domingo, 24 de março de 2019

TEMPO REAL

 

Capa / Colunas / O Boeing 737 Max8 e o fantasma do Comet 1

O Boeing 737 Max8 e o fantasma do Comet 1

Matéria publicada em 15 de março de 2019, 08:31 horas

 


Acidentes com avião moderno lembram a tragédia dos anos 50

Esta semana vários países suspenderam os voos com o Boeing 737 Max 8, depois que a queda de um jato deste modelo matou 157 pessoas na Etiópia. Além da Gol brasileira e da Aerolineas Argentinas, o 737 Max8 foi proibido de voar no Reino Unidos, China, Austrália, Coreia do Sul, Singapura, Omã, Malásia, Indonésia e Mongólia. Em outubro do ano passado outro avião do mesmo modelo caiu na Indonésia matando os 189 ocupantes. Nos dois casos eram aeronaves novas, com poucos meses de uso, que despencaram misteriosamente logo depois de decolar dos aeroportos. As duas aeronaves foram vistas mergulhando com o nariz para baixo sem nenhum motivo aparente.

As caixas pretas dos dois aviões foram recuperadas e teve início uma investigação para descobrir se os acidentes foram provocados por alguma falha intrínseca deste modelo. A Boeing suspeita que as tripulações estejam tendo dificuldades com os novos controles eletrônicos do avião. O Boeing 737 é um dos maiores sucessos do gigante aeroespacial americano. Desde que o primeiro modelo entrou em operação, cerca de 10 mil 737 foram construídos e vendidos. Acontece que os primeiros 737, fabricados em 1967, eram aviões de tecnologia antiga, com controles totalmente hidráulicos, diferentes das versões fly by wire, cheias de computadores usadas atualmente.

Os acidentes e as suspeitas em torno do 737 Max8 lembram a tragédia dos Comets, que abalou a aviação no início da década de 1950. O De Havilland Comet foi o primeiro avião comercial a jato e era o orgulho da indústria aeronáutica inglesa. Quando entrou em operação, em 1950 não havia nada igual no mundo. O primeiro jato comercial americano, o Boeing 707 só entraria em operação em 1958, quase uma década depois. Infelizmente a alegria dos ingleses durou pouco. Em 1953 e 1954 três Comets se desintegraram em voo provocando o cancelamento das operações com a aeronave.

Um dos aviões, o BOAC G-ALYP caiu no mar Mediterrâneo em janeiro de 1954, perto da ilha da Elba, 20 minutos depois de decolar do aeroporto de Ciampino, em Roma. Como o mar não é muito profundo naquela região, a marinha britânica conseguiu recuperar uma boa parte da fuselagem, as asas e os motores.  Em 8 de abril a tragédia se repetiu com o Comet G-ALYY, alugado pela South African Airways. Ele também se desintegrou em voo e caiu perto da ilha de Nápoles no Mediterrâneo. O Comet era um avião pequeno, que transportava 50 passageiros e o número de vítimas nos dois acidentes não passou de 56 pessoas, 35 no primeiro avião e 21 no segundo.

A imprensa falava de sabotagem por parte de agentes estrangeiros, interessados em minar a liderança da indústria aeronáutica inglesa. Mas o exame dos destroços indicou uma falha estrutural provocada por fadiga metálica. Para comprovar a hipótese a fuselagem de um Comet foi mergulhada num tanque e submetida a tensões semelhantes as que seriam provocadas por meses de voos contínuos. Descobriu-se então que o processo de montagem das janelas, com rebites, provocava um aumento de tensões no metal, que começava a se rachar depois de certo número de voos. A pressão interna da cabine pressurizada fazia o resto e o avião literalmente explodia.

A De Havilland redesenhou as janelas e reforçou a estrutura de metal em torno delas. Mas o Comet 1 nunca mais voltou a voar comercialmente. Em 1958 surgiu uma versão maior e mais aperfeiçoada, o Comet 4 mas só as linhas aéreas estatais da Inglaterra se interessaram pelo modelo. E os americanos assumiram a liderança no transporte aéreo a jato com o Boeing 707.

Irônicamente, 65 anos depois, é a Boeing que tem um de seus aviões retirado de circulação devido a suspeita de uma falha intrínseca ao modelo. O que pode abalar seriamente o prestígio da gigante americana.


Comente com Facebook
(O Diário do Vale não se responsabiliza pelos comentários postados via Facebook)

5 comentários

  1. Avatar

    Além dos Comet I, houve o caso dos Electra I da Lockheed no final dos anos 50 e o do malfadado DC-10 da McDonell-Douglas no inicio dos 70. Deixo-os como sugestão ao colunista.
    Quanto a associação da Embraer com a Boeing criticada por um comentarista, lembro que a Airbus já se associou a concorrente da Embraer, a Bombardier. Se a Embraer tentar manter-se no mercado sem ter ao lado uma associada de peso como a Boeing, com certeza não irá sobreviver. E quanto a entrar no mercado de Wide-bodies, seria necessário um know-how que demandaria investimentos bilionários pela Embraer; além de que esse mercado esta mundialmente dividido entre Boeing e Airbus. O mercado de jatos de curto/médio alcance que a Embraer já atua é muito mais promissor.

    • Avatar

      Associação é uma coisa. Uma joint-venture ou mesmo uma fusão, sob alguns termos, seria até aceitável… Mas o que estão querendo fazer é outra coisa, é uma incorporação. A Boeing ser controladora da EMBRAER, e isso não é concebível sob qualquer ponto de vista dos interesses brasileiros…

  2. Avatar

    Ótima oportunidade para a EMBRAER, com seus jatos confortáveis e confiáveis, desenvolver aparelhos para o mercado WIDE-BODY… Bem, isso só seria interessante se Bolsonaro não aprovar a sua incorporação com a Boeing, o que na minha opinião seria a maior prova de antipatriotismo do presidente e uma pá de cal na confiança de seus eleitores que acreditaram no discurso “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”… A EMBRAER é a única presença forte do Brasil no ramo da indústria de alta tecnologia, um orgulho do povo brasileiro, reminiscência palpável do sonho de Santos Dumont. É também, e por larga margem, a maior exportadora de produtos industrializados do Brasil, com produtos de altíssimo valor agregado, diferente do petróleo, minério, produtos agropecuários e outras commodities…

  3. Avatar

    Foi um duro golpe na Boeng, justamente no momento que ela poderia abrir uma vantagem sobre a européia Airbus.
    As duas gigantescas empresas, agora deverão se preparar para uma recuperação da imagem.
    A Airbus com a descontinuação do A380, e a Boeing com os preocupantes acidentes do Max 8.

  4. Avatar

    O risco é que, se a Boeing realmente levar enormes prejuízos com esse 737 Max 8 e se foi concretizado o negócio dos entreguistas brasileiros quase dando a Embraer para essa empresa americana, daqui a pouco eles vão apressar a redução da produção ou até fechar a fábrica de aviões no Brasil, alegando déficit, levando só o que interessa de seus projetos para os EUA.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Required fields are marked *

*

Untitled Document