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Não verás país nenhum

Matéria publicada em 28 de setembro de 2021, 14:52 horas

 


Brasil nos dias de hoje parece cenário de um filme catástrofe

O título da coluna desta semana foi tirado de um livro apocalíptico, escrito na década de 1970 pelo Ignácio de Loyola Brandão. Eram os anos da ditadura militar e os tratores começavam a derrubar as árvores gigantescas da floresta para construir a rodovia Transamazônica. Os telejornais mostravam aquelas imagens das árvores centenárias tombando como sinal de progresso. Era o milagre brasileiro do regime militar. Mas mesmo naquela época os intelectuais e os escritores já previam que as consequências seriam ruins. E na fantasia do Loyola Brandão o Brasil virava um imenso deserto açoitado por tempestades da areia.

Eu já comentei aqui que a ficção tem o péssimo hábito de virar realidade. Principalmente a ficção apocalíptica. No domingo passado a internet estava cheia de imagens da tempestade de poeira que atingiu várias cidades do interior paulista.

Quando vi aquelas cenas na internet imediatamente me lembrei do filme “Interestelar” do diretor Christopher Nolan. Tem uma cena idêntica, em que o herói esta assistindo a um jogo de baseball e uma nuvem escura de poeira se aproxima, interrompendo a partida e colocando as pessoas em fuga. É só comparar as imagens gravadas em Franca, Araçatuba e Presidente Prudente com as cenas do filme estrelado pelo Mathew McConaugh. São idênticas, incluindo as cenas das pessoas fugindo. Em São Paulo e em algumas cidades de Minas Gerais, foi preciso entrar em casa e fechar as janelas porque ficou difícil de respirar com a poeira no ar.

Os meteorologistas dizem que o fenômeno foi provocado pela seca extrema que atinge o sudeste do Brasil. Com a aproximação de uma tempestade os ventos levantaram toda a poeira acumulada no solo ressecado. Não é correto chamar o fenômeno de “tempestade de areia”, porque na verdade é uma nuvem de pó, não de areia.

Os estados do sul e do sudeste são os mais afetados por essas mudanças do clima. Há muito tempo que aqueles fenômenos, que só costumávamos ver nos filmes de Hollywood atingem o interior de São Paulo, Paraná, Santa Catarina. Primeiro foram os tornados, agora as tempestades de pó. Se o leitor tiver um globo terrestre, desses encontrados em qualquer papelaria, pode fazer uma experiência interessante. Acompanhe a linha do Trópico do Capricórnio, saindo do Rio de Janeiro e seguindo para o leste. Depois de cruzar o oceano Atlântico vai chegar nas regiões desérticas da Namíbia, na África, dominadas pelo grande deserto do Kalahari. E seguindo adiante, através do oceano Índico, chegará no Grande Deserto Australiano.

Porque essas latitudes correspondem a desertos, na África e na Austrália enquanto no Brasil tínhamos um clima chuvoso e florestas luxuriantes? Florestas como a Mata Atlântica, hoje quase totalmente desmatada e destruída. A diferença era a umidade que vinha da Amazônia. Mas com o desmatamento e os incêndios essa umidade diminuiu. Daí a seca extrema que começa a se tornar frequente aqui no sudeste. Aliás a destruição da Amazônia chegou a um ponto, no atual governo, que a floresta passou a produzir gás carbônico no lugar de absorver. Aquela história de que a Amazônia é o pulmão do mundo é pura ficção. O oxigênio que ela produzia durante o dia era absorvido a noite. Mas com as queimadas a produção de carbono superou a de oxigênio.

No filme “Interestelar” que citei lá em cima, a Terra começa a se tornar inabitável devido a falta de oxigênio. E os personagens precisam se mudar para outros planetas, ou viver em estações espaciais. Coisa que ainda esta fora do alcance da tecnologia atual. A colonização do espaço esta virando um esporte para bilionários. E só eles é que poderão viver lá em cima. O povo ficará aqui em baixo, comendo poeira como em São Paulo.

 

Interestelar: Em São Paulo foi pior do que na ficção


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