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O conflito de gerações no ônibus de Pinheiral

Matéria publicada em 3 de junho de 2016, 09:30 horas

 


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Nos ônibus que circulam pela região, tem sempre uns quatros bancos amarelos, com uma cor bem forte. Um aviso na parede diz que eles são reservados para idosos, mulheres grávidas ou pessoas com deficiência física. No ônibus de Pinheiral, geralmente são seis assentos amarelos, o problema é que ninguém respeita – principalmente se o ônibus estiver cheio, no horário de maior movimento.

Outro dia, o ônibus parou no ponto ali em frente à CSN, por volta das seis da tarde. Um grupo de trabalhadores fortes, na faixa dos vinte anos, entrou no ônibus cheio e um deles sentou em um dos assentos amarelos. Os colegas começaram a rir e brincar com ele. O rapaz não se intimidou e ainda avisou: “Se entrar um cabeça branca, eu finjo que estou dormindo”. As mocinhas adolescentes também adoram sentar nos bancos reservados aos idosos. Já vi uma menina de uns 14 anos correr na frente de uma senhora de 70 anos e ocupar o único assento amarelo que ainda estava vago. Ficou lá, digitando mensagens no celular, enquanto a senhora, com idade para ser a avó dela, viajava em pé.

Parte desse problema resulta da má qualidade do transporte coletivo. Entre Pinheiral e Volta Redonda, as pessoas pagam quase R$ 5 para viajar em pé em ônibus superlotados. E, na disputa por um lugar, os velhos sempre perdem para os jovens mais ágeis. Já comentei várias vezes, aqui nesse espaço, que a solução para o transporte coletivo na nossa região é a volta do trem urbano. Como o trem elétrico, que circulou nas décadas de 1960 e 1970. Infelizmente, os nossos políticos só falam disso em época de eleição. Depois, esquecem rapidinho.

A outra parte do problema vem da cultura brasileira, que despreza os idosos. Até o governo gostaria que todos morressem rapidinho para não ter que pagar aposentadorias. Aposentadoria que fica cada vez mais difícil de conseguir, a cada governo que assume o poder lá em Brasília. Em outras culturas é bem diferente. No Japão, por exemplo, o idoso é respeitado como fonte de sabedoria e recebe uma atenção especial aonde quer que vá. Um jovem japonês jamais pensaria em tomar o assento de um idoso no metrô ou num ônibus. Esse respeito pelos velhos é comum em vários países orientais.

Conflito de gerações

Aqui no Brasil já foi bem melhor. Na minha infância, os jovens de Pinheiral cumprimentavam os idosos na rua, tomavam a benção. Hoje em dia, eles passam correndo em suas bicicletas, “tirando fino”, e ainda dão um grito para assustar o velho. No ônibus, outra mocinha que voltava do trabalho, reclamou “desses velhos inúteis que ficam passeando de ônibus e tomando o lugar de quem trabalha em pé no balcão o dia inteiro”.

É o velho conflito de gerações que está chegando ao auge nos tempos modernos. Mas, não são somente os velhos que sofrem na disputa por um lugar para sentar. A galera moderna não respeita nem as mulheres grávidas ou com crianças no colo. Nesse caso, o trocador do ônibus toma uma medida radical. Quando entra uma grávida, o ônibus fica parado no ponto até alguém ceder o lugar. E o trocador avisa: “Se não der um lugar para a grávida, o ônibus não sai”. Muito a contragosto, tem sempre alguém que cede. Afinal, todos querem chegar em casa o mais rápido possível.

Hoje em dia se fala muito da corrupção e da falência moral da sociedade brasileira. Mas, a questão também passa por aí. Coisas como cortesia e gentileza foram esquecidas. Estamos virando um povo bruto, boçal e agressivo. E, como todo mundo sabe, os jovens de hoje vão ser os adultos de amanhã. Que educação eles vão dar para seus filhos, se não tem nenhuma? Vão esperar que a escola eduque a nova geração?
Coitadas das professoras.

Assentos amarelos: o problema é que ninguém respeita (Foto: Arquivo)

Assentos amarelos: o problema é que ninguém respeita (Foto: Arquivo)

JORGE LUIZ CALIFE | jorge.calife@diariodovale.com.br


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14 comentários

  1. Avatar

    Mas como assim que os jovens não têm educação ou que não são gentis? Eu andei e meus filhos aprenderam a andar de ônibus, apesar de eu ter um carro na garagem e outro de trabalho, e dão lugar e respeito aos mais velhos (eles contam isso mesmo, e não deixam o Calife mentir). Se os outros jovens não são assim é porque os pais não educam eles.

    Coitadas das professoras por quê?
    Não são as professoras que têm de educar filho de ninguém. Elas não são especialistas nisso, mas especialistas em INSTRUIR um estudante para uma profissão se utilizando das disciplinas de Língua Portuguesa, Matemática, e Ciências. Elas se focando nisso já é garantia de um jovem exemplar.

    Professor nenhum EDUCA filho dos outros; professor INSTRUI estudantes. Isso é que é preciso ser compreendido para que tenhamos jovens melhores.

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    CIDADÃO VR - O Original

    Por essas e outras é que meu filho de 17 anos, que foi bem educado e assimilou a educação recebida, já está pensando em sair de País! Que tristeza! Mas vamos fazer a nossa parte. Gentileza gera gentileza. Estou muito velho pra sair do País. Vou tentar melhorar o meu pedaço!

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      Oriente a seu filho a ficar, pois ele não concordando que esta situação, vai ajudar a melhorar a minha tbm.

      Se ele for para outro país terá de se submeter a coisas que tbm não concorda, como por exemplo votar nos mesmos ou evitar a votar em candidato que receba dinheiro de empreiteiras, e coisa e tal que ele não vai concordar com a maioria.

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    Prezado Zero! Com respeito aos seus dizeres sobre o meu comentário acima, devo-lhe dizer que v. precisa inteirar-se um pouco mais sobre os acontecimentos históricos. Quanto à confiança e lucidez, digo-lhe, ainda, que v. não possui nenhuma autoridade de julgamento para fazê-lo. O seu manifesto é, tão-somente, uma opinião puramente subjetiva de sua parte, o que, por certo, não desqualifica o meu comentário.

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    Criança com a Mãe no Colo

    Isto é só um exemplo da falta de educação. Educação de berço.

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    Vejo este fato constantemente, infelizmente.
    Os adolescentes não dão lugar aos mais velhos, especialmente aos idosos.
    Sentam nos bancos e são indiferentes aos que trabalharam a vida inteira e necessitam de um “descanso” merecido.
    Falta educação!

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    AH!Tem muitos meninos (muitos) educados, que não precisam estar focados nas cadeiras “amarelinhas”. Desocupou um banco, eles oferecem o lugar, p/ a pessoa mais velha. Princípios, são princípios. Não é maioria,(ainda) mas tenho esperanças, que um dia seja. Tenho 80 anos. Mas tem pessoas aí (idosos) que precisam desconfiar. Tô nem aí, p/ lugares em ônibus, filas. Tá ruim? Tô fora!

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    Falou tudo, mas isso depende muito do bairro. Aqui em VR há linhas que atendem regiões nas quais a população é mais educada, como a 160 e 155, onde sempre se vê muitas pessoas preferindo viajar em pé a sentar em tais bancos… Quantos aos estudantes, principalmente os adolescentes, esses são sempre os mais folgados, as meninas mais até que os rapazes. Elas devem pensar que o mundo deve se sujeitar à sua vaidade petulante, acham bonito ser rebelde, mas a vida acaba ensinando afinal…

    Por outro lado, os idosos de hoje também não são nem um pouco educados. Muitos são rabugentos, não agradecem eventuais gentilezas e alguns praticamente exigem que vc ceda seu lugar (geralmente um banco alto) mesmo quando há vários outros assentos disponíveis. Humildade passa longe, mas deveria ser a regra para quem não tem mais força física para se impor. O respeito, para ser espontâneo, deve ser recíproco…

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    A meu ver, e pode-se constatar a todo momento, a chamada “galera moderna”, com as exceções de praxe, é estúpida e babaca com o seu comportamento no meio social. O respeito deve ser reservado a qualquer pessoa, seja ela jovem ou idosa. Porém, o robolescente não consegue enxergar o óbvio: quando se tornar idoso, se o homem da foice não o visitar antes, ele é que será a vitima. Ele será, inevitavelmente, o alvo do escárnio. E mais. Um dia ele poderá se odiar por ser velho.

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      Com esse codinome de torturador comunista me desculpe mas não transmite confiança ou lucidez no comentário.

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    Os acentos são preferenciais e pode ser ocupados por outras pessoas se não tiver pessoas dentro do requisito para ocupa – las.
    Concordo que o povo ainda é ignorante, sem cultura e educação, mas se alguém manda o indivíduo sair do banco pra um idoso, ou grávida sentar-se queria ver se outros passageiros interferiram a seu favor.
    Tinha que ser comunicado ao motorista e esse tonar providências, nem que fosse interromper a viagem e solicitar auxílio da polícia.
    Muita coisa ainda tem que mudar nesse País, República de banana.

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      Muita coisa tem que mudar no meu Brasil, uma república de banana, mas antes disso é muitíssimo necessário os eleitores mudarem de voto já em outubro.

      Não votando nos mesmos já é um avanço e tanto;

      Não esperar as pesquisas indicarem o candidato será mais um passo importante;

      Não votar em partidos cujas bandeiras têm a cor vermelha já eliminaremos muitos candidatos que apoiam essa corrupção;

      Não votar em candidatos que não recebam de EMPREITEIRAS, então será a mudança da água para o vinho.

      Como pode ver: numa única vez que vamos às urnas já eliminamos MUITOS BANANAS do meu Brasil.

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    Nem idoso de 60 anos de idade e em razoáveis condição física e mental tem pena de outros de 80 ou mais em situação bem pior que a dele. É só reparar nas filas que dão preferência aos idosos, grávidas ou com criança no colo e deficientes em geral. O cara em boa forma, todo cheio porque fez 60 e agora pode entrar na preferencial, não está nem aí para os mais caidinhos atrás dele na fila. Casos assim as vezes também acontecem na preferência dos bancos no ônibus, ou seja, os mais ou menos não se preocupam com os que estão mais para menos.

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      Boa observação Paulinho, vou contar uma história estava em um ônibus lotado e dei meu lugar( não era banco amarelo) para uma senhora que sequer me agradeceu , seguimos viagem e eu em pé na sua frente ao descer ela ainda me empurrou e para da caminho cheguei para trás e outra pesssoa sentou no banco .Eu esperava que quando fosse descer ela retribuiria a o gesto nobre , porem e assim se os mais novos não tem respeito os mais velhos não são muito diferentes.

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