segunda-feira, 15 de julho de 2019

TEMPO REAL

 

Capa / Ciência – Por Jorge Calife / Missão Rosetta mudou nossa visão dos cometas

Missão Rosetta mudou nossa visão dos cometas

Matéria publicada em 13 de outubro de 2016, 13:36 horas

 


wp-cabeca-ciencia

A sonda espacial Rosetta, da agência espacial europeia, terminou sua missão no cometa 67P/Chryumov-Gerasimenko colidindo com a superfície do núcleo no dia 30 de setembro passado. Lançada há 12 anos, em março de 2004, a nave passou dois anos orbitando o núcleo do astro e lançou uma sonda em sua superfície. O controle da missão decidiu encerrar as observações porque o 67P está se afastando do Sol e logo não haverá mais luz solar disponível para alimentar os painéis de fotocélulas da nave.

A missão foi um sucesso e acrescentou muita coisa ao nosso conhecimento sobre esses astros luminosos. Para entender melhor o quanto aprendemos sobre os cometas é preciso recuar no tempo, até o século passado, quando o cometa Halley passou pela Terra em 1986. Na época a revista Playboy me encomendou um conto de ficção científica sobre uma viagem ao núcleo do Halley, para sua edição de março de 86. Mais conhecida por suas modelos desinibidas, a Playboy sempre publicou ficção científica de ótima qualidade e não foi fácil atender ao pedido da revista.

Na época ninguém sabia como era o núcleo de um cometa. Existiam duas teorias. A do astrônomo americano Fred Whipple que dizia que os cometas eram bolas de neve sujas. E a teoria do astrônomo inglês R.Lyttleton que imaginava que os cometas não tinham núcleos sólidos. Era uma nuvem de poeira e granizo rodopiando pelo espaço. Em meu conto optei pela teoria do núcleo sólido, que acabou sendo confirmada, um ano depois, quando a sonda espacial Giotto fotografou o núcleo do Halley, uma montanha de gelo do tamanho da ilha de Manhattan.

Com base nessas observações, de 1986, a equipe da Rosetta esperava que o 67P fosse a tal bola de neve suja. Mas as primeiras fotos enviadas pela sonda mostraram uma estrutura complexa, com a forma aproximada de um pato de borracha, formada pela fusão de dois núcleos semelhantes a duas grandes bolas de sorvete. Os dados coletados mostram que o núcleo do cometa é uma mistura de poeira e gelo, muito porosa. Sua consistência foi comparada a da neve fresca, que acabou de cair.

Durante décadas existiu uma teoria de que a água, dos oceanos da Terra, veio de cometas que colidiram com o nosso planeta. Agora essa teoria terá que ser revista. Os instrumentos da Rosetta descobriram que a água do cometa contém um isótopo, o deutério, em proporções diferentes da água existente na Terra. O que mostra que a água dos cometas e a água da Terra vieram de locais diferentes.

Entre os gases emitidos pelo cometa estão o oxigênio molecular, nitrogênio e gases nobres. Com base nessa descoberta os astrônomos concluíram que o cometa se formou em uma região muito fria. Porque o nitrogênio e o oxigênio precisam de temperaturas muito baixas para se congelarem. Os cometas são restos da nuvem de gás e poeira que formou o sistema solar, mas agora sabemos que no caso do 67P ele surgiu na parte mais extrema da nuvem, bem longe do calor das regiões centrais.

A Rosetta lançou uma sonda menor, a Philae, que pousou na superfície do cometa bem antes dela. Mas só funcionou durante 60 horas porque caiu em uma região escura, onde suas baterias solares não puderam funcionar. A gravidade do cometa é tão baixa que a Philae ricocheteou para o espaço e não pousou no lugar adequado.

Outra coisa que surpreendeu os astrônomos foi a paisagem da superfície do cometa, que tem dunas, crateras e ondulações. Com apenas quatro quilômetros de diâmetro o núcleo do 67P deve ter processos geológicos bem diferentes dos encontrados na Terra. A próxima missão é a Osiris-Rex da Nasa, que vai visitar um asteroide.

 

 

Estranho: Cometa lembra um pato de borracha

Estranho: Cometa lembra um pato de borracha

 

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br


Comente com Facebook
(O Diário do Vale não se responsabiliza pelos comentários postados via Facebook)
Untitled Document