novas tecnologias são capazes de nos viciar? São capazes de nos emburrecer? Bem, o cientista mais importante do século XX afirmou que a tecnologia iria emburrecer a humanidade. Acho que ele acertou. Mas viciar? Não seria demais?
Diariamente nossa atenção é sequestrada, nossos cérebros, nossa atenção, nossa energia, nossa possibilidade de nos relacionarmos com nossos semelhantes. Isso é grave. Muito grave. Ontem mesmo conversei com minha filha sobre o preço das coisas. O preço é a quantidade de vida que deixo para adquirir algo. Ou seja, quanto tenho que trabalhar para comprar aquele sorvete que ela gosta, quantos minutos? Quantas horas de trabalho me custaram a compra, mesmo sabendo que preço é o que se paga, valor é o que se leva, mas isso é assunto para outra coluna. Enfim, espero que ela tenha entendido.
Mas o X da questão é o tempo de vida que deixo diante do meu celular, são as horas que deixo de dormir para curtir aquela foto daquele amigo que não encontro há mais de 25 anos. Será que as novas tecnologias não estão me levando de mim mesmo? Da minha família? Dos meus amigos?
Para termos uma noção do que está acontecendo, vamos entender um pouquinho sobre os jogos. Pequenos eventos inesperados em um menor tempo são chamados de frequência de eventos, quanto maior for a frequência, mais rápido ficamos viciados. Pois é a sequência de dopamina. Todos os aplicativos da atualidade são baseados nessa sequência de eventos. E é exatamente isso o que nos vicia.
Nós adultos, podemos refletir criticamente acerca desse assunto, mas e as nossas crianças? Já viu um menino de 4 anos se acalmar com uma tela de celular? Experimentou retirar a tela 10 minutos depois? O que acontece? A criança se transforma não é verdade? Pelo menos é o que acontece aqui em casa com o meu mais novo. E é justamente aí que temos que focar. Impedimos nossos filhos de comer guloseimas e beber refrigerantes, mas, às vezes, para termos um respiro, um tempinho que seja, deixamos a telinha, a chupeta eletrônica nos auxiliar, mas o problema é quando isso se torna um hábito.
É importante, portanto, que tenhamos total consciência do que temos em nossas mãos para, termos, efetivamente, o livre arbítrio, pois do contrário, seremos, com cada vez mais frequência, massa de manobra. E o que será de nossas crianças? O pior é que não sabemos.
Em tempos em que se investir virou moda, acredito que investir em nós e em nossos filhos, em nossos amigos e em nossas famílias seja o melhor a se fazer.

Boa leitura!
Obs. Terminei a coluna sem olhar no celular.
TMJ!

Raphael Haussman. É professor, Coach, consultor e apaixonado por educação e desenvolvimento humano e, ainda, pai da Raphaela e do Theo.

Outros canais para comunicação:
E-mail: haussmancontador@bol.com.br
WhatsApp: 21 986983000

Nosso dicionário:

*Viciadas – Uma pessoa é considerada viciada quando faz uso abusivo de substâncias químicas, intoxicando o organismo. Na modernidade, percebe-se que os vícios extrapolaram apenas as substâncias químicas para abranger até mesmo as novas tecnologias.

*Redes sociais e novas tecnologias – No mundo contemporâneo, chamam-se de Novas Tecnologias de Informação as tecnologias e métodos para comunicar surgidas no contexto da Revolução Informacional, desenvolvidas desde a segunda metade da década de 1970 e, principalmente, nos anos 1990. Nesse mesmo contexto, as redes sociais surgiram como uma estrutura formada para conectar pessoas de acordo com seus interesses e valores no ambiente online.

*Emburrecer – Segundo o dicionário, emburrecer significa causar a perda de inteligência. Dessa forma, seriam as novas tecnologias capazes de aumentar nossa ignorância?

*O cientista mais importante do século XX – O termo caracteriza-se como uma antonomásia, substituição de um nome por uma expressão que lembre uma qualidade, para referenciar Albert Einstein (Ulm, 14 de março de 1879 — Princeton, 18 de abril de 1955), físico que propôs a teoria da relatividade e provocou uma verdadeira revolução do pensamento humano.

*Atenção é sequestrada – Metáfora que transmite que a nossa capacidade de foco é desviada para as novas tecnologias.

*O X da questão – Mais uma metáfora, dessa vez que faz relação com fórmulas matemáticas, para transmitir a ideia de “Cerne da questão”.

*Frequência de eventos – Nesse design de jogos, o objetivo é o sistema produzir o maior número possível de pequenos eventos inesperados no menor tempo. Toda vez que há um evento, recebe-se uma injeção de dopamina — quanto mais eventos encaixados em uma hora, maior é o vício.

*A chupeta eletrônica – Metáfora para a capacidade de aquietar as crianças apresentada pelo celular.

*O livre arbítrio – Livre arbítrio é o poder que cada indivíduo tem de escolher suas ações.

*Massa de manobra – Grupo de pessoas que são conduzidas para servir o interesse de alguém ou de um grupo.


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Um comentário

  1. Avatar

    Quando era adolescente, meus pais davam graças a Deus e diziam: Meus filhos só bebem refrigerante!

    O ruim era beber bebida alcoólica.

    Hoje em dia álcool é Gourmet.

    Refrigerante é uma porcaria , muita glicose , sem vitaminas, mas ainda é melhor que cerveja, cachaça e outras bebidas alcoólicas.

    Sei que fugi do tema, mas não resisti.

    Pois se você dá um copo de refrigerante eventualmente para seu filho a patrulha do politicamente correto, não perdoa.

    Meus meninos nunca tinham tomado refrigerante até entrarem para a escola, aí nas festinhas da escola serviam…

    É o preço do convívio social.

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