O Brasil e os meninos da Tailândia - Diário do Vale
quinta-feira, 16 de agosto de 2018

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O Brasil e os meninos da Tailândia

Matéria publicada em 17 de julho de 2018, 07:42 horas

 


Nosso buraco é ainda mais fundo que a caverna de Tham Non

A mídia internacional fez uma festa com o resgate dos adolescentes, presos a um quilômetro de profundidade nas cavernas da Tailândia. Pessoalmente acho difícil de entender porque um grupo de jovens se enfia num buraco profundo, de onde precisam da ajuda dos adultos para saírem. Coisa de adolescente claro. Jovem adora se meter numa roubada e depois dar trabalho aos adultos para tira-los de lá. Pior é o nosso Brasil, que se meteu num buraco tão fundo que não tem equipe de resgate que consiga nos tirar de lá.
Os governos petistas colocaram o Brasil na pior recessão de sua história. E ainda tem brasileiro querendo que o Lula volte. Vai entender isso. Os sintomas da recessão estão em toda a parte, e estamos longe de enxergar a famosa “luz no fim do túnel”. Quarta-feira de manhã sai de casa e pensei em cortar o cabelo. Fui até a barbearia, que ficava na praça Brasil, em Pinheiral, e a encontrei fechada. Com um aviso na porta anunciando o aluguel daquele espaço.
Deixei o corte de cabelo para outro dia, almocei e peguei o ônibus para Volta Redonda. Naquele dia eu também precisava comprar um cadeado novo para o portão lá de casa. Cheguei à Vila e caminhei até o chaveiro que ficava ali perto do shopping. Surpresa, o chaveiro também tinha fechado suas portas e não existia mais.
Aí fui pra redação do jornal onde trabalho. Ao lado ficava uma loja grande, que vendia de bicicletas a painéis solares. Também tinha fechado as portas definitivamente. A situação tá desse jeito. Você vai numa loja hoje, no mês que vem descobre que ela não existe mais. Faliu devido aos altos impostos e encargos e pela falta de clientes. Reparem no número de estabelecimentos que fecharam nos últimos anos, é enorme e envolve até firmas tradicionais que existiam há décadas, mas sucumbiram diante da crise atual.
Nossos políticos ainda agem como se estivéssemos no auge do “milagre brasileiro”. Semana passada, aprovaram a criação de 300 novos municípios. Com todo o seu séquito de prefeitos, secretários, assessores. E quem vai o pagar a conta somos nós. Como vamos pagar também pelo projeto, também aprovado na semana passada, que isenta as famílias de baixa renda de pagarem a conta de luz. Como não existe almoço grátis a conta será cobrada de todos aqueles brasileiros que ganham mais de um salário. São os políticos tirando do nosso bolso para pagar a conta do assistencialismo eleitoreiro. Desse jeito o Brasil vai continuar patinando na lama do fundo da nossa caverna ainda por muito tempo.
Voltando aos jovens tailandeses, acho que eles precisam urgentemente de uma mudança de perspectiva. A ideia de se enfiar num buraco profundo, por livre e espontânea vontade não passava pela cabeça dos jovens do meu tempo. Nosso sonho era galgar lugares cada vez mais altos e vivíamos de olho no céu, não nas profundezas escuras. Acho que era a influência da corrida espacial, que dominava os noticiários na época em que eu tinha 13, 14 anos.
Naquela época morávamos no Rio de Janeiro, que era bem diferente desse Rio de Janeiro de hoje, dominado por bandidos. Nossa aventura era escalar os morros em torno do nosso bairro. Coisa impossível de se fazer hoje em dia. Naquele tempo morro não era fortaleza de traficante e me lembro de ter subido até no topo do Morro do Alemão, para olhar a paisagem lá de cima. Que permitia um vislumbre do horizonte até a Ilha do Governador com seu aeroporto e o vai vem de aviões.
A espeleologia, que é a exploração de cavernas, é uma das atividades mais perigosas do mundo. E certamente não deve ser tentada por amadores. Sugiro que os jovens tailandeses tentem uma atividade menos perigosa. Como um clube de construção de foguetes em miniatura, ou de escalada de montanhas. Aquela serra, perto da caverna, é linda e parece a silhueta de uma mulher deitada. O importante é olhar pra cima, e não para baixo.

Buraco: O importante é olhar pra cima e não para baixo.
РFoto: Reprodṳ̣o

5 comentários

  1. Guilherme D'ávila

    Ridículo! Bolsominion… Políticas recessivas do governo Temer você não fala. Então fala uma política pública?

  2. Aliás, uma coisa boa que Dilma fez foi ter vetado projeto de lei com texto idêntico… Isso deveria ser proibido, usar subterfúgios para tentar, repetidas vezes, que se aprove um determinado requerimento!…

  3. Excelente crônica!

    Então aprovaram o projeto de criação de mais 300 municípios no Brasil, se aproveitando da celeuma da Copa do Mundo. Só tenho a lamentar, nem eu me lembrava mais disso. Vejo Pinheiral, Quatis, cidades-dormitório que nada arrecadam e vivem como parasitas das cidades maiores, onde o grosso de sua população trabalha, estuda, compra e busca serviços… Criar um município é igual o filho ir morar sozinho mas continuar dependendo do pai pra pagar suas contas. Pouco dinheiro para ele, menos dinheiro para o pai… Um município novo, por menor que seja, tem todo um aparato administrativo que envolve o pagamento de salários para centenas de pessoas, quando não milhares, entre pessoal eletivo, de carreira, cargos comissionados e contratados. Tem gastos com manutenção das mais diversas, gastos com obras, pavimentação, postos de saúde, hospitais, escolas, etc… Enfim, o dinheiro é o mesmo, mas é dividido por mais pessoas. Eu não consigo enxergar um argumento plausível para os pró-emancipacionistas que não seja o interesse próprio do político e a ignorância da população local…

    É, do jeito que andam as coisas, precisamos primeiro de ordem, o progresso vem em consequência, e só vejo um candidato capaz de restabelecer o pulso firme, o respeito aos valores e à hierarquia. Não é meu preferido, mas não vejo ninguém melhor. Farei assim como fiz na eleição municipal, e acho que dará certo no final…

  4. Calife, parabéns pela crônica de hoje!
    Para quem não entende o espaço livre é para isso, não é para argumentação e convencimento, é apenas para relatos do cotidiano e isso o Calife faz muito bem.

    É um orgulho para nós as suas crônicas semanais aqui no Diário do Vale de um autor reconhecido internacionalmente de livros de ficção hard e até de livros infantis.

    • “As pessoas que falam muito, mentem sempre, porque acabam esgotando seu estoque de verdades”.
      Millôr Fernandes

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