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No tempo do Constellation

Matéria publicada em 28 de abril de 2017, 13:47 horas

 


Avião era lento, mas as viagens eram um luxo; tinha cabine pressurizada, o que era novidade naquela época

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Domingo passado li uma crônica do escritor Luís Fernando Veríssimo onde ele lamentava nunca ter voado em um Constellation. Ótimo para ele, porque a maioria das pessoas que viajou nesse avião, ou já morreu ou está para lá dos noventa anos. É como os sobreviventes do Titanic, que se contam nos dedos de uma única mão. O Lockheed Constellation foi a aeronave comercial mais famosa nas décadas de 1940 e 1950 e aqui no Brasil foi operado pelas extintas Varig e Panair do Brasil.

Tinha cabine pressurizada, o que era novidade naquela época e era movido por quatro motores radiais a pistão de 18 cilindros. Não era turbo-hélice como imagina o Veríssimo. Os turbo-hélices, como o Electra da ponte aérea Rio-São Paulo, surgiram uma década depois do Constellation e não eram usados em voos internacionais. Os Constellations voavam para Miami e Nova Iorque e tanto o cantor Cauby Peixoto quanto a miss Martha Rocha voaram em um deles quando ficaram famosos.

Os primeiros Constellations foram criados por encomenda do famoso magnata e aviador Howard Hughes. Que queria um avião capaz de voar na “subestratosfera” como ele diz no filme interpretado pelo Leonardo DiCaprio. A estratosfera é uma camada de ar mais calma, acima da turbulenta troposfera onde vivemos. Voando lá em cima a viagem, em teoria, seria mais tranquila, sem as sacudidelas que deixavam enjoados os passageiros dos primeiros aviões.

Os primeiros Constellations voaram em 1943 nas cores da empresa TWA de Hughes. A velocidade do cruzeiro era de uns 500 quilômetros horários e uma viagem do Rio a Nova Iorque levava um dia inteiro, incluindo uma escala na ilha de Trinidad para reabastecimento.

Como as viagens eram mais longas, os aviões daquela época eram superconfortáveis. O Stratocruiser da Pan Am, rival do Constellation, tinha até beliches para os passageiros dormirem confortavelmente.

Mas o que tornou o Constellation famoso foram suas linhas aerodinâmicas. Enquanto o Boeing Stratocruiser parecia um torpedo com asas, a fuselagem do Constellation imitava as formas de um golfinho. A última versão foi o 1049 G, usado pela Varig e a Panair, que era mais comprido, com assentos para 60 passageiros. Viajar de avião era muito caro e só uma elite podia aproveitar o luxo dos Constellations. O cardápio a bordo incluía salmão, lagosta e outras iguarias. E os assentos eram espaçosos e confortáveis, ao contrário do aperto dos aviões atuais.

Terrorismo não existia naqueles tempos, e os comandantes costumavam passear pelo avião, durante a viagem, conversando com os passageiros. O avião aparece muito nos filmes da época e Fred Astaire desembarca de um Constellation em Paris no musical “Cinderela em Paris” com a Audrey Hepburn. Outro Constellation aparece com destaque no épico “Assim caminha a humanidade” com o Rock Hudson e o James Dean.

Há quem sustente que o Constellation foi o avião de passageiros mais bonito que já existiu. Mas é uma questão de opinião. Um concorrente a altura do Constellation foi o supersônico Concorde, que também já virou peça de museu há muito tempo. Hoje em dia os aviões são todos muito parecidos. Enormes, com espaço para mais de 300 passageiros e com aquela aparência de tubos com asas.

As linhas aerodinâmicas do Constellation tornavam sua construção muito cara. Os anteparos internos, dividindo as cabines, eram todos de tamanhos diferentes. É por isso que os aviões modernos têm fuselagem cilíndrica, mas barata e fácil de construir. Atualmente só dá para ver os Constellations em fotos como essa aí em cima. Que os leitores me corrijam, mas acho que não existe nenhum Constellation preservado nos nossos museus aeronáuticos. No exterior tem um monte.

Bonito: A fuselagem imitava um golfinho

Bonito: A fuselagem imitava um golfinho

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br


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4 comentários

  1. Avatar

    Mas nem tudo é tão ruim, afinal devido ao desenvolvimento tecnológico os voos hoje são bem mais acessíveis. Perdemos em luxo mas ganhamos no preço e na eficiência. (Não, não foi por causa do PT que o pobre pode viajar de avião hoje.)

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    No EUA ainda tem Lockheed Constellation voando e a : LUFTHANSA VAI RELANÇAR VOOS COMERCIAIS COM AERONAVE LENDÁRIA em 2017.

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    Caro Calife. Como entusiasta e aluno de aviação cívil, informo que existe sim. No extinto musel da TAM em São Carlos interior de São Paulo, tem um Constallation dá extinta PANAIR em perfeito estado de conservação. Parabéns pela matéria!

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