sábado, 20 de abril de 2019

TEMPO REAL

 

Capa / Colunas / Na pele e na raça

Na pele e na raça

Matéria publicada em 24 de fevereiro de 2019, 10:00 horas

 


Não importa a cor da pele, todos os brasileiros têm ligações biológicas e culturais com a África – Foto: Abr

Existem muitas formas de preconceito, mas o racial, e mais especificamente o preconceito contra negros, consegue ser ainda mais odioso porque se baseia nas justificativas que foram inventadas para a escravidão. Dizia-se, por exemplo, que os negros não possuíam alma, por isso podiam ser escravizados. Também se dizia que os negros eram preguiçosos, por isso era aceitável açoitá-los para que eles trabalhassem.
Em mais de três séculos de escravidão – dos anos 1500 ao fim dos anos 1800 – o ódio ou o desprezo contra os negros foi se infiltrando na mente coletiva da sociedade brasileira.

A mulata sexy e o negro potente

O detalhe é que, além de explorarem o trabalho dos negros, os colonizadores portugueses também exploravam sexualmente as negras. (Por exemplo, entre as etnias africanas escravizadas no Brasil estavam os bantos ou bundos, que tinham as nádegas maiores que as outras raças. Se você deduziu que a palavra “bunda” se referia primeiro à mulher desse povo e depois passou a significar nádegas, acertou.)
Pois bem: com tanto sinhozinho se aventurando pelas senzalas, não demoraram a surgir os mestiços e hoje praticamente todas as famílias brasileiras têm algum DNA negro.
Mas essa realidade, em vez de tornar nosso racismo mais suave, o amplificou: a mitificação da negra e da mulata como ícones de sensualidade, e dos negros e mulatos como exemplo de potência sexual não deixam de “coisificar” essas pessoas, transformando-as em brinquedos.
Hoje, esse estereótipo continua presente em músicas (você é um negão/de tirar o chapéu…), na literatura (Gabriela, cravo e canela) e no imaginário popular, mas, embora os gostos pessoais possam variar, negros e mestiços não mais ou menos sensuais do que qualquer outra raça.

O negro marginal

Pense numa favela. Agora pense em pessoas andando pela favela. Agora pense nos bandidos que dominam essa favela. Se essa imagem mental que você fez não incluiu uma maioria de negros ou mestiços, você é um hipócrita. Isso porque a maior parte dos moradores de favelas são realmente negros ou mestiços. Portanto, negros ou mestiços também são maioria entre as quadrilhas que dominam esses lugares.
A razão para isso? Quando a escravidão foi abolida, em 1888, não foi implementado nenhum projeto para incluir os escravos recém-libertados na sociedade produtiva. Aliás, no Brasil do fim do século XIX não haveria mesmo como “incluir” uma imensa população de ex-escravos na economia, a não ser como trabalhadores rurais, o que eles já eram quando escravos.
Nas cidades, a situação foi pior. Os ex-escravos da própria cidade não queriam viver mais com seus antigos donos. Por isso, foram procurar lugares vazios onde pudessem se estabelecer. Um desses lugares foi o Morro da Favela, no Rio, que deu origem à palavra.
A esses ex-escravos urbanos juntou-se um grande contingente de ex-escravos rurais que migraram para os ambientes urbanos na esperança (quase sempre vã) de encontrar melhores oportunidades de trabalho.
Resultado: as favelas, onde vivia a maior parte dos negros, se tornaram lugar onde a atividade marginal era mais ampla.
No entanto, apenas uma parcela mínima dos moradores de comunidades e dos negros e mestiços se tornou realmente bandido. Aqui entre nós, se todos os socialmente marginalizados no Brasil decidissem ser criminosos, ia faltar vítima.
Então, da próxima vez que você vir um negro ou mestiço à noite, num lugar pouco frequentado, lembre-se de que há mais ou menos 99% de chances de se tratar de uma pessoa honesta.

Coisa de gente burra

A palavra preconceito significa conceito formado antecipadamente. É o caso do sujeito(a) que não gosta de alguém por pertencer a determinada raça, religião, nacionalidade, classe social, orientação política, gênero… enfim, há preconceito para todos os gostos ou desgostos. O detalhe é que o preconceito já mostra que a pessoa que reage negativamente está fazendo isso sem pensar. Desgosta-se do outro não porque ele seja chato, desonesto ou qualquer outra coisa ruim, mas porque ele faz parte de um grupo diferente.
E mais: como as chances de qualquer brasileiro não ter nem um pouquinho de DNA africano são quase nulas, são enormes as possibilidades de que os racistas estejam discriminando a si mesmos.

Explicação

Este texto foi publicado originalmente em 3 de dezembro de 2017. A republicação tem como objetivo marcar a posição do colunista, que é absolutamente contrário a qualquer forma de discriminação racial, mas que insiste em afirmar que há pessoas exagerando na luta contra o racismo e vendo preconceito onde o que há é menção a uma cor e não a uma raça, que aliás seria melhor descrita como afrodescendente do que como negra.


Comente com Facebook
(O Diário do Vale não se responsabiliza pelos comentários postados via Facebook)

11 comentários

  1. Avatar

    Notadamente a população terráquea termina antes da discriminação.

  2. Avatar

    eu acho que é uma situaçao que nunca vai acabar. È uma coisa que alem de ser ensinado na escola os pais tb deveriam ensinar..como isso nao acontece..entao isso nunca deve acabar

  3. Avatar

    Sou negro e o que vejo é muito blá blá blá em torno de discriminação de pele, opção sexual e etc. A verdade é que muitos “movimentos” que dizem defender quem quer que seja, na verdade perpetuam essa “guerra”, de colocar uns contra os outros!
    Nenhum desses movimentos que dizem defender os seus me convence e acho que eles deveriam incentivar o estudo e o mérito ao invés de brigar por cotas!
    Há relatos documentados que na África, 300 anos antes dos europeus chegarem lá, já havia escravos, então o branco é culpado ou isso é do ser humano achar que um é superior ao outro? Se os negros tivessem condições iriam escravizar os brancos, então essa narrativa de negro x branco não me convence! Isso só atrasa e o corrobora para que esse assunto continue vivo e fazendo jovens vítimas não sabem a verdadeira história! Zumbi raptava, estuprava mulheres, mandava matar opositores… e para mim não é herói como muitos o chamam por aí!
    Somos todos seres humanos e a cor da pele, é só uma cor!

    • Avatar

      Penso exatamente como vc… Escravos havia em todos os lugares, desde que o mundo é mundo. Na antiguidade, e mesmo nas sociedades não-cristãs, o tratamento dispensado aos escravos era muito mais cruel… O mundo não tem, teve ou terá povos bons ou ruins, mas sim o mais avançado, o mais forte ou o melhor preparado subjugando o mais fraco, em ordem sucessória…

  4. Avatar

    O que esperar dos comentários quando se tem participando e expondo sua “ideias inteligentíssimas” GUTO ou VAI VENDO? Merrrrdaaaa!!!

  5. Avatar

    Esse troço se “preocupa” com os indígenas Venezuelanos,os nossos o agronegócio cuida deles

  6. Avatar

    E o Maduro que não reconheceu a legitimidade da eleição de quatro deputados indígenas, porque eram oposicionistas e tirou o mandato deles, garantindo a maioria na Assembléia graças a esse ato racista, no entanto, esses artistas da globo e os intelectuais esquerdistas não falaram nadam, não viram nada, nem sabiam de nada!
    Agora eu pergunto para aqueles que defendem a esquerda aqui no D.V… O que vocês acham desse ato racista do Maduro?!

  7. Avatar

    O preconceito é de cor, não de raça. O mulato claro no Brasil, de cabelo liso ou ondulado (que compõe boa parte da afrodescendência) praticamente não sofre. O problema é com os negros retintos e os mulatos escuros, os que reproduzem os caracteres físicos associados à raça… Diferentemente de outros países, no Brasil não perguntam a origem da pessoa, apenas consideram a aparência. A música “O Teu Cabelo não Nega” é um exemplo crasso dessa condição…

  8. Avatar

    Isso é uma besta ou é bestial?

  9. Avatar

    Bela matéria, também concordo que os problemas do passado já foram superados, o que existe hoje nada mais é do que uma vantagem genética de uma raça sobre a outra, cabe cada um saber explorar aquilo que tem de melhor.

  10. Avatar

    Historicamente, o país tem convivido com o racismo e o perpetuado. Fomos o último país da Américas a abolir a escravidão, em 1888, e somos um dos países com o maior número de assassinatos de negros. Os negros representam 54% da população, mas são 71% das vítimas de homicídio. Entre os mortos por homicídio de 2005 a 2015 (época em que o Brasil era “governado” pelo PT), o número de brancos caiu 12% e o de negros aumentou 18%!
    Ou seja, o governo do PT não fez nada para acabar com a violência e os que foram mais prejudicados foram os negros!
    Como diria o jornalista Boris Casoy: “ISSO É UMA VERGONHA!”…

Untitled Document