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O charme e a elegância do Caravelle

Matéria publicada em 16 de maio de 2017, 07:05 horas

 


Avião inaugurou a era do jato no Brasil e foi parar em Cuba; turbinas na cauda garantiam um voo mais silencioso

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Um leitor desta coluna me lembrou do Caravelle, outro avião que marcou época no Brasil. Era um bimotor fabricado na França, que inaugurou a era dos aviões a jato entre nós. Duas empresas já extintas, a Cruzeiro do Sul e a Varig, começaram a usar o pequeno Caravelle em voos domésticos e para o exterior, aí por volta de 1960. Até então nenhuma outra empresa brasileira tinha operado com jatos puros. O Caravelle foi o primeiro avião a ter as turbinas montadas na cauda, uma novidade seguida por outros fabricantes.

As turbinas na cauda garantiam um voo mais silencioso, e deixavam as asas aerodinamicamente livres. Fabricado pela Sud Aviation, ele carregava 80 passageiros na sua primeira versão e tinha linhas elegantes, que lembravam o Comet inglês. Não era coincidência, a Sud Aviation francesa tinha um acordo de cooperação com a de Havilland inglesa. E como parte desse acordo o Caravelle tinha o nariz e a cabine de comando baseados no desenho britânico (que foi o primeiro jato comercial a voar no mundo).

As turbinas também eram fabricadas na Inglaterra, pela divisão aeronáutica da Rolls Royce, fabricante dos famosos carros de luxo. Voar no Caravelle era andar no Rolls Royce dos céus. Até James Bond, o agente 007, rendeu-se ao charme do avião francês e embarcou em um Caravelle da empresa suíça Swissair no romance “A serviço de sua majestade”. No Brasil o avião era tão popular que o personagem de um programa humorístico da TV tinha um bordão que dizia “Lá vai o Caravelle!”.

E o Caravelle ia. Ia para Manaus, Porto Alegre, Brasília, Buenos Aires e Natal. Um Caravelle brasileiro foi até parar na Cuba do Fidel Castro, sequestrado por militantes da esquerda. Outro dia uma das sequestradoras do Caravelle foi entrevistada na TV e contou que levou os filhos pequenos com ela durante o sequestro. Imaginem só, ela saindo de casa e as crianças perguntando: “Mamãe, vamos ao cinema?”. “Não queridos, vamos sequestrar um avião!”.

O barato acabou no segundo sequestro, quando um Caravelle da Cruzeiro do Sul foi invadido pela polícia da aeronáutica no aeroporto do Galeão, hoje Tom Jobim, e os sequestradores presos.

A partir daí eles deixaram o Caravelle em paz e passaram a sequestrar embaixadores. Uma novidade do avião francês era a porta traseira, que vocês podem ver no anúncio da Alitalia. Em todos os aviões comerciais da época o passageiro entrava pelas laterais. O Caravelle era o único onde se entrava pela cauda. O Boeing americano copiou o desenho e a escada do Caravelle em seu Boeing 727.

As janelas também eram diferentes, em forma triangular. Isso reduzia o tamanho, mas permitia que o passageiro tivesse uma visão ampla da paisagem abaixo. Os fabricantes tinham muito cuidado com o projeto das janelas naquela época devido aos desastres ocorridos com o Comet 1 britânico. O Comet tinha janelas quadradas que provocavam um processo de fadiga metálica, desintegrando o avião em voo. Com o Caravelle isso nunca aconteceu.

Até 1965 o jato francês reinou soberano nos céus do mundo. Mas, no final da década, começou a sofrer a concorrência de modelos semelhantes, americanos e ingleses. As companhias brasileiras trocaram seus Caravelles pelo Boeing 727 e pelo BAC One Eleven britânico. Como muitos jatos pioneiros o Caravelle consumia muito combustível e a crise do petróleo deixou as empresas interessadas em aviões mais econômicos.

Mesmo assim, na África e na Ásia ele continuou a ser usado até o final do século XX. Um dos últimos a operar foi o Caravelle Zero G do Centro Francês de Pesquisas Espaciais. Ele fazia voos parabólicos para produzir um breve período de microgravidade a bordo. E era usado no treinamento dos astronautas da Agência Espacial Europeia.

Único: As turbinas e a escada traseira do Caravelle

Único: As turbinas e a escada traseira do Caravelle

 

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br


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5 comentários

  1. Avatar
    Al Fatah, o Horrendo

    Já andei de Caravele, mas a empresa de ônibus, no Rio… Nome bonito, charmoso. Alusão clara às embarcações que singravam os mares na Era dos Descobrimentos, conectando pontos distantes do globo…

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    Verdade. A ditadura foi uma mãe. O Estado Nazista, através de sua fortíssima propaganda e controle de mídia da época, foi por este mesmo caminho, em que todas as mazelas da Alemanha teria sido provocada pelos judeus, comunistas, homossexuais e pessoas q não faziam parte da raça pura. E vejam só no que deu.

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      Sim, politizar uma matéria deveras interessante beira ao pueril.

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      Realmente, se compararmos a ditadura militar brasileira com o regime do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores da Alemanha (Nazista) e o regime comunista cubano, os militares do Brasil foram umas mães mesmo. No mundo real é assim, escolhemos entre o ruim e o horrível, muito diferente da utopia que acreditam lá na esquerdolândia.

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    Muito legais estes artigos sobre aeronáutica e astronáutica, dariam um bom livro sobre o assunto.
    Outra coisa interessante é a lembrança dos crimes praticados pelos militantes de esquerda da época, guerrilheiros sanguinários que lutavam para implantar uma ditadura comunista no Brasil e hoje têm a cara de pau de falar que lutavam pela democracia.

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