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O Avro RJ-85 e o acidente na Colômbia

Matéria publicada em 2 de dezembro de 2016, 15:32 horas

 


Avião que caiu com o time da Chapecoense tinha voado pela Air France; acidente aconteceu em condições de tempo ruim

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O acidente com o avião Avro RJ-85, que transportava o time da Chapecoense, chocou o mundo esta semana. A aeronave acidentada na Colômbia era descendente de um modelo dos anos de 1980 que teve um papel importante nos meus primeiros anos como jornalista. Na época eu trabalhava no Jornal do Brasil, lá do Rio de Janeiro, e os ingleses queriam vender esse quadrimotor a jato para a ponte aérea Rio-São Paulo.

Tratava-se da primeira versão do Avro RJ-85, conhecida como Bae 146. A ponte aérea Rio-São Paulo funcionava com o saudoso Electra II, um turbo-hélice da Lockheed americana. Que era velho e seria trocado por jatos de última geração. Dois aviões disputavam para serem os sucessores do Electra, o Boeing 737 americano e o British Aerospace 146. Os ingleses estavam de fora do mercado brasileiro desde os anos 70, quando empresas brasileiras tinham operado com o bimotor OneEleven. E fizeram de tudo para vender o seu quadrimotor para os brasileiros.

Em 1986 eles convidaram jornalistas de todos os principais meios de comunicação para passar uma semana na Inglaterra, visitando a fábrica do avião em Hatfield e assistindo aos voos de demonstração que seriam feitos durante a Feira Aeronáutica de Farnburough. O editor do jornal perguntou se eu queria ir e aproveitei a oportunidade para ver a maior feira de aviação do mundo.

Experiência

Viajei com vários colegas de jornais e de revistas especializadas em aviação. Visitamos vários museus interessantes, como o museu da Força Aérea Real, que tem todos aqueles Spitfires e Lancasters da Segunda Guerra Mundial. E, é claro, fomos à fábrica do avião onde pudemos entrar em uma maquete em tamanho natural do Bae 146. Os anfitriões não deixavam de nos lembrar que era um avião silencioso e seguro, com quatro turbinas no lugar das duas do Boeing 737.

Mas no final foi o avião americano que substituiu o Electra. Apesar do fracasso no Brasil, a indústria inglesa conseguiu vender seu produto para outras empresas da América Latina, incluindo a Lineas Aereas Argentinas. Ele fez sucesso na Europa e deu origem a uma versão aperfeiçoada, o Avro RJ-85, adotado por várias linhas aéreas europeias como a Air France e a Lufthansa. Por sinal, o avião que caiu terça-feira na Colômbia fora comprado da Air France.

Em relação ao seu antecessor, o 146, o RJ-85 tem motores mais silenciosos, baseados na mesma turbina dos helicópteros Chinook e um glass cockpit com instrumentos totalmente eletrônicos.

O acidente na madrugada de terça-feira aconteceu em condições de tempo ruim, depois de o piloto relatar uma pane elétrica. Acidentes aeronáuticos costumam ser o resultado de um conjunto de fatores. Uma equação macabra onde entram as condições do tempo, as condições de manutenção da aeronave, a experiência dos tripulantes e o tempo de uso do avião. Aviões velhos, como era o caso do Avro da Lamia, podem sofrer problemas de fadiga metálica na estrutura.

Uma coisa chama a atenção nas fotos dos destroços. Primeiro, não houve incêndio, o que sugere que os tanques de combustível deviam estar quase vazios. Segundo, os destroços estão concentrados em um local pequeno, o que sugere uma queda vertical brusca. As causas exatas terão que ser apuradas em uma longa investigação que envolverá o exame dos gravadores de voo. É bom lembrar que uma pane elétrica em um avião com instrumentação eletrônica pode deixar a tripulação desorientada. No caso da Lamia não tem mistério. O RJ-85 caiu por falta de combustível.

 

Antigo: O avião acidentado ainda nas cores da Air France

Antigo: O avião acidentado ainda nas cores da Air France

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br


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11 comentários

  1. Avatar

    Se analisarmos detidamente a ação de todos os atores dessa tragédia, veremos que sem exceção, contribuíram de alguma forma, mesmo que indiretamente para o desfecho terrível! É um exemplo incontestável de quanto é mesquinho o ser humano e um convite para analisarmos detidamente nossas ações no dia a dia a fim de afastarmos os demônios que habitam em nossa mente. Podemos evitar muitas tragédias, precisamos de ter bons pensamentos e atitudes firmes, positivas! Amai-vos uns aos outros, já se ouvia há milênios!

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    Será que tem algo em comum o acidente com o avião na Colômbia e a Viação Sul Fluminense que invadiu a passarela do viaduto Nossa Senhora da Graças?

    http://diariodovale.com.br/tempo-real/onibus-invade-passarela-e-deixa-feridos-em-volta-redonda/

    Plano de voo – http://www1.folha.uol.com.br/esporte/2016/12/1837479-voo-do-aviao-da-chapecoense-estava-irregular-desde-o-inicio-diz-jornal.shtml

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    A queda do Boeing 737 da Gol não tem relação com a qualidade do produto.
    Os aviões da Embraer, empresa que nos orgulha, é de um nicho de mercado diferente dos aviões da Boeing e da Gol. Mesmo se compararmos um Embraer 195 com o Boeing 737-700 ou o Airbus A319, que são respectivamente o maior modelo da Embraer e o menos modelo da Boeing e Airbus veremos que as características de ambos são distintas.

    Se voltar,os a questão do acidente, o Legacy atingiu a asa do Boeing no meio, o que afeta diretamente a sustentação da aeronave, já o Legacy perdeu a ponta da asa.

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    Falta de combustível foi a consequência de decisão suicida de um maluco e de irresponsabilidade dos agentes controladores da aviação da Bolívia. Os irresponsáveis tiveram meia hora para decidirem a liberação da decolagem. Talvez só por isso todos os diretores controladores foram afastados imediatamente.

    Na reportagem a que tive acesso, o plano de voo (imagem) não deveria ser autorizado porque está claro a informação de exatos 04:22 de tempo de combustível e de tempo de voo.

    Nem para a controladora de tráfego do aeroporto de destino, nos minutos finais da gravação pedindo para aterrisar, o maluco falou que estava sem combustível.

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    Por falarmos em Avro e sobre essa aeronave nunca vou me esquecer.Meu primeiro voo ,marinheiro de primeira viagem . Era um Avro HS 748 da Varig . Faríamos a rota São Paulo (Congonhas )- Curitiba (Afonso Pena ) .Após 15 minutos da decolagem e apesar do céu de brigadeiro ,altitude adequada ,a aeronave do nada começou a trepidar intensamente a ponto de máscaras de oxigênio serem disponibilizadas ,tripulantes e passageiros em pânico sem saber o que estava acontecendo . Para consolo,pois nessas horas tenta-se agarrar-se a qualquer coisa ,ouve-se a voz do comandante anunciando que procedimentos seriam tomados para retorno à São Paulo por motivos de segurança. Em Congonhas ,quando chegamos e instantes da aterrissagem ,mais agonia .Dava-se para ver a pista coberta de espumas e várias viaturas do corpo de bombeiros e ambulâncias . Descemos de “”barriga “”sem saber o que aconteceu ,como de praxe ,porém salvos .Prefiro viajar de Boeing.

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    O acidente não denota qualquer falha de projeto com esse modelo, embora pessoalmente seja fã dos EMBRAER da Azul… Cai um Boeing, mas não um Legacy… A EMBRAER é um orgulho nacional…j

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