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No tempo dos quintais e das árvores

Matéria publicada em 29 de novembro de 2019, 16:26 horas

 


Especulação imobiliária e ganância acabaram com a arte de viver bem

A minha geração teve uma infância bem diferente da atual. Não tínhamos celulares, jogos eletrônicos, nem internet. Mas, morávamos em casas com quintais cheios de árvores onde nossa imaginação criava mundos de aventura. Subíamos nas árvores e, às vezes, até construíamos uma casinha de madeira em cima dos galhos, como a dos filmes do Tarzan. Era o nosso clubinho exclusivo e particular. E desfrutávamos do prazer de chupar laranjas, mangas e jabuticabas que apanhávamos no pé, no quintal das nossas casas. Frutas frescas, não essas coisas congeladas e “bioengenheiradas” dos supermercados de hoje.
Esse tipo de vida, ao ar livre, em contato com a grama e as árvores, foi sendo destruído pela ganância e pela especulação imobiliária. Primeiro aconteceu nas áreas supostamente nobres das cidades. Veja o caso do Rio de Janeiro, a capital do nosso estado. Na década de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, Ipanema e Leblon eram bairros cheios de casas com quintais e mansões. Com árvores e verde a vontade. Aí, os terrenos foram se valorizando, as casas foram sendo demolidas e substituídas pelos espigões de concreto e vidro. E as crianças passaram a viver enclausuradas dentro de apartamentos, com breves visitas a uma praça ou área de lazer.
Durante algumas décadas, as casas antigas, com pomares e quintais amplos sobreviveram na zona norte da cidade. Onde o preço dos terrenos era menor. Lembro bem da rua onde morei nos Pilares, na zona norte do Rio, aí por volta de 1960. Todos os meus colegas de escola moravam em casas com mangueiras, laranjeiras e outras variedades frutíferas. E quintais amplos e cheios de espaço. Na esquina, no final do quarteirão, tinha um quintal com palmeiras imperiais se erguendo majestosas contra o céu azul.
Outro dia dei uma olhada na mesma rua e foi uma decepção. As antigas casas foram demolidas e os quintais ocupados por casinhas medíocres, todas iguais, com espaço apenas para uma garagem e uma varandinha. Onde as crianças de hoje não têm espaço para brincar ou soltar a imaginação. Mas elas não sentem falta. Estão hipnotizadas pelos joguinhos eletrônicos nas telinhas dos telefones celulares. Se a internet cai eles ficam atônitos, abobalhados, sem saber o que fazer.
Até em Pinheiral, uma cidade pequena, do interior do estado, a mesmice da casinha sem quintal, com tudo cimentado e cinzento está começando a se espalhar. Na minha rua só escapou a casa onde moro, onde mantenho o pomar e as árvores que meu avô plantou, gerações atrás. E as casas que pertencem a antiga Escola Agrícola, hoje Instituto Federal. Por serem propriedade da UFF elas mantêm seus amplos quintais e suas árvores frutíferas. Não é só uma questão de valorização dos terrenos. Acontece que o brasileiro médio não gosta de árvores. Eles acham que as folhas secas das árvores dão trabalho e sujam o chão durante o outono. E aí chamam as motosserras.
Na rua da segunda linha, na parte de cima do bairro onde moro, havia dois ipês que ficavam coloridos com as flores nessa época do ano. No mês passado o pessoal da prefeitura foi lá com as motosserras e decepou os dois ipês. Algum morador deve ter achado que eles “sujavam” o chão. As praças da cidade foram todas cimentadas por um prefeito que não gostava de verde. A moda agora é construir quadras de esporte, cimentadas e cobertas onde antes havia o verde.
Felizmente ainda existem pessoas que se agarram ao antigo estilo de vida de tempos outrora. E conservam as árvores em quintais que vão ficando cada vez mais raros.

Ipanema: O Rio antes dos espigões


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3 comentários

  1. Avatar

    Felizmente consegui construir meu lar em um terreno onde funcionava um antigo engenho e curral de uma fazenda.

    Há três árvores frutíferas aqui, e o chão é todo gramado.

    Não existe comparação em se tratando de qualidade de vida e paz interior.

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    Isso é tão romântico. Eu também já tive um quintal, que saudade desse tempo. Texto muito bonito.

  3. Avatar

    A especulação imobiliária gera favelas , bairros que alagam, bairros que sofrem com deslizamentos, etc, é um dos males do capitalismo. Belo texto.

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