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Nossas velhas certezas

Matéria publicada em 12 de novembro de 2019, 10:01 horas

 


“Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”
Raul Seixas

Se você tem muitas certezas, você provavelmente está mal informado.
O mundo está cada vez mais complexo e como essa complexidade é difícil ser decifrada a gente acaba muitas vezes ancorando nosso conhecimento numa espécie de ilha onde nossas certezas não são questionadas.
Os cientistas chamam de isso de viés de confirmação: consumir apenas aquele tipo de informação que reforça o que a gente já tem tendência a acreditar. Por exemplo, se eu acho que o amarelo é a melhor cor do mundo, eu só leio as notícias que dizem que o amarelo é legal.
E isso é piorado pela internet, porque a inteligência artificial percebe o nosso padrão de navegação e nos direciona apenas aquele tipo de informação, e então ela dá cada vez mais daquela coisa pra gente consumir. E então de repente, sem perceber, parece que o mundo inteiro gosta de amarelo como você.
O problema é que é intelectualmente saudável que a gente seja exposto a pontos de vista divergentes ou assuntos que a princípio não nos ‘interessam’. O consumo de mais do mesmo pode gerar a falsa sensação de que vivemos numa tribo homogênea, aumentando os muros com os quais construímos nossas ilusórias certezas. Em casos mais agudos, isso pode virar uma espécie de totalitarismo intelectual que pode dar vazão a extremismos e intolerância para aceitar as divergências típicas de uma sociedade democrática. Se você está nas redes sociais, vai entender o que estou dizendo.
E como a gente pode se blindar ou minimizar isso?
Eu por exemplo, tenho minhas ideias e inclinações, mas vou dar aqui alguns exemplos da minha biblioteca.
Como eu atuei muitos anos com Marketing, eu tenho um monte de livro de marketing. Mas eu tenho também diversos livros que criticam sem dó nem piedade o Marketing, como um da Naomi Klein, ativista americana porra louca e um do Olivero Toscani, fotógrafo da Benetton, que há mais de duas décadas já dizia que a publicidade estava morta. Um cara com um mente afiada e bastante lúcido nas críticas que faz desde os anos 90.
Eu acho o amor a coisa mais linda do mundo. Tenho uma infinidade de romances, mas tenho também um livro da Laura Kipnis, “contra o amor”, um libelo em que ela trucida a ideia do amor tradicional, do casamento e da monogamia.
Além de tentar mesclar a leitura de livros técnicos com obras ficcionais e clássicos da literatura, eu sempre tento me expor a opiniões e leituras que de certa forma contradizem minhas inclinações mais óbvias.
E isso deve se estender para além dos livros, até chegar onde importa, que é a vida real: tentar ouvir as pessoas (mesmo que não concorde com elas) e não apenas o canto sedutor do próprio umbigo.
Não é fácil consumir informação de fontes divergentes, sobretudo quando ela se choca com aquele referencial interno do que a gente acha que é o certo. É mais fácil ficar na nossa cápsula, cultivando nossas bolhas de certezas, achando não apenas que o amarelo é a cor mais legal do mundo, mas que todo o mundo é amarelão como a gente.
Consumir uma informação divergente não significa que você será volúvel. Mas você vai ficar mais tolerante e provavelmente mais inteligente também, porque sua escolha vai ser baseada num conhecimento mais profundo da realidade e não numa miopia causada pela preguiça de estudar e pela intolerância de compreender o outro lado.
E se você tiver preguiça de estudar e intolerância de ouvir o outro lado, um dia você será merecedor dos adjetivos reducionistas que as tribos rivais acéfalas cospem nos adversários.
E você pode ser muito mais do que isso.
Evite o viés de confirmação, pra não se tornar um amarelão.
Abra a mente, se informe e tente ter uma visão o mais abrangente das coisas antes de se fechar em suas certezas pétreas. O mundo está mudando tão rápido que o certo de hoje pode ser o errado de amanhã e uma velha opinião formada sobre tudo pode ser apenas isso: uma opinião velha.
E viva o amarelo, o azul, o roxo, o rosa, o preto, o cinza e a cor de burro quando foge.
E viva a genial metamorfose ambulante do velho e bom Raul, que era Maluco, mas era uma beleza.

Alexandre Correa é professor da FGV, escritor e palestrante corporativo. Ele está no YouTube, no Facebook, no Linkedin, no Instagram, no SPC e no Serasa. E não está no Tinder porque sua mulher não deixa.

 


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